A morte de DG: o dia em que o morro desceu, e não era carnaval

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Quando a periferia sangra pelas mãos das UPPs, ela se incendeia com indignação; foi o que aconteceu com Amarildo, Douglas, Claudia e DG

Lucas Viana, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU


   No último dia 21, Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, foi mais um negro assassinado pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de janeiro (RJ). A vítima, que era dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo, foi encontrada com sinais de tortura e baleado numa creche no morro Pavão-Pavãozinho. A polícia, num primeiro momento, alegou que o dançarino, ao fugir de um tiroteio, havia morrido em decorrência de uma queda.

   A PM esperou que isso fosse o suficiente para calar e intimidar a população local. Entretanto, a comunidade não hesitou em descer o morro e ocupar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana para denunciar os abusos e o genocídio que as polícias vêm promovendo, além de exigir justiça às vítimas e o fim das UPPs.

Era só mais um Silva
“Era trabalhador, pegava o trem lotado
Tinha boa vizinhança, era considerado
E todo mundo dizia que era um cara maneiro
(...) E o pobre do nosso amigo, que foi pro baile curtir
Hoje com sua família, ele não irá dormir”

(“Era só mais um Silva”)

   DG, não por coincidência, tinha sobrenome Silva e havia encenado, em Junho de 2013, sua própria morte no curta-metragem Made in Brazil, de Wanderson Chan, que ilustra o triste cenário das comunidades ocupadas pelas UPPs, onde jovens negros, trabalhadores e pais de família são diariamente abordados, intimidados, agredidos e mortos de maneira arbitrária, com a desculpa de serem confundidos com traficantes.

   Segundo o Instituto de Segurança Pública, de 2007 a 2012, foram registrados 553 desaparecimentos nas 18 primeiras comunidades pacificadas no Rio. Só em 2010 foram 119 desaparecidos, número que aumenta ano após ano e coloca em alerta a população negra e periférica do Rio, que hoje encara a luta contra as UPPs como a luta pela sua própria sobrevivência. Depois de Amarildo, nenhuma morte passa sem que o morro desça às ruas e exija justiça.

Pavão-Pavãozinho: o dia em que o morro desceu
   O fato de a comunidade do Pavão-Pavãozinho descer até Copacabana evidencia o novo momento político em que vivemos. Em junho, o aumento das tarifas do transporte foi o estopim para que a população percebesse que as ruas são o espaço para as transformações reais na sociedade. Hoje, quando a periferia sangra pelas mãos das UPPs, no dia seguinte ela se incendeia com a indignação da população. Foi o que aconteceu com Amarildo, Douglas, Claudia e agora com DG.

   Não há dúvidas, apesar da negligência nas perícias e investigações, de que se tratou de mais um assassinato cujo responsável é o governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB) com sua política de segurança pública, que é a principal responsável pelo genocídio da população negra em curso. Tudo isso é evidenciado quando se lê cartazes feitos por moradores do Pavão nas manifestações, como “A maquiagem da UPP é o sangue dos inocentes”; “Hugo Leonardo (...) foi tido como bandido na mídia por calúnia dos policiais (...), e DG, Edilson e Amarildo são outras vítimas da UPP. Queremos Justiça!”; “Fora UPP”; “PM assassina”. Atualmente, tão essencial quanto a luta por transporte, saúde, educação e outros direitos sociais, o que se ouve nas ruas, por parte da população negra é a reivindicação por permanecer viva e pelo direito ao futuro.

   Trata-se, em termos gerais, da luta contra a ideologia racista e do sistema que rebaixa os negros à categoria de coisas, que permitiu que fossem escravizados e mercantilizados por quase 400 anos no Brasil e que, hoje, faz com que sejam “carne barata” no mercado de trabalho, além de “justificar” o descaso do governo e da elite com o genocídio da população negra.

O mito da democracia racial e as lágrimas de crocodilo de Pezão
   O governador Pezão convidou a mãe de DG, Maria de Fátima da Silva, para uma reunião, que foi prontamente recusada pela técnica em enfermagem: “Nenhum político vai se projetar em cima da imagem do meu filho. Existem outros crimes iguais ao do meu filho que não foram solucionados até agora, como o da auxiliar de serviços gerais, Claudia da Silva Ferreira, que caiu no esquecimento (…). Eu quero uma polícia correta e digna na rua e não uma polícia assassina. E não homens armados, tendo a população como inimiga. Eu quero que ela [a polícia] aja com rigor e traga à tona a verdade desse caso”.

   A atitude louvável de Maria de Fátima vai no sentido oposto ao amplamente difundido mito da democracia racial, cujo centro é acreditar que negros e brancos possuem as mesmas oportunidades, os mesmos riscos ou que ocupam postos de igualdade na sociedade e que,por isso, todos os conflitos sociais e raciais podem ser resolvidos com um grande acordo entre a “casa grande” e a “senzala”.

   Um exemplo desse mito é o próprio programa de televisão em que DG trabalhava, o Esquenta, que espetaculariza a pobreza, a colocando como mais um produto a ser vendido e consumido, além de exibir um mundo que, na prática, não existe: onde brancos e negros convivem harmoniosamente, sem as relações de opressão ou exploração que existem na sociedade. Ou como se essas relações não fossem relevantes, como o exemplo clássico da empregada negra que samba alegremente com a patroa branca, o que não é verdade.

   No programa do último domingo, 27, que homenageou DG, a democracia racial atacou mais uma vez: o assunto da violência foi tratado de maneira abstrata, como se todos ali, de Regina Casé a Carolina Dieckman, sofressem o mesmo risco que DG e a população negra e periférica de morrerem assassinados. Ou como se um episódio do programa com condolências de globais, como Pedro Bial ou Jô Soares, fossem suficientes para fazer justiça ao caso específico do dançarino, e não a resolução do problema de conjunto, que é, entre outras coisas, a desmilitarização das polícias e a retirada das UPPs das favelas.

   Além disso,  não é verdade que Pezão, ao chamar a reunião com Maria de Fátima, estava preocupado em garantir que este e outros casos semelhantes se solucionassem ou que o genocídio da população negra se encerre. Pelo contrário, mediante a falência da política das UPPs e da revolta generalizada que faz com que a população desça do morro em protesto, Pezão aceita com gratidão a ajuda do governo de Dilma Rousseff, que ocupou, desde o início de abril, com suas Forças Armadas, o complexo da Maré.

   Portanto, mediante esta situação, não é possível conciliar a “senzala” com a “casa grande”, pois são polos com interesses opostos. De um lado, os governos fazem de tudo para garantir a Copa do Mundo para inglês ver, intensificando a ocupação das favelas e morros, para conter a população que quer lutar contra as injustiças sociais, sendo uma delas o seu próprio genocídio. De outro lado, está a população preta das periferias, como a de Pavão-Pavãozinho, que dão um exemplo de luta e resistência. Os ventos de junho seguem soprando em nosso país.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Transformar o luto em luta
   Para além do grito de justiça pelo essencial, que é a investigação rigorosa, afastamento e punição dos policiais envolvidos na morte de DG e em outros casos de desaparecimento e morte das centenas de moradores das comunidades ditas pacificadas, é uma questão urgente a retirada imediata das UPPs das favelas e morros do Rio.

   A principal desculpa para que os governos de Pezão e Dilma ocupem hoje as favelas e morros é a guerra às drogas, mas esta é uma política que, a cada dia, anuncia o seu próprio fracasso por ser a causa direta do genocídio da população pobre e preta das periferias, além do seu encarceramento em massa.

   Se o governo está realmente interessado em acabar com o tráfico, fazer justiça a DG e garantir a vida e o futuro da população negra, deve haver uma inversão de prioridades: ao invés de se investir mais de R$ 30 bilhões com a Copa das injustiças, deve se investir nos direitos sociais mais básicos, como saúde, transporte, educação e cultura, além da urgente legalização das drogas e desmilitarização das polícias.

   Entretanto, se Pezão e Dilma não estão dispostos a ouvir as ruas, o Pavão-Pavãozinho e os pretos da periferia de conjunto estão dispostos a transformar o luto em luta e fazer um novo junho acontecer, mas dessa vez com a inspiração em Palmares.

Cresce a Violência em Niterói: por uma saída operária e socialista!


Diogo de Oliveira (Professor de Geografia do C.E. Hilário Riberio, na comunidade do Fonseca, em Niterói - Setor da Educação Básica do PSTU-Niterói).

    Nas últimas semanas se tornou evidente que Niterói, cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, faz parte da dura realidade carioca e nacional: o crescimento da violência e do "inferno urbano". Os últimos acontecimentos foram dramáticos e, infelizmente, iguais aos episódios de criminalização da pobreza, de racismo, de violência policial e de polarização social que vimos no Rio de Janeiro, capital.

Polícia racista assassina os pobres também em Niterói
     Na semana do "feriadão" da "Semana Santa", do dia de Tiradentes e de São Jorge (feriado no Estado do Rio), a cidade parou com os protestos das comunidades do bairro do Caramujo, um bairro pobre da periferia de Niterói. Os trabalhadores da região incendiaram sete ônibus e parou uma das principais vias da cidade, a Alameda São Boaventura. O estopim dos protestos foram dois assassinatos, pelas mãos da Polícia racista de Cabral/Pezão (PMDB): os dois de jovens negros da comunidade, um atingido por "bala perdida", e outro atropelado por um carro blindado da PM. Mais este episódio da violência policial e da criminalização da pobreza movida pelos Governos traz a tona, com maior força, a luta pela desmilitarização da PM e por uma nova Polícia, controlada pelos trabalhadores, especialmente das comunidades.

Niterói cidade qualidade de vida?
     Além dos episódios constantes de violência policial e criminalização da pobreza nas comunidades de Niterói, a cidade passa hoje por um vertiginoso crescimento da violência social em geral. Nos últimos dois anos, especialmente, dispararam os casos de assaltos a residências e a transeuntes, assassinatos após assaltos, violência contra as mulheres, etc. São evidentes casos ligados ao crescimento da polarização na sociedade fruto das grandes desigualdades sociais que dividem o Brasil capitalista. E em Niterói, esta polarização social sempre foi dramática. A chamada "cidade qualidade de vida" sempre escondeu, por trás, uma enorme desigualdade social. Enquanto os bairros nobres da cidade recebiam (e recebem até hoje) grandes investimentos em infraestrutura, os bairros da periferia permaneciam excluídos. Essa sempre foi a política dos Governos, inclusive dos Governos do PT. E com a violência crescente, sinais de desespero começam a aparecer: nos últimos dias ondas de boatos sobre "toque de recolher" e "invasões de favelas pela PM" paralisaram parcialmente a cidade.

Pezão, Rodrigo Neves e Beltrame querem implantar UPP's em Niterói
O Governo do PT e a violência em Niterói
    Hoje Niterói é governada pela Prefeitura de Rodrigo Neves, do PT. E não é a primeira vez que o PT está no Governo: junto com o PDT, do desastroso Jorge Roberto Silveira, o PT está na Prefeitura desde fins dos anos 90. Então, parte da responsabilidade da cidade das desigualdades, que é Niterói, é do PT. Além de Niterói, o PT governa o país inteiro há 11 anos, e pouco fez para acabar com as desigualdades sociais que dão origem à violência urbana. As Jornadas de Junho ajudaram a tornar claro esse fato. E voltando a Niterói, a política do PT por aqui em nada difere dos restantes dos Governos para "combater a violência": mais Polícia, mais Guarda Municipal, mais ocupações das comunidades e favelas. Ou seja, mais criminalização da pobreza. O PT, que fez parte do Governo ditador de Cabral no Rio até o último momento, é também co-responsável pela desastrosa política das UPP's.

