Com Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, o Rio afunda na lama da miséria e das tragédias

Rafael Nunes, do Rio de Janeiro (RJ)


• Após o temporal de cinco horas que parou a cidade, as consequências são as piores possíveis. As chuvas ainda não cessaram completamente e já passam de noventa mortos, dezenas de desaparecidos e centenas de desabrigados em todo a Grande Rio. Os locais mais afetados são as áreas mais carentes, onde se conta o maior número de mortos. Em alguns bairros, uma grande parcela dos moradores não pode voltar para suas casas. Além de casas alagadas pela invasão dos rios, dezenas de carros foram abandonados ou enguiçaram em vários pontos alagados, formando congestionamentos intermináveis e parando de vez a cidade.

A imprensa já anuncia que foi o maior temporal em volume de água desde a marcante enchente de 1966, o que representaria um fator natural em todo esse caos, e as trágicas mortes são apontadas, a todo o momento, como culpa das pessoas que insistem em morar próximo às perigosas encostas. Só em Santa Teresa, no morro dos Prazeres, dez corpos foram resgatados pelos bombeiros, e dez ainda estão desaparecidos.

Em Vila Isabel, no alto do Morro dos Macacos, teve cinco mortos para registrar em seu triste diário social. A comunidade é a mesma que, no ano passado, viveu cenas de terror da violência carioca com a queda de um helicóptero e a invasão de traficantes rivais e policiais.

A comunidade do morro do Borel sofre com pelo menos dois mortos. No Morro da Mangueira, moradores conseguiram sair antes de um deslizamento levar quatro casas. Em Niterói, já se somam 41 mortos, 34 no Rio, 16 em São Gonçalo e vários em outros municípios diversos. A maioria, como sempre, é formada por famílias pobres que moram em condições precárias.

Governos criminalizam a pobreza pelas mortes
Depois da política genocida de exterminação da pobreza aplicada pelo governo do Estado, os principais culpados pelas mortes, apontados pelos governos, não poderiam ser outros: os pobres. Há tempos que os trabalhadores sofrem com entrada indiscriminada da polícia em comunidades carentes. Com caveirões e armas de guerra, ocasionam um verdadeiro extermínio de pobres e várias chacinas. O governo municipal, aplicando a fundo a política de choque de ordem, visa impedir o trabalho informal de camelôs e ambulantes para enriquecer os donos de bares e restaurantes.

As declarações dadas aos noticiários no dia seguinte ao temporal, assombram pela frieza e irresponsabilidade dos governantes. Para eles, além da natureza, que castigou a cidade com o maior temporal de todos os tempos, são os moradores de morros e encostas os responsáveis por suas próprias mortes, já que insistem em permanecer nesses lugares.

Em primeiro lugar, a natureza nada tem a ver com a falta de investimentos em obras públicas e saneamento urbano. As enchentes ocorrem constantemente na cidade, e nenhuma medida é adotada para mudar essa realidade durante décadas. Depois, é uma hipocrisia pensar ou afirmar que os moradores que se encontram em locais de risco ou de alagamentos possuam alguma segunda opção de moradia, ainda mais acreditar que essa seria fornecida por esses governos.

Nenhuma mãe ou pai quer suas famílias correndo risco de morte. Os governos são os responsáveis por essas mortes ao permitir que a maioria da população urbana viva na miséria e em péssimas condições de moradia.

O presidente Lula também culpou a população carente e minimizou a responsabilidade dos governos, apontando que esses são responsáveis, na medida em que deixam as pessoas construírem casas nesses locais. Mais do que deixar ou não deixar as construções acontecerem, o problema de habitação mostra o grau de desenvolvimento socioeconômico em que se encontra a maioria da população e como, de fato, os governos deveriam intervir.

