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Atos reivindicando democracia agitaram o Rio nesta terça-feira

Manifestações democráticas contrastaram com ofensiva dos governos e da grande mídia

Por Rodrigo Noel e Rodrigo Barrenechea, do Rio de Janeiro


   A manhã de hoje começou agitada no Rio. Com um ato marcado pela ampla unidade dos setores democráticos da política fluminense, a OAB-RJ recebeu em sua sede, no Centro do Rio, o ato "Em defesa da democracia - Contra a criminalização da liberdade de manifestação". O auditório da seccional ficou pequeno. Ali estavam parlamentares de esquerda, ativistas de direitos humanos, jovens estudantes, sindicalistas, militantes feministas, advogados e toda uma gama de bravos lutadores e lutadoras que estavam ali em defesa da democracia, em defesa do direito a reunião e organização política.

   Os informes e relatos de arbitrariedades promovidos pelo Governo do Estado do RJ são alarmantes. Vão desde a invasão a casa de militantes sem mandado de busca, com confisco de livros e documentos pessoais, até inquéritos intermináveis, no intuito de perseguir politicamente aqueles que defendem uma sociedade mais justa e fraterna.
Cyro Garcia
(por celular)

   Em sua fala, o presidente do PSTU-RJ, nosso companheiro Cyro Garcia, contextualizou a repressão que vivemos nos dias atuais: "O Rio de Janeiro vive com mais intensidade esse recrudescimento da criminalização dos movimentos sociais, mas esse é um processo nacional. Em Porto Alegre nosso companheiro Matheus Gordo teve sua casa invadida, documentos e livros confiscados e é acusado de formação de quadrilha. Em São José dos Campos (interior de SP), o companheiro Renatão foi processado pela mesma juíza que ordenou o massacre do Pinheirinho, por organizar um tradicional bloco de carnaval do sindicato dos metalúrgicos da região".

   Ao final do ato, foram organizadas comissões de diálogo com os movimentos sociais, de profissionais do Direito e outra comissão que reúne os parlamentares, a fim de organizar a luta em defesa da democracia nos mais diversos âmbitos de atuação. Antes de encerrar a atividade, chegou a todos e todas a informação que a ALERJ (Assembleia Legislativa do RJ) acabara de abrir um inquérito disciplinar contra a deputada estadual Janira Rocha (PSOL-RJ) por esta ter dado carona a advogada Eloisa Samy ao sair do Consulado do Uruguai, onde foi pedir asilo ontem.

Mídia criminaliza e faz o serviço sujo dos governos


   Em matéria publicada no jornal O Globo, são feitas acusações a diversos sindicatos, como o Sepe e o Sindipetro, de envolvimento com os ativistas acusados. Além de notoriamente inverídica, a reportagem tem perigosas implicações para a relação entre meios de comunicação e liberdades democráticas.
   Segundo O Globo, a investigação da polícia civil "revelou indícios do envolvimento de sindicatos no financiamento de protestos". Tais indícios "foram usados para abrir um novo inquérito, com o objetivo de chegar aos financiadores". Ainda, segundo a reportagem, foram lançados coquetéis molotov contra os integrantes da Força Nacional de Segurança.
   Vamos primeiro às respostas dos sindicatos: o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), em nota, refuta as acusações do jornal, afirmando que suas reivindicações são elaboradas pelo conjunto da categoria dos educadores, por meio de assembleias. Ainda, que nelas não constam "apoio do sindicato à atos violentos e de dilapidação do patrimônio público ou privado"; por fim, que nada é decidido de forma secreta ou clandestina, já que as reivindicações "são amplamente divulgadas pela imprensa do sindicato, através da sua página oficial do SEPE/RJ na internet ou quando a Coordenação Geral é chamada para entrevista". Já o Sindipetro-RJ, em nota assinada por seu secretário-geral, Emanuel Cancella, rejeita "as distorções trazidas na matéria 'A conexão sindical' do Jornal O Globo desta terça-feira, 22 de julho, que busca criminalizar movimentos sociais e manchar o nome e a história de luta da nossa entidade". Além disso, diz que a suposta ajuda dada a manifestantes na verdade se tratava de auxílio dado a atos políticos legais, como "o protesto contra o leilão de Libra e outras manifestações, como os atos contra a privatização do Maracanã, em defesa da Aldeia Maracanã, contra a demolição da Escola Municipal Friedenreich, do Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare. Consideramos legítimo o apoio a livre expressão dos movimentos sociais na luta por direitos sociais e por uma vida melhor. Nada disso é proibido pelas leis brasileiras". Por fim, na nota o Sindipetro questiona a ética editorial da reportagem, "que deu um péssimo exemplo de jornalismo ao publicar matéria baseada em inverdades e sem ouvir a versão dos fatos do alvo de seu ataque, neste caso, nós do Sindipetro-RJ".
   Quanto às escolhas da matéria, um aspecto da nota assinada por Cancella é sintomático: a falta de provas sobre a suposta violência dos manifestantes contra a Força Nacional de Segurança, no ato contra o leilão de Libra, na Barra da Tijuca. "Diferente do que fala a matéria, também vale destacar que a violência no ato contra o leilão de Libra partiu da força policial. Temos toda a manifestação gravada e nos colocamos a disposição para comprovar essa grande inverdade da matéria". Ou seja, a reportagem de O Globo não apenas não ouviu todas as partes envolvidas, como não foi a fundo na apuração dos fatos. Nós, do Pstu Rio, estivemos presentes ao ato e não vimos nem coquetéis molotov nem que a violência tenha partido dos manifestantes. Ao contrário, foi a FNS que investiu contra os ativistas, que pouco fizeram além de se proteger das bombas de gás e balas de borracha.
   Cabe então perguntar: o que deseja o jornal O Globo com essa linha editorial? A sua tão propalada "isenção" pode ser levada à sério diante de acusações sem fundamento? Sua "imparcialidade" leva a que só um dos lados da questão seja ouvida? Ou se trata de validar o intento de criminalizar os movimentos sociais por meio de um discurso que diz quem vai às passeatas é "vândalo" e que sindicatos, fóruns de ativistas ou partidos são "quadrilhas"?

À noite, ato cultural pede libertação dos presos políticos


   No fim do dia, outra manifestação, realizada também no centro do Rio, pediu pela liberdade aos presos políticos. Reunidos em frente ao Tribunal de Justiça, os ativistas lavaram a escadaria do prédio, em protesto às prisões arbitrárias e em alusão do caso de Rafael Braga. Ele, preso por supostamente portar explosivos e detido no complexo penitenciário de Bangu, estaria na verdade levando detergente em sua mochila.
   Apesar da forte presença policial, o ato - que marchou do TJ até a Cinelândia, onde um show foi feito - transcorreu em calma. A propósito da presença da PM, chegou a nosso conhecimento que uma profissional de imprensa ligada à esquerda foi continuamente provocada pelos policiais, que diziam a ela que "isso não ia dar em nada", "que todo mundo ia mofar na cadeia", entre outras afrontas.
   Também presente no ato à noite, Cyro Garcia falou da criminalização dos movimentos sociais e da necessidade de se desmilitarizar a polícia. "Exigimos liberdade imediata a todos os lutadores da classe trabalhadora e arquivamento dos processos em curso!", disse.

1º de maio combativo e classista!



por Rodrigo Barrenechea

   Aproximadamente 400 pessoas caminharam pela Avenida Brasil, na zona norte do Rio de Janeiro, no ato de Primeiro de Maio convocado pela Plenária de Movimentos Sociais. Os manifestantes protestaram contra a ocupação militar das comunidades pobres, por mais investimentos em saúde, educação e moradia e apresentando uma alternativa classista e combativa para a classe trabalhadora. A passeata concentrou-se num dos acessos ao Complexo da Maré, em frente à Fiocruz, e caminhou por cerca de 1 Km, até a Passarela 7 da Avenida Brasil. Chegando lá, sindicatos, movimentos sociais e de juventude, e partidos políticos falaram por uma forma diferente de se tratar a pobreza no país, sem assistencialismo e sem repressão policial.

   Este ato teve grande importância não apenas por se realizar na Maré, comunidade ocupada pelas Forças Armadas, mas por se colocar como alternativa aos eventos das principais centrais sindicais, como a CUT ou a Força Sindical, que fazem "festas" com shows de artistas e sorteios. Desta forma, a data perde todo seu caráter de luta da classe trabalhadora, transformando-se num palco para apoiadores ou opositores do governo Dilma, que por fim buscam apenas aperfeiçoar o capitalismo e a exploração social.  


Agora, é preparar o dia 15 de maio, primeira data das jornadas de luta que antecedem os protestos durante a Copa do Mundo.

A morte de DG: o dia em que o morro desceu, e não era carnaval

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Quando a periferia sangra pelas mãos das UPPs, ela se incendeia com indignação; foi o que aconteceu com Amarildo, Douglas, Claudia e DG

Lucas Viana, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU


   No último dia 21, Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, foi mais um negro assassinado pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de janeiro (RJ). A vítima, que era dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo, foi encontrada com sinais de tortura e baleado numa creche no morro Pavão-Pavãozinho. A polícia, num primeiro momento, alegou que o dançarino, ao fugir de um tiroteio, havia morrido em decorrência de uma queda.

   A PM esperou que isso fosse o suficiente para calar e intimidar a população local. Entretanto, a comunidade não hesitou em descer o morro e ocupar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana para denunciar os abusos e o genocídio que as polícias vêm promovendo, além de exigir justiça às vítimas e o fim das UPPs.

Era só mais um Silva
“Era trabalhador, pegava o trem lotado
Tinha boa vizinhança, era considerado
E todo mundo dizia que era um cara maneiro
(...) E o pobre do nosso amigo, que foi pro baile curtir
Hoje com sua família, ele não irá dormir”

(“Era só mais um Silva”)

   DG, não por coincidência, tinha sobrenome Silva e havia encenado, em Junho de 2013, sua própria morte no curta-metragem Made in Brazil, de Wanderson Chan, que ilustra o triste cenário das comunidades ocupadas pelas UPPs, onde jovens negros, trabalhadores e pais de família são diariamente abordados, intimidados, agredidos e mortos de maneira arbitrária, com a desculpa de serem confundidos com traficantes.

   Segundo o Instituto de Segurança Pública, de 2007 a 2012, foram registrados 553 desaparecimentos nas 18 primeiras comunidades pacificadas no Rio. Só em 2010 foram 119 desaparecidos, número que aumenta ano após ano e coloca em alerta a população negra e periférica do Rio, que hoje encara a luta contra as UPPs como a luta pela sua própria sobrevivência. Depois de Amarildo, nenhuma morte passa sem que o morro desça às ruas e exija justiça.

Pavão-Pavãozinho: o dia em que o morro desceu
   O fato de a comunidade do Pavão-Pavãozinho descer até Copacabana evidencia o novo momento político em que vivemos. Em junho, o aumento das tarifas do transporte foi o estopim para que a população percebesse que as ruas são o espaço para as transformações reais na sociedade. Hoje, quando a periferia sangra pelas mãos das UPPs, no dia seguinte ela se incendeia com a indignação da população. Foi o que aconteceu com Amarildo, Douglas, Claudia e agora com DG.

   Não há dúvidas, apesar da negligência nas perícias e investigações, de que se tratou de mais um assassinato cujo responsável é o governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB) com sua política de segurança pública, que é a principal responsável pelo genocídio da população negra em curso. Tudo isso é evidenciado quando se lê cartazes feitos por moradores do Pavão nas manifestações, como “A maquiagem da UPP é o sangue dos inocentes”; “Hugo Leonardo (...) foi tido como bandido na mídia por calúnia dos policiais (...), e DG, Edilson e Amarildo são outras vítimas da UPP. Queremos Justiça!”; “Fora UPP”; “PM assassina”. Atualmente, tão essencial quanto a luta por transporte, saúde, educação e outros direitos sociais, o que se ouve nas ruas, por parte da população negra é a reivindicação por permanecer viva e pelo direito ao futuro.

   Trata-se, em termos gerais, da luta contra a ideologia racista e do sistema que rebaixa os negros à categoria de coisas, que permitiu que fossem escravizados e mercantilizados por quase 400 anos no Brasil e que, hoje, faz com que sejam “carne barata” no mercado de trabalho, além de “justificar” o descaso do governo e da elite com o genocídio da população negra.

O mito da democracia racial e as lágrimas de crocodilo de Pezão
   O governador Pezão convidou a mãe de DG, Maria de Fátima da Silva, para uma reunião, que foi prontamente recusada pela técnica em enfermagem: “Nenhum político vai se projetar em cima da imagem do meu filho. Existem outros crimes iguais ao do meu filho que não foram solucionados até agora, como o da auxiliar de serviços gerais, Claudia da Silva Ferreira, que caiu no esquecimento (…). Eu quero uma polícia correta e digna na rua e não uma polícia assassina. E não homens armados, tendo a população como inimiga. Eu quero que ela [a polícia] aja com rigor e traga à tona a verdade desse caso”.

   A atitude louvável de Maria de Fátima vai no sentido oposto ao amplamente difundido mito da democracia racial, cujo centro é acreditar que negros e brancos possuem as mesmas oportunidades, os mesmos riscos ou que ocupam postos de igualdade na sociedade e que,por isso, todos os conflitos sociais e raciais podem ser resolvidos com um grande acordo entre a “casa grande” e a “senzala”.

   Um exemplo desse mito é o próprio programa de televisão em que DG trabalhava, o Esquenta, que espetaculariza a pobreza, a colocando como mais um produto a ser vendido e consumido, além de exibir um mundo que, na prática, não existe: onde brancos e negros convivem harmoniosamente, sem as relações de opressão ou exploração que existem na sociedade. Ou como se essas relações não fossem relevantes, como o exemplo clássico da empregada negra que samba alegremente com a patroa branca, o que não é verdade.

   No programa do último domingo, 27, que homenageou DG, a democracia racial atacou mais uma vez: o assunto da violência foi tratado de maneira abstrata, como se todos ali, de Regina Casé a Carolina Dieckman, sofressem o mesmo risco que DG e a população negra e periférica de morrerem assassinados. Ou como se um episódio do programa com condolências de globais, como Pedro Bial ou Jô Soares, fossem suficientes para fazer justiça ao caso específico do dançarino, e não a resolução do problema de conjunto, que é, entre outras coisas, a desmilitarização das polícias e a retirada das UPPs das favelas.

   Além disso,  não é verdade que Pezão, ao chamar a reunião com Maria de Fátima, estava preocupado em garantir que este e outros casos semelhantes se solucionassem ou que o genocídio da população negra se encerre. Pelo contrário, mediante a falência da política das UPPs e da revolta generalizada que faz com que a população desça do morro em protesto, Pezão aceita com gratidão a ajuda do governo de Dilma Rousseff, que ocupou, desde o início de abril, com suas Forças Armadas, o complexo da Maré.

   Portanto, mediante esta situação, não é possível conciliar a “senzala” com a “casa grande”, pois são polos com interesses opostos. De um lado, os governos fazem de tudo para garantir a Copa do Mundo para inglês ver, intensificando a ocupação das favelas e morros, para conter a população que quer lutar contra as injustiças sociais, sendo uma delas o seu próprio genocídio. De outro lado, está a população preta das periferias, como a de Pavão-Pavãozinho, que dão um exemplo de luta e resistência. Os ventos de junho seguem soprando em nosso país.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Transformar o luto em luta
   Para além do grito de justiça pelo essencial, que é a investigação rigorosa, afastamento e punição dos policiais envolvidos na morte de DG e em outros casos de desaparecimento e morte das centenas de moradores das comunidades ditas pacificadas, é uma questão urgente a retirada imediata das UPPs das favelas e morros do Rio.

   A principal desculpa para que os governos de Pezão e Dilma ocupem hoje as favelas e morros é a guerra às drogas, mas esta é uma política que, a cada dia, anuncia o seu próprio fracasso por ser a causa direta do genocídio da população pobre e preta das periferias, além do seu encarceramento em massa.

   Se o governo está realmente interessado em acabar com o tráfico, fazer justiça a DG e garantir a vida e o futuro da população negra, deve haver uma inversão de prioridades: ao invés de se investir mais de R$ 30 bilhões com a Copa das injustiças, deve se investir nos direitos sociais mais básicos, como saúde, transporte, educação e cultura, além da urgente legalização das drogas e desmilitarização das polícias.

   Entretanto, se Pezão e Dilma não estão dispostos a ouvir as ruas, o Pavão-Pavãozinho e os pretos da periferia de conjunto estão dispostos a transformar o luto em luta e fazer um novo junho acontecer, mas dessa vez com a inspiração em Palmares.

Protesto contra o aumento das passagens no Rio é marcado por forte repressão policial



por Rodrigo Barrenechea


Fotos: RB
  Nesta quinta, 6 de fevereiro, realizou-se mais um ato contra o aumento das passagens no Rio de Janeiro. O reajuste, de R$2,75 para R$3,00, foi autorizado pelo prefeito Eduardo Paes apesar de posição contrária do Tribunal de Contas do Município - fato que só veio a público após o anúncio do aumento e esteve cercado de uma guerra pela imprensa. Paes, por outro lado, lançou mão de uma medida paliativa, ao acenar com a extensão do passe-livre a estudantes universitários beneficiários de programas sociais como as cotas e o PROUNI. Nós, do PSTU, achamos que o passe-livre deve ser irrestrito, não apenas a todos os universitários, mas também a todos os estudantes da educação básica, e sem limitação no número de viagens, como ocorre hoje em dia.
  
 Por volta de 4500 pessoas participaram da manifestação, iniciada na Candelária e que prosseguiu ocupando duas das pistas da Avenida Presidente Vargas. O destino, desta vez, era a Central do Brasil, que num outro ato já tinha sido cenário de um "roletaço", com o acesso aos trens sendo liberado pela ação dos ativistas. Participaram do ato, em sua maioria, jovens, mas trabalhadores de diversas categorias e participantes de movimentos sociais também fizeram-se presentes. A presença de partidos e movimentos de esquerda, assim como do Fórum de lutas do RJ, com uma grande faixa, deu a tônica do ato.
  
Tropa de choque da PM preparada para reprimir
os manifestantes nas proximidades da Central do Brasil

Ao chegar à estação Central do Brasil, um forte aparato repressivo já aguarda os manifestantes; no entanto, a PM não pôde impedir, num primeiro momento, a entrada dos ativistas. Isso garantiu, mais uma vez, o "roletaço", com muitos subindo nas catracas e permitindo o acesso dos passageiros aos trens sem pagar passagem. Contudo, passado algum tempo, a tropa de choque iniciou a repressão, com o uso de cassetetes e bombas, tanto de efeito moral quanto de gás lacrimogêneo.

  Aos poucos, os manifestantes foram sendo retirados da estação, que aos poucos foi sendo fechada pelos seguranças da Supervia, com a ajuda da tropa de choque da PM. Foi a partir daí que a repressão policial se intensificou, com mais bombas sendo lançadas de forma a tentar dispersar os grupos que se postavam próximo aos acessos da Central. Foi por esse momento que uma das bombas atingiu na cabeça de um cinegrafista da TV Band, levando-o ao hospital com afundamento de crânio e em estado grave. 

      Para nós do PSTU, o fato de haver um conflito nas ruas do centro da cidade, em plena tarde de uma quinta-feira, é de exclusiva responsabilidade do governo e suas policias. A permanente repressão policial é que tem causado os feridos graves durante os protestos. 

  A repressão continuou noite adentro, mas uma boa parte dos manifestantes acabou por recuar para perto do Campo de Santana em busca de abrigo, retornando pela Presidente Vargas. Há o relato de pelo menos dois feridos graves, o cinegrafista da televisão e um idoso que teria sido atropelado por um ônibus, além de vários detidos pela PM.


  Fica claro aqui duas coisas: que o transporte público, que deveria ser encarado como um direito da população, é visto como uma mercadoria; e que, como é tradicional no Estado burguês, o "direito à propriedade" é sagrado - no caso, a propriedade das empresas de transporte -, sendo defendido com todas as armas pelos governos e tratando a população como inimiga, na mais velha tradição da Ditadura Militar. Portanto, duas medidas são absolutamente necessárias: a estatização dos transportes, sob controle dos trabalhadores, de forma a garantir a Tarifa Zero sem subsídios aos donos das empresas, aliados de primeira hora dos governos; e a imediata desmilitarização da polícia, autêntica herdeira do regime militar de 1964. Contudo, como os governos Paes e Cabral, do PMDB, são aliados do PT de Lula e Dilma, o governo federal nada fará no sentido de garantir nem sequer a discussão dessas propostas...

    O PSTU Rio se solidariza com as famílias dos feridos com gravidade, assim como com os demais agredidos e detidos pela selvagem repressão da PM do ditador Cabral. Mesmo de saída, ele não deixa de lançar suas bombas contra a luta dos trabalhadores e da juventude. Porém, isso não vai nos intimidar, e - como já ficou consagrado desde o ano passado, nas Jornadas de Junho - "amanhã vai ser maior!"
  
editado às 00:45 de 08/02/14

Um novo rolé para Rodrigo Constantino

Arte do chargista Latuff

   Caro Rodrigo Constantino. Li sobre o seu Joaquim. Gostaria de lhe apresentar a história de Maria.

   Maria era uma menina muito pobre, que estudava em uma escola pública e morava numa favela. Cansada, após apoiar a greve dos professores, resolveu dar um rolezinho em uma biblioteca. Ela sabia que aquilo mudaria sua vida, pois seus professores sempre indicavam isso, e ela fazia constantemente. Diferente de muitas pessoas da classe média. Que tem livros em suas casas, mas não leem.

   Lá, ela descobriu os clássicos e muitos contemporâneos. Sófocles, Shakespeare, Kafka, Dostoiévski, Camus, Mas ela se cansara de tantos brancos europeus mortos. Com Elisa Lucinda, navegou pelas entranhas da natureza de ser mulher negra imperfeita. Com MV Bill, chegou ainda mais fundo no “horror”, entendendo o que acontece quando a polícia entra na favela sem respeitar morador.

   A fome lhe ensinou sobre a propriedade privada, e a PM lhe explicou o poder da “mão visível”, segurando uma arma, que acaba levando a um resultado terrível, com  cada um seguindo os próprios interesses.

   Lima Barreto foi fundamental para sua compreensão das vantagens comparativas e do privilégio branco. Ela soube que mesmo em trocas voluntárias em que tivesse menos habilidade em tudo, ainda assim elas poderiam ser mutuamente benéficas. Só que na sociedade brasileira não acontece isso

   Com Milton Santos, soube entender o relativismo cultural, e que é necessário ter conhecimento sobre a história e cultura afro-brasileira e africana. Compreendeu, ainda, que o conceito da Grande Sociedade Aberta, é uma falácia à brasileira, que o Estado brasileiro mantém segredos para si mesmo; é uma sociedade autoritária, uma sociedade em que nem  todos são respeitados, com o conhecimento de todos.  Assim como os curtos limites da tolerância desta.

   Abdias do Nascimento foi crucial para que ficasse mais atenta àquilo que não se vê de imediato, ou seja, o Racismo das oportunidades das escolhas ou políticas públicas. Isso a ajudou a criticar a visão míope de muito governante em busca de votos, com suas medidas populistas e assistencialistas de cunho racistas.

   De Malcom X ela absorveu as verdadeiras características das mentiras da democracia americana, da escravidão nada voluntária que esse país impôs aos negros,o que ajudou a construir uma nação próspera, porém injusta. A morte do reverendo Martin Luther King  sepultou de vez qualquer confiança na política americana, que tivesse sobrevivido após a lavagem cerebral dos programas na televisão.

   Mano Brown, intelectual brasileiro, deixou bem claro com suas letras que os poderes executivos, judiciário e legislativo são corrompidos e o poder absoluto corrompe absolutamente. Que  o ser humano é descartável no Brasil..

   Ela mergulhou na Escola Pública. Descobriu com seus professores de História, Filosofia e Sociologia, e nunca mais levou a sério o Globo ou a Veja. Já tinha noção clara de que, mesmo sob tanta propaganda, o sistema capitalista não poderia funcionar, pela impossibilidade das crises cíclicas do capitalismo.

   Dos pensadores conservadores, como Burke, John Adams, Russell Kirk, Oakeshott, Isaiah Berlin, Irving Babbitt e Theodore Dalrymple, capturou a importância do que falava Kabengele Munanga: que esses eram brancos europeus mortos, que pouco acrescentavam às tradições e cultura afro-brasileira, que  os limites da razão, os riscos das ideologias e utopias, o enorme perigo das revoluções são sementes a serem cultivadas.

   Passou também a desconfiar da democracia burguesa, entendendo que esta é a simples tirania da minoria sobre a maioria.  As bem constantes incursões do BOPE lhe ensinaram sobre os necessários limites constitucionais do poder estatal. Montesquieu, coitado, reescreveria sobre a divisão dos poderes, ao se ver numa favela.

   Cabral, o governador, foi como uma luz ao lhe mostrar a “destruição destruidora”.Da Educação, da Saúde, da Segurança Pública. Agora temia mais o avanço tecnológico, as inovações capitalistas,  pois sabia que estas  geravam mais riqueza( para quem tinha já muito dinheiro) e eliminava novos empregos.


   Muniz Sodré  lhe mostrou a falácia da meritocracia na Educação, e Renato Emerson, a eficácia das cotas raciais.

   Lendo – e  entendendo – as critícas ao mundo capitalista de seus tempos, de Orwell, Huxley, Ayn Rand e Koestler, ficou apaixonada por todo tipo de tentação,pelas “soluções mágicas” que criariam um “mundo melhor” ou uma nova humanidade.  Sabia que o coletivismo era o caminho para a destruição do individualismo egocêntrico.

   Estudou Economia, com Marcelo Paixão, e ficou sabendo que “vários “intelectuais” colocavam as “ideias abstratas acima dos seres de carne e osso, louvando a Humanidade, mas agindo com profundo desdém em relação aos próximos”. E aprendeu que a isso dá-se o nome de “Editorial de O Globo”.

   Descobriu também que possuia a música em si. Funk, clássica. Pagode. De tudo escutou, pois tudo lhe era humano e belo:  Mozart, Kiss, Beethoven, Paralamas, Brahms, Titãs, Bach, ABBA, Chopin, Rachmaninoff, Florence, Tchaikovsky, e ficou encantada.  Aquilo tudo esteve e está em sua alma! Foi Joãozinho 30, e sua estética do Luxo e do Lixo, quem lhe demonstrou a importância da beleza em nossas vidas. Fazia agora tudo: filmava, compunha, dançava, pintava; posto que tudo é arte, nada é arte.

   Leu muito os poetas negros Arnaldo Xavier (1948-2004) e Ricardo Aleixo, e ficou interessada na experimentação e na intersecção entre as linguagens.

   Com Cidinha da Silva, prosadora refinada, aprendeu a situar seu texto na nervura do presente, atenta aos ardis das representações e das afecções a que são submetidos os negros contra um pano de fundo multimídia.

   Maria tinha um espírito lutador, e desejava muito melhorar de vida. Foi com sua bagagem cultural com os amigos no shoping, tentar a sorte, dar um rolé.  Era verão, tava calor,  anos 2014, com mais oportunidades de se divertir. Sempre olhara para os playboys com ódio, nunca inveja. Eram uma afronta para ela, um exemplo a ser combatido. Hoje ela é um militante de sucesso e vive em paz.

   Em sua velha comunidade, é chamada  de “irmã”. Por ser negra acusam-na de se comportar como um “negra feminista” e defender sua raça. E ela sempre entendeu dessa forma. Para ela, o normal é desejar mudar a vida, dela e dos seus. Combater  a discriminação dessa “missão civilizadora” racista, machista e exploradora e não desfrutar dela. Até hoje ela é muito grata pelo rolezinho que decidiu dar no shoping, e perceber o quando sempre fora discriminada pela hipócrita “alta cultura” quando jovem.

Rio 50 Graus, Uma cidade que não seduz: Repressão, remoções e falta de água e luz.

PM de Sérgio Cabral reprime em remoção feita pela prefeitura de Eduardo Paes 
Fonte: Mídia Informal


Juzerley Santos, redação RJ

Sol escaldante, praias lotadas e clima geral de férias? Que nada o verão carioca está sendo marcado por protestos populares e a repressão policial.

Mostrando que os ares de junho ainda estão presentes, manifestações têm ocorrido pela região metropolitana do Rio, apesar do intenso calor. Algumas motivadas pelos problemas cotidianos que os trabalhadores do Rio de Janeiro enfrentam, como falta de água e luz ou devido às remoções da Copa e a crescente criminalização e o extermino do povo pobre e negro nas favelas.

De dia falta água
Já na primeira semana de 2014, no dia 4/01, moradores do Santo Cristo, na Zona portuária da capital, protestaram interditando ruas do bairro contra a falta d'água na região. A Cedae, empresa responsável pelo fornecimento de água, responsabiliza reparos de vazamentos e remanejamento de tubulações, provocados pela derrubada do viaduto da Perimetral pelos transtornos. Já a concessionária Porto Novo, responsável pela derrubada do viaduto,  afirma que as obras não têm relação com a falta d'água em Santo Cristo.  Faltaram culpar os próprios usuários ...
A própria grande imprensa relatou inúmeros casos de falta d’água em bairros das zonas Norte e Oeste da cidade e em municípios da Região Metropolitana, como São Gonçalo e Duque de Caxias. O que provocou manifestações como na Vila Ati, no Tanque (Zona Oeste do Rio) onde moradores protestaram com baldes vazios.
A Cedae negou a falta de água generalizada e informou que nesta época do ano, o consumo aumenta cerca de 30%, acarretando muitos “problemas pontuais”. Pronto culparam os usuários ...

De noite falta luz
Moradores fecham a Niterói-Manilha contra falta de luz
Fonte: Magé on line
Ainda antes da virada de ano, os moradores de diversos bairros de  Niterói (Icaraí, Engenho do Mato) e de São Gonçalo (Colubandê, Engenho Pequeno, Porto Novo) sofreram com problemas de falta de luz. Outras cidades também foram seriamente impactadas como Campos, Angra dos Reis, Petrópolis, Teresópolis,  Araruama, Maricá e Magé.
Com a demora na resolução do problema alimentos e remédios se estragaram, comerciantes ficaram de portas fechadas e as pessoas sofriam ainda mais com o calor já que não podiam apelar para ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. 
Na cidade do Rio também ocorreram protestos contra apagões. Como nas imediações da Mangueira e do Morro da Matriz, no Rio, e nos bairros do proto Novo e Engenho pequeno, em São Gonçalo, com fechamento e interrupção de tráfego em vias importantes através de barricadas de pneus e galhos de árvores.
Tanto a Ligh quanto a Ampla, concessionárias responsáveis pelo fornecimento de energia elétrica no estado, responsabilizaram o aumento no consumo e os temporais e ventanias pelos problemas e interrupções no fornecimento de energia.
É bom frisar que a ampla (que atende Niterói, São Gonçalo, região dos lagos e Norte Fluminense) é a nona colocada entre as 30 empresas mais acionadas, segundo o próprio Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Mangueira teu cenário é de luta
Charge do cartunista Latuff em solidariedade
aos moradores da Favela do Metrô
Na Mangueira, desde o dia 05/01, a comunidade tem se enfrentado com a Polícia Militar por conta de protestos contra o assassinato do jovem, Wellington Sabino. Moradores denunciam que os disparos que vitimaram Wellington foram dados por um PM.
No dia 07/01, moradores da Favela do Metrô (comunidade vizinha a Mangueira) em protesto contra as remoções. A Polícia Militar que estava na comunidade desde cedo para impor a ordem de remoção e derrubada das moradias reprimiu violentamente a manifestação lançando bombas de gás lacrimogêneo e agredindo inclusive grávidas, crianças e idosos.
Com a continuidade e o aumento da presença policial, à noite, os moradores fecharam a Radial Oeste, principal via de ligação entre o centro e a zona Norte na região. Mesmo liberada pela PM a via foi novamente fechada por barricadas na manhã seguinte (8/01) gerando novos enfrentamentos.
A Favela do metrô é uma comunidade extremamente carente, com moradias sem água e sem luz e esgoto correndo a céu aberto.  Mas é caracterizada pela presença de inúmeras oficinas de automóveis. Ironicamente a prefeitura de Eduardo Paes, que prometera urbanizar a área, pretende agora derrubar tudo para fazer um estacionamento de carros para o Maracanã.

“Não vai ter Copa”
Em 2014 povo na rua questionará gastos com a Copa
É interessante notar que essa semana imprensa e apoiadores do governo ficaram histéricos com a repercussão nos jornais da palavra de ordem “Não vai ter Copa”. Afirmaram como contraponto “Sim, teremos Copa” e saíram com vários artigos e matérias condenando aqueles que continuam a questionar e criticar os mandos e desmandos por trás de tudo que tem envolvido a preparação da Copa e das Olimpíadas.
Evidentemente sabemos que o mais provável é que a Copa aconteça. Até porque um grande esquema midiático, policial e judiciário está sendo montando para garantir a festa da Fifa, Globo e governos.  Aliás, quem coloca em risco a Copa é o próprio governo Dilma e seus aliados que acabam de oficializar a montagem de uma tropa de choque nacional com mais de 10 mil homens para reprimir os protestos que estão previstos para a época do evento.
Mas, tudo isso, não impedirá que os indignados, os removidos, que os barrados dessa “festa”  saíam as ruas. A bronca com falta de água e luz em vários bairros do Rio e Grande Rio e a manifestação contra a remoção e repressão na Favela do Metrô na Mangueira representam a expressão viva do lema “Não vai ter Copa” que tanto amedrontam os governos e as autoridades policiais.