Redes estadual e municipal de educação do Rio de Janeiro entram em greve



Profissionais municipais de educação fazem ato na Prefeitura

Por Rodrigo Barrenechea, do Rio de Janeiro

Nesta quinta, 8 de agosto, profissionais de educação do Município e do Estado, reunidos em suas respectivas assembleias declararam greve por tempo indeterminado. Esta ampla greve da educação eclode em um momento ímpar da nossa história. No momento em que milhões de brasileiros se levantaram contra os desmandos dos governos, questionando o uso do dinheiro público em obras faraônicas e deixando os serviços públicos em situação deplorável, os profissionais de educação cruzam os braços protestando contra as políticas educacionais dos governos estadual e municipal.  

Dois pontos em comum afetam os educadores das duas redes: Falta de respeito à lei do Piso Nacional, que regulamenta a destinação de 1/3 da carga horária docente ao planejamento, com o agravante de obrigar o cumprimento dessas horas na escola; e a luta contra a meritocracia, que cria um sistema de remuneração salarial baseado em desempenho e qualificação permanente, desrespeitando tanto o princípio da isonomia quanto os planos de carreira vigentes.

Além disso, cada uma das redes tem sua própria pauta de reivindicações. A rede municipal pede, entre outras coisas, 19% de reajuste, plano de carreira unificado – já que os funcionários não estão incluídos no PCCS – e melhores condições de trabalho. O desgaste que os profissionais do município sofrem no exercício de suas funções é enorme, com falta de funcionários e salas de aula superlotadas. 

Já a rede Estadual exige reposição emergencial de suas perdas salarias, de 28%, a derrubada do veto do governador Sérgio Cabral à lei que garante a lotação do servidor numa única escola, jornada de 30 horas para os funcionários, a garantia do retorno dos funcionários a suas escolas de origem, relotados pelo governo para avançar no plano de terceirização das funções administrativas nas escolas e, por fim, a regularização dos animadores culturais, fora do plano de carreira desde os anos 90. A luta também é contra a falta de democracia nas escolas. Na rede estadual não há eleições para direção escolar desde 2005, por força de lei estadual aprovada durante o mandato de Anthony Garotinho, criando uma situação de permanente conluio entre as secretarias de educação e os diretores de escola e rompendo a confiança da comunidade escolar neles. Por fim, os educadores da rede Estadual já entenderam que este estado de coisas só pode ser resolvido, num primeiro momento, com a saída desde governador-ditador que assola o Rio de Janeiro. A pauta estadual, então, se encerra com o "Fora Cabral, fora Risolia". Na sexta-feira a secretaria de educação chamou o Sepe-RJ para uma reunião na próxima segunda para discutir a pauta de reivindicações da categoria.

Os titulares da pasta de educação do estado e do município dizem muito sobre o projeto para educação desses governos. O secretário de educação do estado é Wilson Risolia, um economista mais interessado em implementar planos de "otimização" da gestão do que elevar o nível da educação estadual – uma das piores do país. Já a Secretaria Municipal de Educação, que simplesmente negou que houvesse greve, tem como titular Cláudia Costin, com formação em administração e economia, que já integrou o gabinete do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


Se os métodos "pedagógicos" das secretarias têm muito em comum, isso não se deve apenas ao fato de ambos os governos serem do PMDB, mas também por serem base do governo Dilma, que implementou planos semelhantes, como atesta a resolução de 2012 do Conselho Federal de Educação, presidido pelo ministro-economista Aloísio Mercadante, que recomenda a implementação da meritocracia nos planos de carreira dos educadores nos estados e municípios. Por outro lado, se a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE) assinou embaixo dos planos do MEC, os trabalhadores em educação não estenderam esse aval, como demonstram as recentes greves no primeiro semestre deste ano, especialmente a da rede estadual em São Paulo. Só a luta dos trabalhadores será capaz de barrar essa ofensiva neoliberal e, junto aos pais e alunos – organizados em seus grêmios e entidades estudantis –, construir um projeto de educação progressista, comprometido com a parcela mais pobre da população e com a mais ampla divulgação das artes, ciências e tecnologias.

Próximos passos da greve:

Rede municipal: quarta, 14/8, 10 horas assembleia (local a confirmar) com passeata até o Palácio da Cidade, em Botafogo. Concentração na estação de metrô Botafogo (saída da Rua São Clemente)

Rede estadual: ato hoje, 16 horas, no Palácio Guanabara para acompanhar reunião do SEPE-RJ com o vice-governador Pezão e com o secretário de Educação, Wilson Risolia. A próxima assembleia será na quarta, 14/8, 14 horas, local a confirmar.