Se os trabalhadores ganhassem o suficiente para sua alimentação, saúde, lazer, educação, transporte e moradia, não arriscariam sua vida morando na beira de um deslize. Eles não possuem opção de moradia segura pelo grau de pobreza em que se encontram, como é conveniente a Lula, Sergio Cabral e Eduardo Paes, esses sim, os verdadeiros culpados pelas mortes. A única saída que esses governantes apontam é que os moradores têm de sair de suas casas. Porém não dizem para onde eles devem ir e não apresentam nenhuma medida concreta que resolva a situação.

Emprego, salário digno e construção de casas para a população carente
Para que haja um programa de habitação que garanta condições de vida digna para a população, é necessário que se invista em construção de moradias populares. Lula, durante a crise econômica, despejou dezenas de bilhões para salvar banqueiros e empresários e, agora, com a grave crise da miséria dos desabrigados, não anuncia nenhum pacote de ajuda financeira para construção de casas para essas pessoas e ainda manda cada um pedir a Deus.

Sérgio Cabral, que tanto estardalhaço fez por conta dos royalties do petróleo, dá mais uma demonstração de que esse dinheiro e o de todos os impostos não servem para resolver os problemas sociais. Tanto ele quanto o prefeito, que também governa um dos municípios que mais arrecada impostos, não anunciam nenhum programa de substituição de moradias inseguras por casas populares em locais seguros.

Além de doações de casas, é fundamental garantir que todas as pessoas tenham acesso ao emprego e salários decentes. Os governos que são eleitos pelo povo deveriam governar para ele, garantindo que os trabalhadores tivessem empregos e salários dignos para a manutenção de suas famílias e casas. Mas, ao invés disso, governam para os ricos empresários e banqueiros, garantindo seus lucros recordes e acentuando cada vez mais a miséria e as tragédias da população carente.

Veja o vídeo com a declaração de Cyro Garcia sobre a tragédia no RJ

Ato de lançamento da candidatura de Zé Maria presidente, reúne cerca de 300 lutadores no auditório da ACM

No Rio, Zé Maria lamentou que não haverá frente classista
Luciana Candido, da redação do Opinião Socialista

• O ato que apresentou as pré-candidaturas de Zé Maria à presidência e de Cyro Garcia ao governo do Estado do Rio de Janeiro reuniu cerca de 300 pessoas na noite desta quarta-feira, 14, na capital fluminense.

O evento aconteceu uma semana depois da calamidade que afetou os trabalhadores do Rio. Por culpa do descaso dos governos, as chuvas provocaram caos e tragédia na vida do povo pobre das favelas.

Todos falaram sobre a situação que vive o Rio há mais de uma semana. Eles manifestaram indignação com a postura dos governos.

Cyro Garcia dedicou parte da sua fala à denúncia dos verdadeiros responsáveis pelas mortes após as chuvas. “É com muita revolta e com muita indignação que a gente tem que se referir a este fato”, disse Cyro.

“Estas mortes não tinham que acontecer, porque, na verdade, a responsabilidade é única e exclusiva dos governantes e dos poderes públicos deste país”, afirmou, lembrando da verba ínfima que o governo federal destinou para a prevenção de acidentes naturais no Rio.

Cyro manifestou revolta com as manifestações dos governos que culpam a população pelas mortes de suas próprias famílias. Para ele, “Querer responsabilizar a classe trabalhadora pelo fato de morar em locais de risco é uma outra face da política de criminalização da pobreza”. Cyro disse, ainda, que o outro lado dessa política é uma “pena de morte informal” que já existe e “vitima comunidades carentes e a juventude negra todos os dias”.

Ele ressaltou que a miséria não é uma opção e que “quem mora em área de risco, não mora lá por escolha, porque acha bacana passar perigo”, mas porque não tem moradia.

Também estavam presentes Heitor Fernandes, carteiro e pré-candidato ao Senado; a professora Vera Nepomuceno, pré-candidata a deputada; Rafael Nunes, candidato a deputado pela Juventude do PSTU; e o petroleiro Claiton, também pré-candidato a deputado.

