A tragédia
Terça-feira, 2 de abril, aproximadamente 16:30 horas: um ônibus da linha 328 (Bananal/Castelo), saído da Ilha do Governador em direção ao centro, tombou de cima de um viaduto e causou a morte de 7 pessoas, deixando outras 10 feridas. O coletivo caiu de rodas para cima, teve o teto totalmente amassado e derramou grande quantidade de óleo; levou mais de uma hora para ser retirado da pista lateral da Avenida Brasil, principal via da cidade.
Parece mentira, mas mesmo em ritmo de grandes investimentos para a Copa do Mundo a cidade do Rio de Janeiro vive mais uma tragédia anunciada.
O acidente teria sido causado, segundo testemunhas que desceram do ônibus pouco antes da queda, por uma confusão entre o motorista do coletivo e um passageiro. Há relatos de que o estudante teria primeiro reclamado porque o motorista não teria parado para ele e há ainda informações que o motorista, além de bastante grosseiro, estaria dirigindo em alta velocidade e teria passado por vários pontos sem parar.
A discussão entre ambos teria levado o jovem, que seria estudante da UFRJ, a dar um chute no rosto do motorista, o que teria causado o desmaio do mesmo e ocasionado o acidente.
A Avenida Brasil, uma das principais vias de acesso ao Rio e recente tema de novela global, ficou totalmente interditada por cerca de 20 minutos e no sentido centro por mais de duas horas, provocando um congestionamento de nove quilômetros. Foram necessários 80 bombeiros e 3 helicópteros para o resgate às vítimas.
Vítimas eram trabalhadores e jovens
Havia pelo menos 16 pessoas dentro do ônibus. A maioria era composta por trabalhadores e estudantes. As vítimas fatais foram Marcos do Nascimento, de 42 anos; José de Jesus, de 42 anos; Ângela Maria Reis da Silva, 62 anos; o gerente comercial Luiz Antônio do Amaral, de 41 anos pai de três filhas, de 2, 7 e 18 anos; o cearense Francisco Batista de Souza, carpinteiro, de 40 anos que pretendia trabalhar nas obras da Transcarioca; Oséas da Silva Cardoso, 39 anos e Luciana Chagas da Silva.
Dos 10 feridos, 4 ficaram em estado grave. Além do motorista do ônibus, com fratura no fêmur e traumatismo craniano, foram internados um jovem de 18 anos, em estado gravíssimo com traumatismo craniano, um senhor de 80 anos, também com traumatismo craniano e uma jovem de 18 anos, com um trauma no tórax.
A realidade do caos no transporte público
Circular de ônibus no Rio é um sofrimento diário A fórmula da combustão: motoristas estressados e sem treinamento adequado somado a passageiros apressados, cansados e submetidos a viagens desconfortáveis e, para completar, horas seguidas de engarrafamento.
Motoristas e cobradores de ônibus estão entre as categorias mais exploradas. Jornadas de trabalho estafantes e a dupla função (dirigir e cobrar passagens) coloca em risco a vida de rodoviários e passageiros. Sem contar os baixos salários, terminais sem banheiros, descontos ilegais nos salários e por aí vai. A organização sindical e iniciativas de mobilização pela base por parte dos rodoviários (já que a direção do sindicato é muito questionada) são duramente reprimidas pela patronal com demissões, como no caso da recente construção da greve em meados de março, chegando mesmo a violência armada.
O estresse dos motoristas é frequentemente apontado, por especialistas e mesmo por usuários, como uma das principais causas de acidentes. No caso em questão, o motorista também exercia a dupla função de motorista/cobrador. A sua companheira acrescentou que ele trabalhava na empresa há três anos e que costumava fazer hora extra todo dia.
A ineficiência da fiscalização
De acordo com levantamento estatístico do Corpo de Bombeiros, nos últimos quatro anos, a média de acidentes envolvendo ônibus foi de quase dois acidentes com vítimas por semana. Só em 2011 foram registrados 126 casos; e em 2012, 84 casos.
Também em 2012 a ouvidoria da Secretaria Municipal de Transportes recebeu 28.294 reclamações sobre ônibus, sendo as queixas mais frequentes a “falta de urbanidade” (educação) por parte do motorista e o comprometimento com a integridade dos passageiros.
Em parte, esta ineficiência se aprofundou a partir da inexplicável redução no número de fiscais da Secretaria Municipal de Transportes, apesar de ter aumentado a frota de ônibus, táxis e vans. Atualmente, apenas 40 agentes fiscalizam 33 mil táxis, quase 9 mil ônibus e 6 mil vans. Em 2006, eram 53 agentes. Uma redução de um quarto do efetivo!
Mas o mais criminoso são os cinco registros relativos a “não indicação do condutor” por parte da empresa, prática comum utilizada a fim de evitar a suspensão da carteira de habilitação do motorista, devido ao excesso de multas.