Como combater a violência? UPP e mais repressão não é solução! Por uma saída dos trabalhadores!
     Outro aspecto que intensifica a violência em Niterói é a questão das UPP's. Implantadas na capital, Rio de Janeiro, a violência das UPP's tem uma face contraditória sobre Niterói: parte da ‘"bandidagem" (traficantes e milicianos) migraram para Niterói, São Gonçalo e região, intensificando a "guerra" na periferia dessas cidades. A classe média, assustada, clama, porém, por mais UPP's. Mas os recentes protestos populares e o assassinato do dançarino DG no Rio de Janeiro provaram, mais uma vez, que a UPP é uma farsa de "pacificação". Cada vez fica mais claro que a "pacificação" dos Governos é propaganda enganosa e, principalmente, mais criminalização e massacre sobre os trabalhadores pobres, em especial jovens e negros. Portanto, UPP nunca foi e não é solução para a violência urbana em Niterói. Mais UPP's significa mais extermínio da juventude pobre e negra, e mais violência. É como jogar gasolina no incêndio do "inferno urbano" brasileiro.
     Em resposta as políticas dos Governos, que disputam a consciência dos trabalhadores para saídas semi-fascistas, levantamos uma política operária e socialista! É preciso acabar com o aparelho repressor do Estado, principal responsável pela violência crescente nas cidades: pela desmilitarização da PM, por uma nova Polícia controlada pelos trabalhadores! É preciso acabar com as desigualdades sociais que alimentam a decadência social de parcela dos filhos e filhas dos trabalhadores, os empurrando para a criminalidade: investimentos em Educação, Saúde e Cultura públicas! Plano de obras públicas e redução da jornada de trabalho para gerar pleno emprego e perspectivas para a juventude! É preciso acabar com as fontes de financiamento do Tráfico de drogas, um negócio capitalista: legalização de todas as drogas, sobre controle do Estado e dos trabalhadores! É preciso combater a corrupção estatal que alimenta as milícias: prisão para todos os agentes do Estado envolvidos com as milícias!

Polícia Militar faz mais vítimas inocentes no Rio de Janeiro

População revoltada ergue barricadas na Zona Sul do Rio
Foto: Ag Brasil
Da Redação

População se revolta contra os assassinatos e o terror imposto pelas UPP’s

   A população pobre e negra da periferia do Rio está se cansando de viver dias sob o domínio do medo e do terror. Agora, não só de traficantes e milicianos, mas da Polícia Militar, que fez mais vítimas inocentes e despertou a ira da população. Na manhã de 22 de abril, o jovem Douglas Rafael da Silva Pereira, 26, conhecido como DG, foi encontrado morto no morro do Pavão-Pavãozinho, Zona Sul da cidade. DG era dançarino do programa "Esquenta", da Rede Globo. Segundo a polícia, teria havido um tiroteio na madrugada do dia 21, e o corpo DG teria sido encontrado apenas horas depois.

   A morte do rapaz provocou revolta na população e desencadeou uma série de protestos na região no início do dia seguinte. Moradores foram para as ruas, ergueram barricadas e enfrentaram a polícia. Ruas de Copacabana ficaram bloqueadas, inclusive a Avenida Nossa senhora, uma das principais do tradicional bairro de classe média. Os protestos e a repressão também atingiram Ipanema. Na ofensiva da polícia contra os moradores, que contou com o Bope (Batalhão de Operações Especiais) e a Tropa de Choque, mais um jovem foi morto. Edilson da Silva dos Santos foi baleado na cabeça e chegou já sem vida ao hospital. Um menor de idade também teria sido atingido por tiros durante a repressão.

Execução
   A mãe do dançarino afirma que o corpo, encontrado num vão atrás de uma creche da região, tinha marcas de tortura. "Estava em posição de defesa, todo machucado", revelou à imprensa a técnica de enfermagem Maria de Fátima da Silva. "A UPP é um farsa, uma mentira. Meu filho não morreu de queda. Tenho certeza que (os policiais) torturaram e mataram ele", disse ainda. Segundo a mãe do jovem, o corpo, além de marcado de agressões, estava molhado, inclusive os documentos de DG, apesar de no dia não ter chovido.

   Moradores acusam a PM de ter confundido o dançarino com um traficante. O jovem estaria num churrasco na laje de um prédio de três andares na noite do dia 21, quando uma ronda de policiais da UPP iniciou um tiroteio. Os participantes do churrasco fugiram e Douglas, junto com um amigo, teria tentado saltar um muro para atingir outro prédio, no momento em que caiu ao bater com o peito numa divisória.

   Nessa quarta, 23, o próprio Secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, confessou em entrevista coletiva que a causa da morte de DG foi realmente por um disparo de arma de fogo, já que a Polícia Civil se recusava a prestar maiores esclarecimentos sobre a morte do rapaz. Mesmo assim, os dez policiais acusados de envolvimento na ação, da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do morro Pavão-Pavãozinho, sequer foram afastados e estão nas ruas normalmente.

Terror
   A morte de DG foi apenas o estopim para uma revolta gestada pelos inúmeros abusos perpetrados pela Polícia Militar na região. "Isso que aconteceu com o Douglas já estava anunciado. Nove em cada dez jovens já foram esculachados aqui", denunciou uma moradora ao jornal O Globo. Outra moradora afirmou que um policial ameaçou de morte seu filho de 20 anos que trabalhava numa lanchonete, obrigando-o a fugir da região.

   Em seu perfil do Facebook, umas das últimas mensagens de Douglas conclamava a paz no Rio. "Paz e amor em todas as favelas e morros do Rio de Janeiro!", dizia. Mas não é isso o que a polícia quer. A violência cada vez mais extrema da Polícia Militar vem revelando o real caráter dessa política das UPP's, implementada a partir de 2008 e que conta hoje com 39 unidades espalhadas em pontos estratégicos da periferia e morros da cidade. Trata-se de ocupar a área sob a base da bala, espalhando o terror e o pânico entre a população. O caso do pedreiro Amarildo, barbaramente torturado e assassinado por policiais da UPP da Rocinha, é um símbolo da farsa dessa política de “pacificação”.
Em declaração emocionada, a mãe de DG disse que
seu filho "não vai ser outro Amarildo".
Registro feito durante o cortejo na tarde de hoje (24),
momentos antes da repressão gratuita da PM.
Foto: Coletivo Vinhetando.
   O governo Dilma, por sua vez, além de ser conivente com a política de criminalização e extermínio praticado pela polícia do Rio, disponibilizou tropas do Exército para ocupar o Complexo da Maré. As Forças Armadas vem ocupando a região desde o início de abril e devem permanecer pelo menos até o final da Copa do Mundo.