Mario Sérgio, representando o Coletivo Marxista Paulo Romão, saudou as candidaturas e manifestou apoio. “São fundamentais as candidaturas dos companheiros, com Zé Maria na liderança, para que haja um processo democrático e que, na realidade, vem se dando na defesa da luta dos trabalhadores em todo o país”, disse.

Uma candidatura dos trabalhadores e para os trabalhadores
Zé Maria começou sua fala contrapondo a ajuda milionária que o governo Lula deu aos banqueiros e empresários na crise ao apelo abstrato e cínico que fez a Deus para salvar as vítimas das enchentes. “Essa é a expressão da verdadeira prioridade do governo”, disse, lamentando que o mesmo “se apresente no mundo inteiro como defensor dos pobres”.

O pré-candidato concentrou sua fala no debate sobre a necessidade de os trabalhadores governarem. Defendeu que a esquerda socialista tem o dever de apresentar uma candidatura para dar combate tanto a Dilma, candidata de Lula, quanto à direita tradicional, representada por Serra. “Lula não vai fazer as mudanças, vai governar para os patrões, mas não queremos a volta da direita tradicional”, declarou, e disse que “o PSTU, ao apresentar suas pré-cadidaturas, pretende encarar este desafio”.

Zé Maria afirmou que as candidaturas do PSTU pretendem ser uma expressão das lutas d dia-a-dia e, ao mesmo tempo, um instrumento para fazer avançar a consciência e a organização dos trabalhadores brasileiros para que esses façam as transformações necessárias na sociedade. “A melhor forma que a esquerda tinha para fazer frente a este desafio, era a constituição de uma frente classista e socialista, que unisse PSTU, PSOL, PCB”, disse.

Ele lamentou que a frente, defendida pelo PSTU desde o ano passado, não tenha se constituído “em primeiro lugar, porque não conseguimos, com o PSOL, em particular, nos colocar em acordo com um programa”. ele responsabilizou o PSOL pela inviabilidade da frente: “O resultado é isso que está aí, um partido que não conseguiu sequer se unificar em torno a uma candidatura não tem condição de liderar uma frente se esquerda”.

Zé Maria afirmou que o PSTU também quer o voto, mas não vai trocar a defesa de suas ideias e dos trabalhadores “para eleger meia dúzia ou cinquenta candidatos”. ele também destacou a importância de que a campanha seja financiada pelos trabalhadores, pois “quem paga manda”. Esse foi outro ponto de desacordo com o PSOL, que já aprovou financiamento privado de campanha no Rio Grande do Sul e deixou em aberto esta possibilidade no resto do país.

A campanha do PSTU, disse ele, será modesta, mas não receberá dinheiro de empresários. Contará apenas com o apoio dos trabalhadores, material e militante, e, em troca, fará uma campanha voltada exclusivamente para os trabalhadores, para a lutas dos movimentos sociais e para a construção de uma sociedade socialista.

Para concluir, chamou a todos e todas a se envolver na campanha. Zé Maria saudou a presença de “cada companheiro e companheira, de todos que acreditam na necessidade de uma transformação socialista no nosso pais” nos seminários de programa e na campanha. “Nós precisamos da ajuda de todos e todas”, concluiu.


fotos Flávio Vasconcelos

                                              
                                                                                                              





Após a tragédia com as chuvas, segue o caos dos transportes


Cyro Garcia (Presidente Estadual do PSTU e pré-candidato a governador)
Castigada pelas chuvas a cidade do Rio de Janeiro ainda limpa suas feridas. A irresponsabilidade cúmplice dos governantes das três esferas causou centenas de mortes.
 
A população carioca chorou seus mortos e ansiava por ter um certo grau de tranqüilidade. Os meios de comunicação passaram a propalar a volta à normalidade. Uma simples consulta a um dicionário e lá está registrado o significado de normal: conforme a norma; regular, ou ainda exemplar, modelar. Dessa forma realmente a cidade voltou ao ‘normal’. O descarrilamento de um trem da Supervia é exemplar da ‘normalidade’ que retornou à cidade.
 
            Os dramas humanos, das mortes evitáveis nos desabamentos, afastaram momentaneamente a preocupação com outras tragédias diárias. A chuva passou a explicar qualquer coisa do caos urbano. 

Faz pouco tempo e o mundo assistiu estarrecido a população carioca sendo chicoteada por agentes da empresa concessionária dos serviços de trens urbanos, a Supervia. É um fato: os transportes de massas na região metropolitana do estado do Rio de Janeiro são um caos. O interior do estado não escapa a essa realidade. 

            Até o momento em que este texto foi escrito as informações oficiais dão conta de 25 feridos e afirmam não haverem mortos. Do governador do estado e do prefeito da cidade, nenhum pronunciamento. 

A quem serve o Estado?
            Não faz muito tempo, colérica e indignada com os atrasos constantes, a população da baixada fluminense queimou uma composição na estação de Saracuruna. A resposta das autoridades foi brutal. Atendendo aos apelos dos meios de comunicação – não por acaso chamados de imprensa burguesa – em questão de horas, usando as gravações das câmeras da Própria Supervia, identificou e prendeu alguns dos que não conseguiram conter sua indignação. 

            Quantos acionistas da Supervia estão presos pelo chicoteamento da população? A falta de investimentos em manutenção e melhorias causa os atrasos, os descarrilamentos e por aí vai. Até quando o governador e o prefeito vão esperar? Até que um acidente mais grave cause dezenas ou centenas de vítimas fatais? 

            É nesses momentos que de forma cristalina se expressa uma questão: que interesses representam os governantes da cidade, do estado, do país? Representam os interesses dos ricos e poderosos. Dos grandes capitalistas, dos exploradores do trabalho alheio. Os interesses dos que enriquecem ignorando a dor dos que são obrigados a morar pendurados nas encostas. Os interesses daqueles que enriquecem às custas de explorar a concessão de serviços que deveriam ser assumidos e realizados pelo estado. Serviços que nunca deveriam ter sido privatizados. 

Existe solução para o caos dos transportes? É possível ter meios de transportes para atender milhões de pessoas, com conforto, eficiência, segurança e rapidez? 

Se o objetivo for atender às necessidades da população, às necessidades das pessoas, a resposta é SIM! Se o objetivo for o lucro, engordar ainda mais a riqueza de uns poucos, a resposta é um sonoro NÃO. 

A população carioca, a população do estado do Rio de Janeiro não pode seguir sendo transportada como coisas. Ia escrever que não pode mais ser transportada como gado. Infelizmente há vacas premiadas transportadas com mais preocupação e conforto que boa parte de nossa população. 

Hoje foi o trem, amanhã pode ser o metrô, ônibus, barcas. Não há um modo de transporte onde a população não tenha demonstrado sua insatisfação de forma indignada. O problema é conjunto, e a resposta tem de ser global. 

Reestatização
A realidade já demonstrou. Em mãos privadas os serviços de transportes são ineficientes, desconfortáveis, atrasam, e, o mais grave, põem a vida da população em risco. 

É necessário ter a coragem e a ousadia política de reestatizar os serviços de transportes. O estado precisa ocupar seu papel. O transporte precisa ser estatal e controlado pelos trabalhadores do setor e pelos usuários. 

Nas mãos dos empresários as planilhas de custo são manipuladas, os trabalhadores do setor são super explorados e possuem jornadas estafantes – levando ainda mais risco à população. 

Nos ônibus a retirada dos cobradores diminuiu a quantidade de empregos, aumentou a exploração dos motoristas – obrigados a dirigir, cobrar e dar trocos – e acaba por fazer a viagem em alguns ônibus uma experiência arriscada. 

Os investimentos são mera propaganda para iludir incautos ou governantes desonestos. Constantemente o passe livre para estudantes, e também para idosos, é atacado. Nada disso é feito sem a omissão ou a cumplicidade dos governantes. 

Não podia ser diferente: eles defendem os interesses da classe deles. São legítimos representantes dos interesses dos ricos e poderosos, eles mesmos ricos e poderosos também. 

Um governo que defenda e represente os interesses da maioria da população, ou seja, um governo dos trabalhadores e do povo é o que necessitamos. A serviço disso o PSTU coloca seus esforços e sua militância. A serviço disso o PSTU coloca seus esforços e sua militância, e defende a estatização de todo o sistema de transporte público. Construindo uma verdadeira integração onde o trabalhador seja respeitado com serviços de qualidade. 

Até lá seguiremos lutando e denunciando a responsabilidade daqueles que choram lágrimas de crocodilo nas TVs, mas sequer tremem a voz para dizer que pretendem nos expulsar de nossas casas com remoções. Não ficam sequer vermelhos ao afirmar que a culpa pelas mortes são daqueles que ‘optaram’ por morar em áreas de risco. Só fica faltando, na hipótese de um desastre de grandes proporções, culparem as vítimas por não terem carro.

Com Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, o Rio afunda na lama da miséria e das tragédias

Com Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, o Rio afunda na lama da miséria e das tragédias
Rafael Nunes, do Rio de Janeiro (RJ) diregente da juventude do pstu
Após o temporal de cinco horas que parou a cidade, as consequências são as piores possíveis. As chuvas ainda não cessaram completamente e já passam de noventa mortos, dezenas de desaparecidos e centenas de desabrigados em todo a Grande Rio. Os locais mais afetados são as áreas mais carentes, onde se conta o maior número de mortos. Em alguns bairros, uma grande parcela dos moradores não pode voltar para suas casas. Além de casas alagadas pela invasão dos rios, dezenas de carros foram abandonados ou enguiçaram em vários pontos alagados, formando congestionamentos intermináveis e parando de vez a cidade.

A imprensa já anuncia que foi o maior temporal em volume de água desde a marcante enchente de 1966, o que representaria um fator natural em todo esse caos, e as trágicas mortes são apontadas, a todo o momento, como culpa das pessoas que insistem em morar próximo às perigosas encostas. Só em Santa Teresa, no morro dos Prazeres, dez corpos foram resgatados pelos bombeiros, e dez ainda estão desaparecidos.

Em Vila Isabel, no alto do Morro dos Macacos, teve cinco mortos para registrar em seu triste diário social. A comunidade é a mesma que, no ano passado, viveu cenas de terror da violência carioca com a queda de um helicóptero e a invasão de traficantes rivais e policiais.

A comunidade do morro do Borel sofre com pelo menos dois mortos. No Morro da Mangueira, moradores conseguiram sair antes de um deslizamento levar quatro casas. Em Niterói, já se somam 41 mortos, 34 no Rio, 16 em São Gonçalo e vários em outros municípios diversos. A maioria, como sempre, é formada por famílias pobres que moram em condições precárias.

Governos criminalizam a pobreza pelas mortes
Depois da política genocida de exterminação da pobreza aplicada pelo governo do Estado, os principais culpados pelas mortes, apontados pelos governos, não poderiam ser outros: os pobres. Há tempos que os trabalhadores sofrem com entrada indiscriminada da polícia em comunidades carentes. Com caveirões e armas de guerra, ocasionam um verdadeiro extermínio de pobres e várias chacinas. O governo municipal, aplicando a fundo a política de choque de ordem, visa impedir o trabalho informal de camelôs e ambulantes para enriquecer os donos de bares e restaurantes.

As declarações dadas aos noticiários no dia seguinte ao temporal, assombram pela frieza e irresponsabilidade dos governantes. