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Pelo carnaval de rua livre, autêntico e não mercadológico

Por Rafael Nunes, do Movimento Luta Popular 


Não existe expressão maior de liberdade para o Carioca que não seja a palavra “Carnaval”. No fim de semana anterior que precede a folia, nos dias oficiais em que as ruas estão tomadas e no final de semana seguinte derradeiro, as pessoas largam suas mascaras em casa, deixam apenas de existir e passam a “ser”!

O tempo corre diferente, mas é pontual, o bloco nem sempre espera! A fanfarronice é caprichosa e exige um planejamento, um trabalho de fantasias dos pés até a cabeça, investimentos em confetes, serpentinas e todos dão duro na alegria de chegar até o final do cortejo. Depois todos se abraçam e já combinam o próximo bloco, cordão ou rancho, que pode sair a qualquer momento. Todos se apressam!

Os melhores dias do ano precisam ser aproveitados plenamente. As pessoas sentem-se livres, dançam em qualquer avenida (a espontaneidade afloresce), bebem já pela manhã, emendam madrugadas, urinam em plena segunda na porta do edifício do trabalho; sente-se um clima de amizade e de interações coletivas, tudo parece como deveria ser.

Onde existem multidões existe oportunidade! Assim funciona nossa sociedade e nada parece ser completamente livre num sistema de antagonismos sociais. Para se pensar o maior espetáculo do mundo, o carnaval oficial das grandes escolas, é só nos remetermos a um corajoso e imortal samba do Império Serrano de 1982. “Super Escolas de Samba S/A, Super-alegorias. Escondendo gente bamba. Que covardia! Bum, bum paticumbum prugurundum. O nosso samba minha gente é isso aí”. 

Infelizmente os blocos de carnaval, que ganharam força a partir de seus próprios ideais de liberdade, também sofrem essa nociva pressão mercadológica. Esse ano, o novo salto de qualidade veio com a divulgação de festas privadas, nos dias oficiais de carnaval, com ingressos caros, dentro do ex-Maracanã (desfigurado e privatizado). E para nossa surpresa consta um bloco alternativo como uma das atrações. 

No ano passado, do dia para a noite, criaram-se blocos que nunca haviam desfilado, venderam abadás e prometeram colocar cordas para preservas foliões privilegiados do restante das massas. Ocorreu uma revolta, que partiu da consciência de ideário de carnaval de rua, pelos Cariocas e assim o Prefeito foi obrigado a baixar um decreto proibindo esse tipo de comercialização. 

Sem dúvida uma grande vitória da luta contra a mercantilização do carnaval. Parcial, pois essa mesma prefeitura financia blocos temáticos de rock, funk, covers, e outras sandices turísticas com generosas somas de recursos financeiros, enquanto os blocos tradicionais, que tocam as eternas marchinhas de carnavais ficam relegados às cotizações dos próprios foliões. Sem contar que essa mesma instância governamental ainda faz uma série de exigências para autorizar os desfiles dos blocos, que na prática os tira da rua, contribuindo ainda mais para a elitização da festa e a busca por grandes patrocinadores, que emporcalham as ruas com suas logomarcas.

Muita coisa está errada, mas o carnaval popular do Rio de Janeiro, de Rua, ainda é livre e a maioria dos seus blocos auto financiados e autênticos, na tradição musical e nos desfiles. A alegria, a emoção e a liberdade mais uma vez se farão presentes com os blocos familiares de Vila Isabel ou da Grande Tijuca, os da alegria autêntica do subúrbio e da baixada, em especial os de Madureira, os fabulosos da Região Portuária, onde sempre relembramos a farsa da democracia racial, os imprescindíveis blocos livres do Centro, com destaque o nosso Cordão do Boi Tolo, que luta contra a mercantilização do carnaval de rua, Embaixadores da Folia, Prata Preta e o Bloco Secreto, os blocos encantados de Santa Teresa e Laranjeiras, os muitos e maravilhosos blocos históricos e tradicionais da Zona Sul.

A morte de DG: o dia em que o morro desceu, e não era carnaval

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Quando a periferia sangra pelas mãos das UPPs, ela se incendeia com indignação; foi o que aconteceu com Amarildo, Douglas, Claudia e DG

Lucas Viana, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU


   No último dia 21, Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, foi mais um negro assassinado pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de janeiro (RJ). A vítima, que era dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo, foi encontrada com sinais de tortura e baleado numa creche no morro Pavão-Pavãozinho. A polícia, num primeiro momento, alegou que o dançarino, ao fugir de um tiroteio, havia morrido em decorrência de uma queda.

   A PM esperou que isso fosse o suficiente para calar e intimidar a população local. Entretanto, a comunidade não hesitou em descer o morro e ocupar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana para denunciar os abusos e o genocídio que as polícias vêm promovendo, além de exigir justiça às vítimas e o fim das UPPs.

Era só mais um Silva
“Era trabalhador, pegava o trem lotado
Tinha boa vizinhança, era considerado
E todo mundo dizia que era um cara maneiro
(...) E o pobre do nosso amigo, que foi pro baile curtir
Hoje com sua família, ele não irá dormir”

(“Era só mais um Silva”)

   DG, não por coincidência, tinha sobrenome Silva e havia encenado, em Junho de 2013, sua própria morte no curta-metragem Made in Brazil, de Wanderson Chan, que ilustra o triste cenário das comunidades ocupadas pelas UPPs, onde jovens negros, trabalhadores e pais de família são diariamente abordados, intimidados, agredidos e mortos de maneira arbitrária, com a desculpa de serem confundidos com traficantes.