Apesar disso, o prefeito Eduardo Paes não pretende ampliar o número de agentes. O prefeito chegou a afirmar que “o modelo de fiscalização que depende de um grande número de profissionais favorece a corrupção”, e não pretende contratar mais fiscais; defendendo como mais eficiente um sistema eletrônico, associado a punições rigorosas às empresas, incluindo o cancelamento da concessão. Coisa inimaginável de ser implantada no Rio de Janeiro, dadas as conhecidas denúncias de favorecimento entre a prefeitura e os donos de empresas rodoviárias, os conhecidos tubarões do transporte.
A verdadeira cara do governo e dos patrões: informações falsas e impunidade
A Fetranspor (sindicato dos empresários de ônibus), se apressou em divulgar uma nota na qual dizia “lamentar profundamente o acidente com um ônibus” e que se solidarizava com as famílias das vítimas.
Pois bem, Francilene dos Santos, esposa do motorista, ao chegar ao hospital reclamou da empresa de ônibus Paranapuã, que, segundo ela, não prestou qualquer auxílio ao trabalhador e nem procurou a família para prestar qualquer assistência.
A nota dos empresários ainda afirmava que “o motorista era antigo na casa e sem retrospecto de acidentes” e que “o ônibus estava em dia com suas vistorias, tinha seis anos de uso e era dotado de tacógrafo, GPS e câmeras”, e a própria Secretaria Municipal de Transportes chegou a divulgar que o ônibus estava autorizado a circular, pois a vistoria mais recente ocorrera em 3 de julho de 2012.
Na verdade, o ônibus estava com o licenciamento de vistoria do Detran vencido – o último aconteceu em 2011; acumulava 46 multas desde 2008, totalizando R$ 4.443,59! Doze penalidades foram relativas a avanço de sinal, 14 por excesso de velocidade e ainda outras tantas por parar em desacordo com Código de Trânsito Brasileiro, desobedecer às ordens de autoridades competentes e parar nas pistas de rolamento das vias de transporte rápido.
Já o prefeito Eduardo Paes (PMDB), lamentou o acidente e afirmou que ainda não poderia apontar culpados. "Por enquanto há muitas versões, muito boato. Prefiro esperar", afirmou, se eximindo de qualquer responsabilidade.
Por isso, quando falamos em tragédia anunciada, não estamos fazendo sensacionalismo.
A criminalização das vítimas, olha ela aí de novo...
A polícia, por sua vez, pretende indiciar e pedir a prisão preventiva do estudante e do motorista por crime doloso (com a intenção de matar!), se negando a reconhecer qualquer influência das precárias condições de trabalho e do transporte público como causa da queda do ônibus.
Segundo o delegado o motorista também teria culpa “por não ter parado no ponto, ter estimulado a briga verbalmente e não ter chamado a polícia quando começou a confusão, assumindo o risco do acidente”. Contra o estudante pesa ainda uma anotação na polícia, ocorrida em 2012, devido a uma briga com vizinhos.
A solução dos trabalhadores
O PSTU entende que tragédias como essa, mais do que consequência de erros individuais, são fruto da irresponsabilidade e da busca voraz pelo lucro em detrimento dos direitos básicos da população, como boas condições de transporte, no caso dos usuários, e de trabalho, no caso dos rodoviários.
A opção criminosa pelo transporte rodoviário, feita há décadas passadas, entupindo as cidades de ônibus e automóveis, levou ao caos os sistemas de transportes urbanos no Brasil e no mundo. As conseqüências são engarrafamentos, poluição, passagens caras, superlotação e estresse generalizado. Acidentes como esse se repetem pelo país afora. Por ano morrem no Brasil mais de 50 mil pessoas em acidentes de trânsito; são mais de meio milhão de mortes em uma década, fora os mutilados ¬– retrato de uma verdadeira guerra!
O lucro, objetivo único dos empresários de ônibus, faz com que os veículos fiquem em péssimo estado, motoristas e cobradores estejam sobrecarregados, usuários fiquem impacientes pelas humilhações diárias que passam nos coletivos.
O PSTU luta pela estatização de todo o transporte rodoviário e pela reestatização do Metrô, das Barcas e da SuperVia e continuamos a defender pelo transporte público seja cobrada uma tarifa social de R$ 1,00.
E há condições para isso; afinal estamos gastando 1 bilhão de reais para “reconstruir” o Maracanã, que havia recentemente passado por uma reforma milionária, para a Copa de 2014, para depois reformá-lo de novo para as Olimpíadas sabe-se lá por quanto mais; tudo isso com dinheiro público, do bolso suado dos trabalhadores.
Por isso, para melhorar o transporte público, defendemos o fim das concessões de serviços de transporte às empresas privadas, pois apenas assim seria possível garantir um transporte de qualidade para os trabalhadores. Além disso, é preciso criar Conselhos Populares, reunindo trabalhadores rodoviários e a população usuária para gerir democraticamente o sistema de transporte. Só assim teremos mudanças significativas, e entrar num ônibus, no metrô, no trem não vai ser mais uma batalha diária.