   A diferença agora, é que a população pobre e negra dos morros e favelas não está se sujeitando às mortes e arbitrariedades impostas pela Polícia Militar, e se revolta. Estavamos vendo o dia em que o morro desce sem ser carnaval, como diz o samba de Wilson das Neves.

 

Polícia Militar do Rio invade prédio e desaloja famílias com brutalidade

Foto: Midia Informal
Terreno da Telerj estava há pelo menos 10 anos vazio; polícia utiliza arma de fogo durante o despejo

Por Rodrigo Noel, do Rio de Janeiro

   O dia começou com cenas de guerra e barbárie para milhares de pessoas que ocupavam um terreno abandonado da Telerj, atual Oi, na Zona Norte do Rio, neste 11 de abril. A polícia deslocou um contingente de 1600 policias para cumprir uma ordem de reintegração de posse contra cinco mil pessoas que ocupavam a área desde o dia 31 de março. A ação, que começou por volta das 6h da manhã, resultou em dezenas de feridos, inclusive crianças. Cápsulas de fuzil pelo chão denunciavam que não foram apenas utilizados armamento “não letal”.

   A truculência policial contra os moradores contou com helicóptero despejando bombas de gás lacrimogêneo, numa ação que lembra muito o despejo da PM de Alckmin na ocupação do Pinheirinho, há dois anos. Tal como ocorreu em São José dos Campos (SP), os moradores denunciavam que foram expulsos pela polícia com ameaças, não conseguindo sequer recuperar seus pertences dentro dos barracos. Uma retroescavadeira do Bope, por sua vez, punha abaixo as moradias, enquanto a repressão ocorria do lado de fora do prédio.
Policial saca arma de fogo durante repressão a moradores (Ag Brasil)
Cenas de barbárie
   Para chegar ao prédio desocupado não foi fácil. A maior parte dos acessos estava bloqueada pela Polícia Militar, mesmo para moradores que se identificavam e apresentavam comprovantes de residência. O clima de tensão na região era combinado com o espetáculo midiático dos grandes veículos de imprensa, que insistiam na linha editorial de “restabelecimento da ordem”, chamando os moradores de “invasores” e “vândalos”.

   O RJTV 1ª edição, da Rede Globo, quase um diário oficial da cidade, dizia que a ação havia sido pacífica. Não foi o que eu vi. O que presenciei foram pessoas desesperadas, muitas aos prantos, após terem sido covardemente agredidas e humilhadas. Muitos integrantes do Batalhão de Choque da PM e do Bope ostentavam armas de grosso calibre em frente a uma população desarmada e desamparada. Essa mesma PM, que “sumiu” com o pedreiro Amarildo Dias de Souza, que assassinou a trabalhadora Claudia da Silva Ferreira, e que pratica os seguidos autos de resistência.

   Próximo a um supermercado da região, a prefeitura do Rio organizou um arremedo de cadastro dos moradores expulsos da Favela da Telerj, onde coletava apenas o primeiro nome e um telefone para contato. E mais nada. Revoltados, os moradores desalojados seguiram para a porta da Prefeitura do Rio e prometiam passar o final de semana acampados por lá até que o prefeito Eduardo Paes negocie e ofereça alguma alternativa.

   "Acompanhamos a desocupação da favela da Telerj e ouvimos muitos relatos de arbitrariedades", afirmou Aderson Bussinger, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ e militante do PSTU. "Presenciei muitas pessoas feridas por balas de borracha, uma senhora idosa na UPA Sampaio ferida não, ouvi relatos de mães que tiveram filhos agredidos", disse, informando ainda que a Comissão de Direitos Humanos irá preparar um relatório apurando as denúncias de abuso policial.

“Tem que baixar o sarrafo mesmo”
   Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio, 27 pessoas foram presas durante a desocupação. Um jornalista do Globo chegou a ser detido enquanto tentava filmar a ação da PM com o celular, que foi confiscado e roubado por um policial. Entre os inúmeros feridos, um morador ficou cego de um olho ao ser atingido por um disparo de bala de borracha. Após a ação, pelo menos três crianças foram hospitalizadas.

   Em outra frente, moradores da Providência, Horto, Vila Autódromo e outras comunidades que têm sofrido com as remoções realizadas pelo estado ocuparam o prédio da Defensoria Pública exigindo a saída de Nilson Bruno Filho, Defensor Público Geral do Estado. Nilson tem atuado como aliado do prefeito Paes nos casos de remoções arbitrárias para as obras da Copa e Olimpíadas.

   O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, por sua vez, apoiou a ação e disse que "foi feito o que tinha que ser feito". Um diretor administrativo da secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos foi ainda mais direto e expôs com clareza como pensa esse governo. "Tem que baixar o sarrafo mesmo", escreveu Antony Faria La Ruina em uma rede social.

Uma dura rotina
   A repressão ao povo pobre e negro do Rio de Janeiro virou uma rotina. Não se trata mais de uma ação desmedida de alguns governantes desmiolados ou fruto de devaneio de um comandante de batalhão. Mas uma política consciente, orquestrada por toda cúpula dos três poderes fluminenses (Executivo, Legislativo e Judiciário) para beneficiar a especulação imobiliária e garantir as obras da Copa e das Olímpiadas. O terreno da Telerj está abandonado há cerca de 20 anos. A ação de reintegração de posse foi solicitada pela companhia telefônica Oi, empresa que possui valor de mercado superior a R$ 6,5 bilhões, e que foi a aposta do então governo Lula na criação de uma “supertele” nacional.

   A ação de reintegração de posse e a brutalidade da Polícia Militar contra os moradores mostraram ainda o verdadeiro caráter dessa polícia, comprometida com os interesses das grandes empresas e utilizada pelos governos para atacar o povo pobre e negro das periferias. Essa polícia tem que acabar!

Tréplica do PSTU à Nova Democracia: queremos os vídeos na íntegra!

Muito curioso o vídeo da Nova Democracia a respeito das gravações divulgadas pelo PSTU sobre a invasão à sede do partido.

Reclamam de manipulação das imagens e mostram trechos mínimos das suas 6 câmeras, como disse o Patrick Granja que havia ali. Nenhum trecho de confusão, apenas declaração dos membros do PSTU que estavam enclausurados em sua própria sede. Chegam a mostrar um Black Bloc jogando bola inocentemente com uma criança diante da sede do partido.

Daniel Cruz, do Coletivo Mariachi, diz que a sede do PSTU parece uma prisão. O PSTU é um partido revolucionário que sempre foi e continua sendo perseguido pelo Estado. Depois de junho, diversos militantes, em especial no Rio Grande do Sul, tiveram suas casas vasculhadas pela polícia e hoje respondem a inquéritos policiais por formação de quadrilha (veja aqui: http://www.pstu.org.br/node/20454). Algumas sedes regionais do partido no nordeste do país foram arrombadas e tiveram documentos roubados. Menos mal que o PSTU do Rio de Janeiro tem uma grade de proteção. Ela serve para defender a integridade do local de ataques da polícia e de ataques como o que o partido sofreu no dia 1º. Se não houvesse grades, sabe-se lá o que teria acontecido.

Dizem que o partido se liga ao que há de pior na política brasileira: PT, PSDB, CUT, Força Sindical. Vale lembrar que os trabalhadores da Europa fizeram, no último período, várias greves gerais, inclusive uma greve continental. Isto é o que queremos fazer aqui. Greves gerais causam muito mais prejuízos à burguesia nacional e internacional do que vidraças de bancos partidas, caixas eletrônicos danificados, ou roletas da estação de trem destruídas. A bem da verdade, elas são imediatamente substituídas e, o que é pior, por trabalhadores explorados. Mas como fazer uma greve geral no país, se os metalúrgicos do ABC - que foram protagonistas nas lutas contra a ditadura - hoje são dirigidos pela CUT? Se os petroleiros são, em sua maioria, dirigidos pela FUP? A tática do PSTU é chamar as centrais sindicais para as lutas e colocá-las contra a parede. Ou bem elas são obrigadas por suas bases a lutar, a entrar em greve, ou então recusam a luta e são flagrantemente desmascaradas. Cabe, aos partidos e organizações de esquerda, fazer este chamado e denunciar as direções. Este é o método ensinado pelo marxismo - a aposta no movimento de massas e o rechaço às ações isoladas individuais. Faremos uma greve geral no país sem as bases da CUT? Sem as bases dirigidas pelo PT e PCdoB? Mas, apesar da explicação metodológica, é bom também lembrar que, no dia 11 de julho de 2013, no ensaio de greve geral ocorrida no país, os Black Blocs estiveram presentes em grande número. É bom lembrar que no dia 1º de abril, antes da invasão, a FIP, os Black Blocs e o MEPR, estiveram todos marchando na Av. Rio Branco junto com a CTB e a CUT. E, muito embora a acusação seja leviana, estas mesmas organizações não se incomodam em aliar-se ao coletivo Fora do Eixo, que tem ligação umbilical com o governo federal. Sobre os problemas que cercam o coletivo e, de tabela, a Mídia Ninja, vale a leitura: http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=1660

Mesmo com a edição de imagens, que passa longe de representar o compromisso da mídia independente, o vídeo em questão acaba mostrando cenas que contradizem todo o seu discurso. No minuto 2:50, um dos midiativistas se desespera com uma pedra lançada contra a sede do PSTU vinda da rua. As imagens, mesmo cortadas e desconexas, mostram o portão da sede do partido completamente danificado. A propósito, a imagem da grade explica como o interior da sede foi danificado. Mesmo de fora dela, do corredor do prédio, se pode alcançar - com pedras ou objetos longos - a livraria que funciona dentro do partido. Mas, é claro, para chegar a quebrar a vidraça e danificar o interior da sede, é preciso realmente estar portando tais objetos e lançá-los contra a mesma. Não é exatamente nada sobrenatural, como diz Bruno Matiazzo.

Aliás, o mesmo Bruno diz que sentiu sua integridade física gravemente ameaçada mas, se se repara bem no áudio dos pequenos trechos do vídeo, se pode ouvir alguém dizendo que ele pode entrar. Não há sequer uma palavra com tom de voz alterado proferido contra ele por quaisquer membros do PSTU (e, se houvesse imagens ou áudio dessas palavras, é de se supor, pelo método de edição do vídeo, que elas seriam fartamente explorado na obra). O PSTU, novamente, não ameaçou ninguém.

André Migueis, representante da Mídia Independente Coletiva, diz:

"Quando chegamos lá, o que estava ocorrendo mesmo era mais uma algazarra" [aqui entram as imagens do Black Bloc, mascarado, jogando bola inocentemente em frente à sede do partido]. "Nada muito maior do que isso. [...] Uma vidraça foi quebrada, pularam uma grade, e realmente nada mais do que isso."

Como assim, nada mais do que isso? Mas isso não é o suficiente? Pessoas estranhas invadem a sede do partido pulando uma grade fechada, quebram uma vidraça, fazem uma algazarra, e tudo bem, nada demais? Quer dizer, André, que alguém entra em sua casa pulando os muros, quebra suas vidraças e promove uma algazarra, e você serve um cafezinho? Convida o invasor a sentar em sua sala e bater um papo? A propósito, foi isso que o PSTU fez com o outro André, o da FIP, quando ele, sozinho, chegou a sede gritando por algum esclarecimento a respeito das supostas agressões sofridas por membros da FIP - que o vídeo divulgado pelo PSTU coloca por terra.

André Migueis também diz, mais tarde, que a pessoas que estavam lá, estavam para acalmar a situação? Ora, mas que situação? Certamente havia uma briga entre os próprios militantes do PSTU, e os mascarados pularam as grades para correr em socorro do partido, é isso? Ou havia mesmo uma situação de tensão nos corredores do edifício? As contradições são realmente notáveis.

Mas culpam o PSTU pelo acontecido. "Querem se promover e denegrir a imagem dos movimentos sociais e das mídias alternativas", dizem. Mas o PSTU não fez nada. Estava em sua sede e foi surpreendido pela chegada de várias pessoas estranhas ao local, mascaradas, fazendo algazarra. O que dirão? Que o partido orquestrou tudo aquilo? Pagou àqueles homens para encenarem uma invasão e, assim, poder acusar as organizações que se responsabilizaram pelo ataque? Que o PSTU pagou ao André para dizer que era da FIP?

Thiago Dezan, da Mídia Ninja, afirma que o que aconteceu lá é muito pequeno perto do que ele vivencia nas ruas. Está redondamente enganado. Pois se do ponto de vista objetivo há coisas muito piores acontecendo todos os dias nesta cidade e neste país - e o PSTU as reconhece, pois está envolvido em várias das mais profundas crises sociais -, elas partem via de regra do Estado. Não se pode considerar menor a invasão a um partido combativo da esquerda que luta cotidianamente contra estas mesmas crises, em especial se esta invasão vem de grupos que também se dizem da esquerda. O cerceamento das liberdades políticas - parta do Estado, dos fascistas ou de pretensos esquerdistas - é um dos perigos mais graves pelos quais o país pode passar. Vale lembrar que o ato realizado no dia da invasão relembrava as vítimas do período em que, pela última vez, os partidos políticos tiveram suas liberdades cerceadas. Isso não é um problema menor, é preciso repetir.

O PSTU não criminaliza quaisquer coletivos de mídia independente, tampouco seus trabalhos. Mas não se deve confundir a mídia independente com o que a Nova Democracia expressa em seus últimos posicionamentos. O que eles querem - a FIP, o Black Bloc, o MEPR - é que o PSTU lhes passe um cheque em branco, que não coloque publicamente suas profundas diferenças políticas e organizativas, como viemos fazendo insistentemente desde junho do ano passado. O estalinismo inaugurou essa temeridade que é impedir a manifestação das diferenças entre as organizações. Já passou da hora desta tradição acabar. Nós não nos furtaremos a continuar expressando nossas diferenças políticas e denunciar quaisquer equívocos por parte destes coletivos, especialmente se eles representam prejuízo aos cada vez mais tímidos espaços da democracia no país.

Neste sentido, é preciso também condenar contundentemente o posicionamento final do vídeo, que faz coro aos acontecimentos do dia 20 de junho, quando muitos exigiram aos partidos de esquerda que abaixassem suas bandeiras e quando os militantes destes mesmos partidos, em especial do PSTU, foram covardemente agredidos por grupos fascistas. O PSTU não abaixou suas bandeiras naquela ocasião, e não as abaixará agora. Lutamos heroicamente contra os fascistas e garantimos a segurança de todos os militantes sociais ali presentes. Tivemos 10 hospitalizados, mas valeu a pena lutar. Defenderemos nosso direito à existência com a sanha dos revolucionários. É lamentável reivindicar a negação aos partidos e tentar igualar, mesmo que minimamente, o PSTU a partidos da ordem burguesa como PT e PSDB. A bem da verdade, o jogo da direita e da polícia é exatamente este: enterrar a sete palmos do chão todos os partidos que combatem, há muitos e muitos anos, as excrescências do capitalismo neste país e no mundo.

Por fim, reiteramos nosso desafio. A Nova Democracia continua sem divulgar as imagens que tem do momento da invasão. Queremos ver todas as imagens, na íntegra. Esta é a única maneira de apurar exatamente o que ocorreu naquele dia. Tudo o que tínhamos em mãos está publicado na internet e, caso tenhamos algo mais, também publicaremos. Fica aqui o convite aos coletivos que ali estavam para que publiquem as imagens de suas 6 câmeras. Até agora, pudemos ver menos de um minuto de imagens difusas e que não mostram nada além de um ataque covarde e irresponsável à sede do PSTU.

Amanhã vai ser outro dia. 

Veja aqui de novo o vídeo da invasão de nossa sede:


Vídeo de esclarecimento da invasão à sede do PSTU

Vídeo de esclarecimento da invasão à sede do PSTU. 

Reiteramos nosso desafio: queremos ver as imagens captadas pela Nova Democracia durante a depredação. 

Amanhã vai ser outro dia.

Ato político de solidariedade ao PSTU denuncia ataque sofrido pelo partido

Cerca de 200 pessoas participaram do ato, que teve a participação de entidades, partidos e lideranças das lutas populares

Arthur Gibson,da redação Rio

Entidades, ativistas e partidos de esquerda prestam apoio ao PSTU
Nesta quinta-feira, dia 2 de abril, realizou-se na sede o Sindpetro-RJ um vitorioso ato político de apoio e solidariedade ao PSTU. Um dia antes, após o ato de “descomemoração” dos 50 anos do golpe militar, um grupo de militantes da FIP atacou a sede estadual do PSTU quebrando vidraças e a proteção da porta em uma tentativa de invasão para agredir os militantes do partido. Fazendo ameaças, o grupo só se dispersou definitivamente após a chegada de grande número de militantes e simpatizantes do PSTU, bem como militantes do PSOL e PCB.
Já há algumas semanas o PSTU fazia a convocação para um importante debate sobre a participação das grandes empresas no golpe e na sustentação do regime militar. Como parte da “descomemoração” dos 50 anos do golpe, a atividade buscava fortalecer a luta pela reparação aos perseguidos políticos e pela punição dos envolvidos com os crimes da ditadura. O criminoso ataque forçou uma mudança às pressas no tema da atividade, mas longe de diminuir, aumentou a sua participação.

Entidades e partidos de esquerda prestam apoio ao PSTU
A mesa do ato político já dava a mostra que a solidariedade ao PSTU refletia o respeito que o partido tem dentre as organizações de esquerda e aqueles que estiveram à frente das principais lutas dos últimos anos. Compuseram a mesa Cyro Garcia, presidente do PSTU; Ana Cristina, dirigente do PSOL; Benevenuto Daciolo, líder da luta dos bombeiros do RJ; Célio e Bruno, lideranças do movimento grevista dos garis do Rio; Américo Astuto, membro do Conselho Consultivo da Comissão da Verdade da ALESP; Eduardo Serra, dirigente do PCB; Florinda, professora e dirigente do SEPE e Aderson Bussinger, da comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ.
A fala de abertura foi feita por Cyro Garcia, que leu a nota oficial do PSTU (leia aqui) e destacou que o partido reivindica que as divergências entre a esquerda devem ser tratadas dentro dos espaços do movimento: ”Esse não é o método do movimento operário, esse é o método do stalinismo. Uma coisa é a divergência política outra coisa é o que aconteceu ontem na nossa sede”.
Américo Gomes, que faria a palestra marcada anteriormente sobre a relação das empresas com a ditadura militar fez questão de afirmar a necessidade de denunciar o ataque ao PSTU. Ele também discutiu a necessidade de avançar na campanha pela punição dos agentes do estado que cometeram crimes em nome da ditadura: “punir o passado significa dar exemplo pro presente”.

Entidades, ativistas e partidos de esquerda prestam apoio ao PSTU
O dirigente do movimento dos bombeiros, Benevenuto Daciolo, um dos mais aplaudidos da noite, destacou o apoio do PSTU à luta da categoria e deu um depoimento emocionado: “conheço o PSTU há três anos e tenho uma admiração muito grande por vocês. Quando o Cyro me ligou ontem à noite, imediatamente, me prontifiquei a ajudar. Estou junto com vocês.”
Ana Cristina leu uma nota aprovada pela executiva do PSOL: “lamentamos profundamente que tenha acontecido no dia 1 de abril, quando ‘descomemorávamos’ o golpe empresarial-militar, um ataque com métodos fascistas”.
Eduardo Serra, do PCB, fez sua fala um breve histórico da dura perseguição sofrida pelo seu partido durante a ditadura. Durante o ato do dia 1º de abril o PCB foi atacado e teve suas bandeiras confiscadas pela PM. ”O PSTU incomoda a burguesia porque é um partido que vai pra rua, vai pro enfrentamento, organiza os trabalhadores. Consideramos a agressão feita a sede do PSTU uma agressão ao PCB”, disse Eduardo Serra.
O ponto alto do ato foi a fala dos dirigentes da greve dos garis, Célio e Bruno, que falaram da experiência da luta: “foi de grande importância para a nossa luta o apoio dos movimentos sociais e de pessoas como o Cyro do PSTU, do PSOL que estavam ali solidários à nossa causa. É muito importante a unificação da classe trabalhadora. Hoje temos um governo do PT e eles deixam que a PM batam nos trabalhadores estamos vivendo uma democracia que por trás dela, tem uma ditadura”.
Estiveram presentes cerca de 200 pessoas entre eles representantes da ANEL, do MML, da CSP-Conlutas, dirigentes da greve operária do COMPERJ, dentre outros. A comissão de direitos humanos da OAB deve lançar nota denunciando o ataque ao PSTU. Sônia Lúcio, dirigente do ANDES leu nota do sindicato em apoio ao PSTU e já foi solicitado a todas as Associações Docentes do RJ que fizessem o mesmo. O SINDSCOPE também aprovou repúdio ao ataque e solidariedade ao PSTU.

“PSTU seguirá nas lutas e não se deixará intimidar”
O PSTU vai seguir impulsionando uma ampla campanha de denúncia contra o ataque sofrido pelo partido. Chamamos todas as entidades dos movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, e organizações de tradição democrática a repudiar a agressão ao PSTU.
Como deixou claro Cyro Garcia em sua fala de encerramento, o PSTU seguirá nas lutas e não se deixará intimidar: “a historia de nossa organização não começou ontem, nosso partido se formou em plena ditadura militar. Esse partido que não se curvou em nenhum momento não vai se curvar diante dos ataques feitos ao nosso partido por alguns integrantes da FIP. Somos os mais intransigentes defensores da auto-organizações da classe trabalhadora”. Não defendemos a ideia que o monopólio da violência é do Estado. Da mesma forma que nos organizamos pra enfrentar os nazi-fascistas ano passado vamos seguir organizados pra nos defender. Não estamos nas ruas de junho pra cá. Estar nas ruas e nas lutas é parte do DNA do PSTU. Nosso método é o de tratar as divergências através da polêmica pública, nos espaços do movimento. Mas não vai ser um grupelho que vai nos intimidar”.

Nota oficial do PSTU sobre o atentado à sua sede no Rio de Janeiro

Justamente no dia em que relembrávamos todos os crimes cometidos pela ditadura militar e todos aqueles que tombaram para construir um mundo livre da opressão e exploração, fomos atacados pela FIP, que cumpriu o papel da polícia e do governo neste 1º de abril

No dia 1º de abril, após o ato de “descomemoração” dos 50 anos do golpe militar no Brasil, a sede do PSTU Rio sofreu um atentado criminoso.

Integrantes da Frente Independente e Popular (composta pelo MEPR, organizações anarquistas e independentes), como eles mesmos se intitularam, tentaram arrombar a nossa sede e arremessaram destroços de madeira entre as grades do portão que acabaram por estourar a vidraça de uma de nossas salas. Além disso, lançaram da rua uma pedra portuguesa que quebrou o vidro da varanda do andar onde está localizada a sede do PSTU. Foram cerca de 15 integrantes da FIP que ingressaram no prédio na tentativa de invasão e mais 30 aguardavam fora dele. Uma covardia total.

Durante a tentativa de invasão ameaçaram o nosso presidente estadual Cyro Garcia, que estava no interior do local, e afirmaram que seríamos obrigados a dormir ali foragidos dentro de nossa própria sede para que não fossemos espancados em nossa saída à rua.

A agressão se assemelha muito aos métodos utilizados pelos fascistas e neonazistas contra as organizações operárias, como também às práticas stalinistas do século XX que perseguiam política e fisicamente àqueles que ousavam criticar a linha oficial de Moscou.

Realmente somos totalmente diferentes da FIP e das organizações que a compõe. Temos outro método, política, concepção e, sobretudo, outra moral. Nascemos na luta contra a burocratização do estado soviético e os expurgos stalinistas. A democracia operária para nós é um princípio. Para o PSTU, não vale tudo para derrotar os nossos adversários no campo da esquerda. Não vale a mentira. O PSTU não agrediu absolutamente ninguém. Aqueles que se disseram agredidos foram vistos no IFCS sem quaisquer marcas de agressão. Inclusive, o mesmo membro da FIP que depredou a sede, foi recebido em seu interior pela nossa militância minutos antes de iniciar o conflito.

Nossas diferenças não são de hoje. Na greve da educação municipal, integrantes da FIP desenharam, em um cartaz, uma dirigente do Sepe na forca. Nesta mesma assembleia, levaram lutadores de academia para intimidar os educadores. Nossos dirigentes são constantemente insultados nas passeatas com xingamentos como “pelego”, “vendido”, “ladrão”. O prédio de nossa sede foi pichado com os seguintes dizeres: “-P2TU + Black Bloc”.

Somos totalmente conscientes que a FIP é heterogênea e que, inclusive, alguns de seus integrantes já se solidarizaram conosco e condenaram a tentativa de agressão . A esses nos cabe o nosso agradecimento e respeito. Sabemos também que há anarquistas que são contra essa prática odiosa. Nesta nota oficial, estamos denunciando aqueles que participaram direta ou indiretamente da ação, como também aqueles que se omitem ou escrevem posts desastrosos nas redes sociais. No entanto, responsabilizamos a FIP e as organizações partícipes, porque foi assim que os agressores se identificaram. Os conhecemos bem, sabemos seus nomes e todos sabem que são parte da FIP. Aguardamos pronunciamentos oficiais de todas as organizações que se reivindicam de esquerda sobre o ocorrido.

Os ataques contra o PSTU se justificam na realidade porque nunca demos um cheque em branco aos Black Blocs, FIP etc. Não concordamos com suas ações, métodos e concepções. O debate político e o conflito de ideias sempre foi uma tradição no movimento operário. Marx, Engels, Lenin e Trotsky escreveram artigos e até livros para polemizar contra seus adversários políticos que se localizavam dentro do marco da própria esquerda. Dirigentes anarquistas dos séculos XIX e XX também cansaram de polemizar publicamente contra os marxistas. Mas a FIP e, principalmente, o MEPR escolhem o caminho mais fácil e despolitizado: caluniam e denunciam de “P2” todos aqueles que discordam de suas diretrizes. Quem introduziu essa má tradição no movimento operário foi stalinismo, que tentou calar todos aqueles que denunciavam os privilégios da casta burocrática da ex-URSS e China.

Justamente no dia em que relembrávamos todos os crimes cometidos pela ditadura militar e todos aqueles que tombaram para construir um mundo livre da opressão e exploração, fomos atacados pela FIP, que cumpriu o papel da polícia e do governo neste 1º de abril.

A nossa corrente no Brasil tem mais de 40 anos de trabalho na classe operária e na juventude. Sobrevivemos aos anos de chumbo e também à democracia burguesa. Enfrentamos os neonazistas no dia 20 de junho de 2013 em defesa das bandeiras da esquerda e de todo militante social. Não estamos e nunca seremos intimidados por aqueles que não têm história alguma. Respeitem as nossas tradições!

Já iniciamos uma ampla campanha no movimento social organizado para condenar e banir essa prática injustificável. Não pararemos até que votemos em todas as categorias e entidades o rechaço a essa monstruosidade digna dos militares.

Amanhã será outro dia. 

Direção PSTU Rio de Janeiro


Vejam fotos da agressão a nossa sede:



50 anos do golpe militar: 50 anos de Impunidade


por Mariana Rio, da juventude do PSTU Rio

Hoje é dia 1 de abril, dia da mentira. Também hoje, há 50 anos, foi instalado o regime civil-militar brasileiro que se estendeu de 1964 á 1985 e perseguiu, prendeu, torturou e assassinou milhares de jovens e trabalhadores.
Nos últimos dias, diferentes jornais e emissoras de TV vem fazendo especiais sobre o golpe. Várias atividades estão acontecendo para marcar a data e atos de rua irão acontecer em diferentes cidades.
Até hoje, muito do que ocorreu no período de 1964 a 1985 ainda permanece obscuro. Não sabemos de fato nossa historia, há décadas a sociedade brasileira vem travando uma batalha por sua memória e parte considerável dos arquivos da ditadura permanece fechada. A comissão da verdade, que poderia cumprir um papel histórico de reparar e regatar a memória de milhares de brasileiros que foram atingidos pelo regime militar, mostrou-se insuficiente, não tem verba, não tem apoio do governo para desenvolver o trabalho e não possui poder de julgar.
O último balanço realizado pela Comissão da Verdade aponta pelo menos 50 mil atingidos direta ou indiretamente em seus direitos e cerca de 400 mortos, isso sem contar os milhares de indígenas que foram violados e mortos e as mortes provocadas pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto, que proporcionou a população mais pobre um péssimo sistema de saúde e de saneamento públicos e que mantiveram altíssimas taxas de mortalidade infantil durante todo o período. Com um forte apoio das potências imperialistas, especialmente dos EUA, o golpe brasileiro aprofundou a desigualdade e a pobreza no país. A desnacionalização da economia brasileira aumentou a hegemonia norte-americana no território brasileiro.

São 50 anos de impunidades são 50 anos de criminalização dos movimentos sociais, dos pobres, das organizações de esquerda.

Diferente do que aconteceu em outros países da América Latina, o Estado brasileiro fez a opção de esconder seus ossos no armário. O Brasil promulga uma anistia ampla e irrestrita, e nenhum torturador do regime foi punido, nenhuma empresa ou empresário, emissora de TV ou jornal, que colaborou com os militares, ninguém foi punido por seus crimes. Hoje, parte da estrutura de repressão montada pelos militares para perseguir, prender e torturar seus opositores segue viva. A mesma polícia militar que comete atrocidades há 50 anos, tortura e mata trabalhadores e jovens diariamente nas favelas e periferias das grandes cidades.
Hoje, vivemos uma escalada de repressão forte dos governos, com a famigerada Lei de Segurança Nacional voltando a ser aplicada e novas leis sendo criadas para criminalizar os trabalhadores e jovens.
Ato hoje "descomemora" os 50 anos do golpe de 1964.
Foto: RB
Resgatar a história do regime civil-militar não é apenas lembrar de um passado distante, mas também olhar para o futuro. Nossa sociedade é doente, tem feridas que nunca cicatrizarão: para que nunca mais volte a acontecer, é fundamental curar nossas feridas históricas e garantir justiça, reparação e punição a todos os agentes do Estado que cometeram crimes e aos empresários e empresas que financiaram a ditadura.
Nesse contexto a memória, verdade e justiça se torna uma tarefa de todos que desejam revoluciona nossa sociedade.
Julgar para reparar, punir para não repetir!