   Segundo o Instituto de Segurança Pública, de 2007 a 2012, foram registrados 553 desaparecimentos nas 18 primeiras comunidades pacificadas no Rio. Só em 2010 foram 119 desaparecidos, número que aumenta ano após ano e coloca em alerta a população negra e periférica do Rio, que hoje encara a luta contra as UPPs como a luta pela sua própria sobrevivência. Depois de Amarildo, nenhuma morte passa sem que o morro desça às ruas e exija justiça.

Pavão-Pavãozinho: o dia em que o morro desceu
   O fato de a comunidade do Pavão-Pavãozinho descer até Copacabana evidencia o novo momento político em que vivemos. Em junho, o aumento das tarifas do transporte foi o estopim para que a população percebesse que as ruas são o espaço para as transformações reais na sociedade. Hoje, quando a periferia sangra pelas mãos das UPPs, no dia seguinte ela se incendeia com a indignação da população. Foi o que aconteceu com Amarildo, Douglas, Claudia e agora com DG.

   Não há dúvidas, apesar da negligência nas perícias e investigações, de que se tratou de mais um assassinato cujo responsável é o governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB) com sua política de segurança pública, que é a principal responsável pelo genocídio da população negra em curso. Tudo isso é evidenciado quando se lê cartazes feitos por moradores do Pavão nas manifestações, como “A maquiagem da UPP é o sangue dos inocentes”; “Hugo Leonardo (...) foi tido como bandido na mídia por calúnia dos policiais (...), e DG, Edilson e Amarildo são outras vítimas da UPP. Queremos Justiça!”; “Fora UPP”; “PM assassina”. Atualmente, tão essencial quanto a luta por transporte, saúde, educação e outros direitos sociais, o que se ouve nas ruas, por parte da população negra é a reivindicação por permanecer viva e pelo direito ao futuro.

   Trata-se, em termos gerais, da luta contra a ideologia racista e do sistema que rebaixa os negros à categoria de coisas, que permitiu que fossem escravizados e mercantilizados por quase 400 anos no Brasil e que, hoje, faz com que sejam “carne barata” no mercado de trabalho, além de “justificar” o descaso do governo e da elite com o genocídio da população negra.

O mito da democracia racial e as lágrimas de crocodilo de Pezão
   O governador Pezão convidou a mãe de DG, Maria de Fátima da Silva, para uma reunião, que foi prontamente recusada pela técnica em enfermagem: “Nenhum político vai se projetar em cima da imagem do meu filho. Existem outros crimes iguais ao do meu filho que não foram solucionados até agora, como o da auxiliar de serviços gerais, Claudia da Silva Ferreira, que caiu no esquecimento (…). Eu quero uma polícia correta e digna na rua e não uma polícia assassina. E não homens armados, tendo a população como inimiga. Eu quero que ela [a polícia] aja com rigor e traga à tona a verdade desse caso”.

   A atitude louvável de Maria de Fátima vai no sentido oposto ao amplamente difundido mito da democracia racial, cujo centro é acreditar que negros e brancos possuem as mesmas oportunidades, os mesmos riscos ou que ocupam postos de igualdade na sociedade e que,por isso, todos os conflitos sociais e raciais podem ser resolvidos com um grande acordo entre a “casa grande” e a “senzala”.

   Um exemplo desse mito é o próprio programa de televisão em que DG trabalhava, o Esquenta, que espetaculariza a pobreza, a colocando como mais um produto a ser vendido e consumido, além de exibir um mundo que, na prática, não existe: onde brancos e negros convivem harmoniosamente, sem as relações de opressão ou exploração que existem na sociedade. Ou como se essas relações não fossem relevantes, como o exemplo clássico da empregada negra que samba alegremente com a patroa branca, o que não é verdade.

   No programa do último domingo, 27, que homenageou DG, a democracia racial atacou mais uma vez: o assunto da violência foi tratado de maneira abstrata, como se todos ali, de Regina Casé a Carolina Dieckman, sofressem o mesmo risco que DG e a população negra e periférica de morrerem assassinados. Ou como se um episódio do programa com condolências de globais, como Pedro Bial ou Jô Soares, fossem suficientes para fazer justiça ao caso específico do dançarino, e não a resolução do problema de conjunto, que é, entre outras coisas, a desmilitarização das polícias e a retirada das UPPs das favelas.

   Além disso,  não é verdade que Pezão, ao chamar a reunião com Maria de Fátima, estava preocupado em garantir que este e outros casos semelhantes se solucionassem ou que o genocídio da população negra se encerre. Pelo contrário, mediante a falência da política das UPPs e da revolta generalizada que faz com que a população desça do morro em protesto, Pezão aceita com gratidão a ajuda do governo de Dilma Rousseff, que ocupou, desde o início de abril, com suas Forças Armadas, o complexo da Maré.

   Portanto, mediante esta situação, não é possível conciliar a “senzala” com a “casa grande”, pois são polos com interesses opostos. De um lado, os governos fazem de tudo para garantir a Copa do Mundo para inglês ver, intensificando a ocupação das favelas e morros, para conter a população que quer lutar contra as injustiças sociais, sendo uma delas o seu próprio genocídio. De outro lado, está a população preta das periferias, como a de Pavão-Pavãozinho, que dão um exemplo de luta e resistência. Os ventos de junho seguem soprando em nosso país.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Transformar o luto em luta
   Para além do grito de justiça pelo essencial, que é a investigação rigorosa, afastamento e punição dos policiais envolvidos na morte de DG e em outros casos de desaparecimento e morte das centenas de moradores das comunidades ditas pacificadas, é uma questão urgente a retirada imediata das UPPs das favelas e morros do Rio.

   A principal desculpa para que os governos de Pezão e Dilma ocupem hoje as favelas e morros é a guerra às drogas, mas esta é uma política que, a cada dia, anuncia o seu próprio fracasso por ser a causa direta do genocídio da população pobre e preta das periferias, além do seu encarceramento em massa.

   Se o governo está realmente interessado em acabar com o tráfico, fazer justiça a DG e garantir a vida e o futuro da população negra, deve haver uma inversão de prioridades: ao invés de se investir mais de R$ 30 bilhões com a Copa das injustiças, deve se investir nos direitos sociais mais básicos, como saúde, transporte, educação e cultura, além da urgente legalização das drogas e desmilitarização das polícias.

   Entretanto, se Pezão e Dilma não estão dispostos a ouvir as ruas, o Pavão-Pavãozinho e os pretos da periferia de conjunto estão dispostos a transformar o luto em luta e fazer um novo junho acontecer, mas dessa vez com a inspiração em Palmares.

Rolezinho no Leblon: O poder da repressão e a sociedade do espetáculo

Por Bruna Barlach, do Rio

Na onda dos “Rolezinhos” que começaram em São Paulo, e muito por conta da repressão a eles, vimos pipocar em todo o país eventos no facebook chamando rolezinhos em shoppings de diferentes cidades pelo país, incluindo o Rio de Janeiro. Certamente o marcado para o Shopping Leblon foi, desde o início, o mais polêmico.

Símbolo máximo da burguesia carioca (e brasileira) e da segregação socioeconômica, o Leblon é o um dos bairros onde há mais riqueza concentrada por cabeça no mundo. Seja por olhares atravessados, seja pelos preços proibitivos, Leblon não é lugar pra pobre. E não é e ponto final.

Tanto não é lugar pra pobre que os donos do shopping solicitaram na Justiça para que o evento fosse proibido, argumentando que tal evento era incompatível com o shopping. Uma juíza acatou o pedido e proibiu o rolezinho. Felizmente advogados ligados às causas populares conseguiram a liberação do ato. Diante disse, foi declarado que o shopping simplesmente não abriria as suas portas.

A mídia grande logo noticiou que o shopping não abriria as suas portas, o que colaborou em grande parte para o esvaziamento do rolezinho, que acabou por ter ares de uma pequena manifestação. Aos poucos foram chegando ativistas de diferentes movimentos, moradores de diferentes locais, perto, longe, das favelas, cada qual trazia sua vontade de se manifestar contra a repressão e os casos de racismo explícito que o rolezinho tem desencadeado nos shoppings.

Muitos vieram só para olhar. Era notável no olhar e na fala de muitos moradores da região que aquelas pessoas lhe eram estranhas, estranhas demais, quase exóticas. Outros estavam assustados, muito mais pela grande quantidade de policiais que cercava a região e impedia a entrada não só no shopping (que também estava “protegido” por dezenas de seguranças uniformizados e à paisana) do que pelo próprio rolezinho.

Ao som de funk e diferentes músicas de protesto foram cantadas palavras de ordem contra a repressão, contra o racismo e também contra a copa, que é pauta em todas as manifestações deste ano. Com algumas horas de rolezinho na porta do shopping, os manifestantes acabaram sendo surpreendidos pela tropa de choque, que veio demonstrar mais uma vez que vivemos num estado onde a democracia não é para todos e que mesmo uma manifestação pelo direito de todos estarem dentro de um shopping, símbolo máximo do consumismo, é repreendida pela força policial de forma violenta.

As mentiras que a mídia conta
Dezenas de câmeras, inúmeros repórteres das grandes emissoras de TV nacionais e até diversos correspondentes internacionais. A mídia grande chegou com tudo no rolezinho no Leblon para recolher material para contar suas grandes mentiras.

As entrevistas tinham por objetivo muito mais desmascarar os manifestantes do que discutir de fato o porque é tão importante que esse rolezinho esteja acontecendo. Em telefones celulares, falavam baixo sobre como o shopping perdia dinheiro enquanto alguns jovens atrapalhavam um dia normal na vida das pessoas. Aguardem essas e outras mentiras nos grandes jornais e portais da internet.

O rolezinho é resistência e luta
A origem controversa do rolezinho pode ter criado dúvidas sobre a importância política destes eventos. O capitalismo vende uma imagem de democracia e igualdade de oportunidades, mas quando os jovens da periferia, pobres, pretos, tentaram usufruir do seu direito democrático de consumir e vimos claramente o que aconteceu.

No capitalismo nem o consumo é democrático. Ele tem recorte de cor e recorte de classe. A repressão, os shoppings fechados, pessoas negras sendo revistadas e tendo seu direito de ir e vir negado revelam a segregação social, que acontece em todas as partes e está agora estampada nos muros dos shoppings.

Toda lutadora e todo lutador deve não só denunciar essa injustiça, mas estar lado a lado, juntos e misturados; construindo a resistência contra toda forma de repressão e segregação racial e social. Ocupar a cidade deveria ser um direito de todos e até que seja, permaneceremos dando nossos rolezinhos., nos shoppings e nas ruas.



Um novo rolé para Rodrigo Constantino

Arte do chargista Latuff

   Caro Rodrigo Constantino. Li sobre o seu Joaquim. Gostaria de lhe apresentar a história de Maria.

   Maria era uma menina muito pobre, que estudava em uma escola pública e morava numa favela. Cansada, após apoiar a greve dos professores, resolveu dar um rolezinho em uma biblioteca. Ela sabia que aquilo mudaria sua vida, pois seus professores sempre indicavam isso, e ela fazia constantemente. Diferente de muitas pessoas da classe média. Que tem livros em suas casas, mas não leem.

   Lá, ela descobriu os clássicos e muitos contemporâneos. Sófocles, Shakespeare, Kafka, Dostoiévski, Camus, Mas ela se cansara de tantos brancos europeus mortos. Com Elisa Lucinda, navegou pelas entranhas da natureza de ser mulher negra imperfeita. Com MV Bill, chegou ainda mais fundo no “horror”, entendendo o que acontece quando a polícia entra na favela sem respeitar morador.

   A fome lhe ensinou sobre a propriedade privada, e a PM lhe explicou o poder da “mão visível”, segurando uma arma, que acaba levando a um resultado terrível, com  cada um seguindo os próprios interesses.

   Lima Barreto foi fundamental para sua compreensão das vantagens comparativas e do privilégio branco. Ela soube que mesmo em trocas voluntárias em que tivesse menos habilidade em tudo, ainda assim elas poderiam ser mutuamente benéficas. Só que na sociedade brasileira não acontece isso

   Com Milton Santos, soube entender o relativismo cultural, e que é necessário ter conhecimento sobre a história e cultura afro-brasileira e africana. Compreendeu, ainda, que o conceito da Grande Sociedade Aberta, é uma falácia à brasileira, que o Estado brasileiro mantém segredos para si mesmo; é uma sociedade autoritária, uma sociedade em que nem  todos são respeitados, com o conhecimento de todos.  Assim como os curtos limites da tolerância desta.

   Abdias do Nascimento foi crucial para que ficasse mais atenta àquilo que não se vê de imediato, ou seja, o Racismo das oportunidades das escolhas ou políticas públicas. Isso a ajudou a criticar a visão míope de muito governante em busca de votos, com suas medidas populistas e assistencialistas de cunho racistas.

   De Malcom X ela absorveu as verdadeiras características das mentiras da democracia americana, da escravidão nada voluntária que esse país impôs aos negros,o que ajudou a construir uma nação próspera, porém injusta. A morte do reverendo Martin Luther King  sepultou de vez qualquer confiança na política americana, que tivesse sobrevivido após a lavagem cerebral dos programas na televisão.

   Mano Brown, intelectual brasileiro, deixou bem claro com suas letras que os poderes executivos, judiciário e legislativo são corrompidos e o poder absoluto corrompe absolutamente. Que  o ser humano é descartável no Brasil..

   Ela mergulhou na Escola Pública. Descobriu com seus professores de História, Filosofia e Sociologia, e nunca mais levou a sério o Globo ou a Veja. Já tinha noção clara de que, mesmo sob tanta propaganda, o sistema capitalista não poderia funcionar, pela impossibilidade das crises cíclicas do capitalismo.

   Dos pensadores conservadores, como Burke, John Adams, Russell Kirk, Oakeshott, Isaiah Berlin, Irving Babbitt e Theodore Dalrymple, capturou a importância do que falava Kabengele Munanga: que esses eram brancos europeus mortos, que pouco acrescentavam às tradições e cultura afro-brasileira, que  os limites da razão, os riscos das ideologias e utopias, o enorme perigo das revoluções são sementes a serem cultivadas.

   Passou também a desconfiar da democracia burguesa, entendendo que esta é a simples tirania da minoria sobre a maioria.  As bem constantes incursões do BOPE lhe ensinaram sobre os necessários limites constitucionais do poder estatal. Montesquieu, coitado, reescreveria sobre a divisão dos poderes, ao se ver numa favela.

   Cabral, o governador, foi como uma luz ao lhe mostrar a “destruição destruidora”.Da Educação, da Saúde, da Segurança Pública. Agora temia mais o avanço tecnológico, as inovações capitalistas,  pois sabia que estas  geravam mais riqueza( para quem tinha já muito dinheiro) e eliminava novos empregos.


   Muniz Sodré  lhe mostrou a falácia da meritocracia na Educação, e Renato Emerson, a eficácia das cotas raciais.

   Lendo – e  entendendo – as critícas ao mundo capitalista de seus tempos, de Orwell, Huxley, Ayn Rand e Koestler, ficou apaixonada por todo tipo de tentação,pelas “soluções mágicas” que criariam um “mundo melhor” ou uma nova humanidade.  Sabia que o coletivismo era o caminho para a destruição do individualismo egocêntrico.

   Estudou Economia, com Marcelo Paixão, e ficou sabendo que “vários “intelectuais” colocavam as “ideias abstratas acima dos seres de carne e osso, louvando a Humanidade, mas agindo com profundo desdém em relação aos próximos”. E aprendeu que a isso dá-se o nome de “Editorial de O Globo”.

   Descobriu também que possuia a música em si. Funk, clássica. Pagode. De tudo escutou, pois tudo lhe era humano e belo:  Mozart, Kiss, Beethoven, Paralamas, Brahms, Titãs, Bach, ABBA, Chopin, Rachmaninoff, Florence, Tchaikovsky, e ficou encantada.  Aquilo tudo esteve e está em sua alma! Foi Joãozinho 30, e sua estética do Luxo e do Lixo, quem lhe demonstrou a importância da beleza em nossas vidas. Fazia agora tudo: filmava, compunha, dançava, pintava; posto que tudo é arte, nada é arte.

   Leu muito os poetas negros Arnaldo Xavier (1948-2004) e Ricardo Aleixo, e ficou interessada na experimentação e na intersecção entre as linguagens.

   Com Cidinha da Silva, prosadora refinada, aprendeu a situar seu texto na nervura do presente, atenta aos ardis das representações e das afecções a que são submetidos os negros contra um pano de fundo multimídia.

   Maria tinha um espírito lutador, e desejava muito melhorar de vida. Foi com sua bagagem cultural com os amigos no shoping, tentar a sorte, dar um rolé.  Era verão, tava calor,  anos 2014, com mais oportunidades de se divertir. Sempre olhara para os playboys com ódio, nunca inveja. Eram uma afronta para ela, um exemplo a ser combatido. Hoje ela é um militante de sucesso e vive em paz.

   Em sua velha comunidade, é chamada  de “irmã”. Por ser negra acusam-na de se comportar como um “negra feminista” e defender sua raça. E ela sempre entendeu dessa forma. Para ela, o normal é desejar mudar a vida, dela e dos seus. Combater  a discriminação dessa “missão civilizadora” racista, machista e exploradora e não desfrutar dela. Até hoje ela é muito grata pelo rolezinho que decidiu dar no shoping, e perceber o quando sempre fora discriminada pela hipócrita “alta cultura” quando jovem.

África do Sul e o apartheid neoliberal

Polícia reprime mineiros de Marikana
Por Wilson H. da Silva*, da Secretaria de Negros e Negras

Em nome da “reconciliação”, líderes do CNA transformaram seus ex-algozes em parceiros na implementação do projeto neoliberal

   O “CNA e Cosatu não nos representam”. Tempos atrás, ouvir, de um sul-africano, uma frase como esta em relação ao Congresso Nacional Africano e o Congresso Sul-Africano de Sindicatos seria praticamente impossível. Contudo, foi exatamente esta a palavra de ordem que foi cantada, com garra e convicção, por cerca de 200 trabalhadores e jovens que participavam de um curso realizado na Cidade do Cabo, em setembro passado.

   Longe de ser uma posição majoritária, este sentimento é crescente em relação às entidades que, juntamente com o Partido Comunista, formam a Aliança Tripartite que, desde 1994, governa o país.

   O repúdio parte de uma lamentável, mas inquestionável, realidade. Duas décadas depois da extinção da legislação que garantiu a existência de um dos regimes mais racistas da História, o atual governo – através de suas alianças com a mesmíssima burguesia bran ca que criou o regime segregacionista e da adoção das políticas neoliberais – mergulhou a maioria negra do país em outro pesadelo: o apartheid sócio-econômico, que mantém praticamente intacta a segregação racial.

   Em agosto de 2012, 34 mineiros em greve foram mortos e 78 ficaram feridos, no Massacre de Marikana. Um deplorável marco da traição levada a cabo pelas direções históricas às massas sul-africanas, que vem sendo considerado “o ponto da virada”. O episódio vem acelerando o processo de reorganização dos movimentos sociais e políticos que buscam novas formas de organização para dar continuidade à luta por uma sociedade onde a maioria negra possa viver com dignidade.

Apartheid: um pesadelo capitalista
   Adotado em 1948, o apartheid remonta aos anos 1700, quando holandeses e britânicos ocuparam a região para lucrar com o tráfico negreiro e, particularmente, ao início dos anos 1900, quando a descoberta de ouro e diamantes pôs fim às disputas entre as duas potências imperialistas. Elas uniram para garantir seus interesses e  criaram mecanismos que lhes garantiram o monopólio do poder político e econômico do país.

   Este processo foi consolidado a partir de 1948, quando a legislação do apartheid começou a entrar em vigor através da separação da sociedade em quatro “categorias” (brancos, negros, mestiços e asiáticos). O casamento inter-racial foi criminalizado e foi adotado a obrigatoriedade de “passes” que controlavam e limitavam a circulação dos não-brancos. Por fim, houve a separação baseada em critérios raciais, de quaisquer aspectos da vida social, política e econômica.

Transição ou traição?
   Marcada por massacres (como os de Shaperville e Soweto, respectivamente em 1960 e 1976), torturas, prisões, mas também uma incessante resistência, a luta contra o apartheid chegou ao seu ápice na década de 1980, quando greves e mobilizações diárias, além de uma crescente pressão internacional, colocaram o regime em cheque.

   Em 1994, o regime do apartheid foi derrubado. Uma enorme vitória da luta negra na áfrica do Sul e de todo o mundo. No entanto, o CNA e seu principal líder- Nelson Mandela, símbolo da resistência ao regime desde sua prisão, em 1962- vinham em um processo de negociações com o racista Partido Nacional que resultaram na chamada “transição”, iniciada em 1991.

   Apoiados em sua história de lutas e nas enormes expectativas do povo negro, os dirigentes do CNA mantiveram o capitalismo, contiveram o ascenso nos limites da democracia burguesa. Em nome da “reconciliação”,  transformaram os seus ex-algozes da burguesia branca em parceiros e sócios na administração do Estado e na implementação do neoliberalismo. 

   De lá para cá, apesar de algumas pífias medidas compensatórias e da formação de uma classe média negra (além de uma cada vez maior, mais gananciosa e corrupta burguesia negra), o que tem caracterizado a situação sul-africana é a manutenção e o aprofundamento da miséria e das péssimas condições de vida.

   E foi exatamente isto que levou os mineiros de Marikana à greve, como foi destacado por John Appolis, da GIWUSA, uma entidade que é parte do processo de reorganização que defende a independência, diante dos patrões e do governo: “Marikana é uma prova de que o CNA nada mais fez do que dar continuidade ao projeto capitalista: fornecer mão de obra negra e barata para ser explorada pelas grandes empresas”.

   Para exemplificar o comprometimento do CNA com o neoliberalismo, basta citar a deplorável figura de Cyril Ramaphosa, um dos fundadores do Sindicato Nacional dos Mineiros (NUM), a principal entidade da Cosatu. Eleito, em 2012, presidente do CNA hoje ele é um dos homens mais ricos do país.

   Dentre seus vários negócios, Ramaphosa também é diretor da Lonmin, a gigantesca empresa mineradora que controla a extração de platina que é dona da mina de Marikana.

   Foi como representante da empresa que, um dia antes do massacre, o presidente do CNA emitiu um e-mail a um diretor da mineradora que coloca o partido por trás das balas que assassinaram os mineiros: “Os terríveis eventos que estão acontecendo não podem ser descritos com uma disputa trabalhista. Eles são claramente vis e criminosos e devem ser caracterizados desta forma. Por isso a necessidade de ações concomitantes”.

Amandla Awhethu: um grito que precisa retomar as ruas
   Hoje no país, a relação entre o rendimento de negros e de brancos continua quase a mesma dos tempos do infame apartheid: se em 1993 os brancos tinham um rendimento 8,5 vezes maior que o dos negros, em 2008 essa relação era de 7,68 vezes. Além disso, o índice de desemprego entre os negros é superior a 40%, o que faz com que, hoje, quase 30% da população negra viva abaixo dos níveis de miséria.

   Mesmo diante de números como estes, evidentemente, o processo de reorganização não é fácil. Como  também é difícil para a enorme maioria dos ativistas e movimentos negros mundo afora colocar “Mandela” e “traição” na mesma frase.

   Mas lamentavelmente, esta é a única conclusão a que podemos chegar, como Appolis sintetizou de forma bastante correta: “Não foi Mandela que derrotou o apartheid, mas sim as massas em luta constante e são estes mesmos lutadores que, hoje, precisam achar novas formas de organização para superar o neoliberalismo e os seus agentes entre nós”.

   Também é importante destacar que, cada vez mais, os sul-africanos percebem que essas “novas formas” não podem se limitar ao terreno sindical. Hoje, como reflexo um tanto bizarro da crise política, existem nada menos do que 180 partidos inscritos para as eleições de 2014. Contudo, como lembrou o dirigente do Centro de Apoio aos Trabalhadores Casuais, Ighsaan Schroeder é fundamental que se crie uma alternativa política para que negros e negras sul-africanos retomem sua luta: “nós não sabemos ainda como esse movimento vai ser e isto é uma das principais tarefa que teremos no próximo período; mas temos uma certeza: o velho está morrendo e o novo está nascendo”.

   E é esta certeza que faz com que, cada vez mais, negros e negras sul-africanos retomem as ruas e as lutas ao som da mesma palavra de ordem que marcou a luta contra o apartheid: Amandla Awethu. O poder é nosso!

O autor esteve na África do Sul em setembro último a convite do International Labour Research and Information Group (ILRIG, Grupo de Pesquisa e Informação Internacional sobre o Trabalho)

Originalmente publicado no Opinião Socialista 472

Atividades marcam Dia da Consciência Negra no RJ

"A chama não se apagou
Nem se apagará
És luz de eterno fulgor, Candeia
O tempo que o Samba viver
O sonho não vai se acabar
E ninguém vai esquecer, Candeia"


(O sonho não acabou,  Luis Carlos da Vila)


No 20 de novembro, o Quilombo Raça e Classe e o Luta Popular, entidades filiadas à CSP-Conlutas, participaram e ajudaram a construir diversas atividades em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra.

Dia começou na Amendoeira, em São Gonçalo

comunidade debate na Amendoeira
A primeira atividade ocorreu logo cedo no bairro de Amendoeira, na cidade de São Gonçalo. Representantes do Quilombo Raça e Classe, do movimento o Luta Popular e da CSP-Conlutas realizaram uma conversa com a comunidade local. O objetivo da atividade foi iniciar a reconstrução da associação de moradores do bairro que vem tocando algumas lutas específicas.
Após o debate os participantes fizeram uma confraternização comendo um delicioso angu e regada a uma cervejinha gelada, para refrescar o intenso calor.

Samba de resistência nos subúrbios cariocas
Já do outro lado da Baía de Guanabara também foi dia de combater a farsa da democracia racial rolou debate e atividades culturais. Na comunidade do Jacarezinho e no tradicional subúrbio carioca de Osvaldo Cruz rolaram debates e atividades culturais.
A negrada, com raça e classe, trocou inúmeras idéias sobre a questão racial no Brasil e no mundo, em especial sobre a violência contra a juventude negra e a preservação da cultura afro.
No Buraco do Galo o dia contou com muito samba de raiz, mostrando toda a resistência da tradição cultural dos negros brasileiros. Tudo isso acompanhado de uma bela feijoada e uma cerveja gelada.

tradicional roda de samba no Buraco do Galo

Neste dia 21/11 tem Marcha da Periferia nas ruas do Rio
Já nesta quinta-feira, 21/11, ocorrerá nas ruas do centro da cidade a Marcha da Periferia. Uma passeata seguirá da Candelária até o busto de Zumbi, lembrando os guerreiros e guerreiras De palmares. A concentração está marcada às 17 horas.

Agenda da Marcha da Periferia com Raça, Classe e Gênero no Rio de Janeiro

19 de Novembro
NOVA IGUAÇU
Marcha da Periferia com Raça e Classe e os Comerciários no Calçadão de Nova Iguaçu a partir das 10:00 h. 

20 de Novembro
SÃO GONÇALO 
No dia da Consciência Negra a Associação de Amigos e Moradores da Amendoeira organiza um evento onde será comemorada a data e apresentada à população a CSP - Conlutas, o Quilombo RaçaeClasse e também o Luta Popular.

Evento: https://www.facebook.com/events/240281122795990/?ref_dashboard_filter=upcoming&source=1

"Consciência Negra no Quilombo do Jacaré". Favela do Jacarezinho.

"Feijoada de Zumbi do Buraco do Galo", na tradicional Roda de Samba do Buraco do Galo, em Osvaldo Cruz.

Atividade Cultural no Chapéu Mangueira, de 10 às 17 horas.

21 de Novembro
RIO DE JANEIRO
2a MARCHA DA PERIFERIA - Em 2013 a Marcha da Periferia, que traz como tema “PELOS AMARILDOS… DA COPA EU ABRO MÃO”, acontecerá em várias cidades e estados do Brasil, em muitos com a adesão e fortalecimento de outros Movimentos de Opressões, Sociais, Estudantis e Entidades Sindicais. 
Passeata da Candelária até o busto de Zumbi dos Palmares; Concentração às 17h. 

Abertura do I Seminário Nacional da FENAJUFE de Combate ao Racismo e de Identidade Negra no Judiciário Federal e MPU -  19:00h.  O seminário ocorrerá até o dia 23/11.
22 de Novembro
JAPERI
 “JAÇARAUPERI” Ato político e cultural pelo Dia da Consciência Negra, na Praça Olavo Bilac, em Engenheiro Pedreira/Japerí, a apartir das 16 horas.

24 de Novembro
RIO DE JANEIRO
"Dandaras de Luta", atividade no Bar do Rumba, na Favela do Jacarézinho, a partir das 12 horas.

25 de Novembro
RIO DE JANEIRO 
Passeata pelo Dia Latino-americano e Caribenho de luta contra a violência contra a mulher, concentração na Candelária a partir das 16 horas.

"Mesa da Questão Racial", no auditório da Faculdade Nacional  Direito FND/UFRJ – próximo ao Campo de Santana, a partir das 16 horas.

26 de Novembro
RIO DE JANEIRO
Debate "Raça, Classe, Gênero e a Violência", na Sede do PSTU – Rua da Lapa, 180 sb lj/Lapa, a partir das 18:30 horas.

NOVA IGUAÇU
Debate "Raça, Classe, Gênero e a Violência" – O Sindicato dos Comerciários de Nova Iguaçu e Região organizará um debate na terça, dia 26 de Novembro, às 19h, no estacionamento ao lado do Sindicato (Rua Dr. Barros Jr., 396, Centro de Nova Iguaçu) em conjunto com o movimento Quilombo Raça e Classe e a CSP-Conlutas.




27 de Novembro
BELFORD ROXO
Atividade sobre a questão racial no SEPE Belford Roxo (à confirmar o formato).

Veja calendário de atividades completo aqui 


fontes: Quilombo Raça e Classe e CSP- Conlutas

Rumo à 2ª Marcha Nacional da Periferia com o Quilombo Raça e Classe

Com o tema “Pelos Amarildos... da Copa eu abro mão”, marcha acontece em várias cidades e estados do Brasil

A Marcha da Periferia foi uma semente plantada em 2006 por membros do Movimento Hip Hop Organizado do Maranhão “Quilombo Urbano”.  Essa iniciativa decorreu da percepção dos integrantes desta organização de que os conflitos entre a juventude negra estavam se deslocado dos enfrentamentos entre os bairros para o interior dos bairros. A esse processo passaram a chamar de “Guerra Interna” e identificar como uma clara política de Estado para controle social da juventude negra e pobre. 

Cabe lembrar, entretanto, que desde 1989 o Quilombo Urbano já realizava os festivais de Hip Hop na semana da Consciência Negra como um momento de confraternização entre a juventude das periferias de São Luís em homenagem a Zumbi de Palmares e outras referências históricas do povo negro, e de coroamento das atividades políticas e culturais que o Quilombo Urbano e outros grupos de Hip Hop realizavam nas comunidades pobres e negras durante todo ano.


Sendo assim, os festivais de Hip Hop foi o embrião das Marchas da Periferia.   Nos primeiros anos de sua realização, as ações da Marcha da Periferia ficaram limitadas ao Hip Hop e algumas entidades do movimento popular e das esquerdas maranhense. Entretanto, a partir de 2011, a Marcha da Periferia ganhou uma dimensão nacional impulsionado pelo Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe e fortalecida pelas entidades sindicais, movimentos populares, de opressões e estudantis filiados à CSP- Conlutas – Central Sindical e Popular. Em 2013, a Marcha da Periferia, que traz como tema “Pelos Amarildos... da Copa eu abro mão”, acontecerá em várias cidades e estados do Brasil, em muitos com a adesão e fortalecimento de outros movimentos de opressões, sociais, estudantis e entidades sindicais.

Por que devemos marchar na periferia?

Na introdução brasileira do livro “Miséria das Prisões” o sociólogo francês Wacquant (1999) afirma que existe uma “ditadura pura” instalada nos bairros pobres do nosso país. E não é exagero. O Estado de exceção conforme demonstra Agamben (2003) tem se tornado uma regra geral contra os pobres em todo o mundo. Por isso, mesmo que a ideia de Estado mínimo deve ser relativizada, pois se ele é mínimo no campo das políticas sociais está cada vez mais robustecido em sua ponta repressora.


Enquanto os governos neoliberais dos últimos vinte anos “satanizavam” o Estado provedor do bem estar social, para que o mesmo fosse exorcizado do meio da classe trabalhadora, o investimento em segurança pública crescia assustadoramente. Em 2008, o investimento em repressão cresceu 15%, o equivalente a R$ 47,6 bilhões segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Por outro lado, basta verificar o contingente de indivíduos aprisionados no Brasil nos últimos anos. Dados divulgados pelo do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) apontam que nos últimos cinco anos o número de presos no Brasil cresceu 37%.  Temos na atualidade o terceiro mais populoso sistema carcerário do mundo com 494.598 presos, perdendo apenas para Estados Unidos que têm 2.297.400 presos e a China com 1.620.000, países esses que possuem uma população muito superior a nossa.


Não precisa ser analista político para constatar que os direitos constitucionais da democracia burguesa, especialmente o direito à vida, fica postado no “pé dos morros” ou nas fronteiras dos bairros de periferia, apenas as polícias entram nessas localidades com força total.


Por ano, mais de 25 mil jovens continuam sendo mortos por armas de fogo no Brasil, a grande maioria são negros e muitos mortos por policias. Juntas, as policias de São Paulo e do Rio de Janeiro matam mais do que aquela que é considerada a polícia mais violenta do mundo, a de Nova Iorque.  Se já não bastasse o etnocídio (eliminação cultural) da população negra via ideologia do branqueamento, o Estado brasileiro tem intensificado o genocídio (eliminação física) da população afro-brasileira que reside nos bairros pobres.


Em quase todos os estados brasileiros existem bairros de maioria negra ocupados pela Força de Segurança Nacional. Uma das mais propagandeadas políticas do governo Dilma na área de segurança pública é a nacionalização das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadoras).


O caso do Ajudante de Pedreiro Amarildo de Souza, negro e morador da favela da Rocinha no Rio de Janeiro, onde tudo leva a crê que foi sequestrado, torturado e assassinado por policiais de uma UPP instalada naquela comunidade, é um exemplo cabal do caráter racista e repressor desse tipo de política de Estado, que é parte do processo de criminalização da pobreza e de extermínio da população negra.


A realização dos “grandes eventos” no Brasil como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 tem a intensificado o processo de criminalização da pobreza e do extermínio da população negra. Centenas de milhares de famílias que residiam em comunidades próximas aos locais onde esses jogos serão realizados já foram, autoritariamente, removidas.


Mas não só a população negra e pobre de maneira geral sofre esse processo, é necessário também silenciar os movimentos sociais que nascem do interior dessas camadas sociais com o objetivo de enfrentar e reverter tais situações. Por todo o Brasil, centenas de lideranças comunitárias, quilombolas, camponesas, ambientalistas e advogados estão marcados para morrer, algumas das quais já perderam suas vidas.  Nos bairros pobres qualquer manifestação popular é criminosamente associada pelos governos e pela grande mídia ao tráfico de drogas e ao crime organizado, enquanto os crimes cometidos pelo Estado policial contra seus moradores é quase sempre divulgados como resultado de enfretamento entre “bandidos” e policiais.


Por outro lado, salta aos olhos os pomposos gastos dos diversos governos com as obras faraônicas da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. O 1,5 bilhão de reais que seriam destinados aos megaeventos se transformou em fabulosos 45 bilhões, conforme anuncia o próprio governo federal.  Esses gastos contrastam com a situação de pobreza da maioria da população que padecem com a destruição dos serviços públicos básicos como educação, saúde, moradia e mobilidade social. Essa contradição foi a causa principal das jornadas de junho e das paralisações nacionais das centrais sindicais em agosto e setembro que levaram milhões de pessoas às ruas por todo o país.


 Considerando a situação limite em que se encontra a massa negra proletarizada do Brasil e a “derrama” de dinheiro público aos empresários dos megaeventos, definiu-se como temática para a Marcha Nacional da Periferia de 2013: “Pelos Amarildos, da Copa eu abro mão”. O Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe faz o chamado a todos os setores combativos da classe trabalhadora, dos movimentos negro, quilombola, indígena, mulheres, estudantil, popular independente dos governos e patrões para construir, organizar e participar da construção da Marcha da Periferia numa perspectiva de Raça, Classe, Gênero e Socialista, buscando organizar, formar e responder as demandas de luta da classe trabalhadora negra e pobre do Brasil!


Atos que já estão organizados

Dia 20 de Novembro – Minas Gerais
Dia 20 de Novembro – São Paulo
Dia 21 de Novembro – Rio de Janeiro
Dia 22 de Novembro – Alagoas
Dia 22 de Novembro -  Maranhão

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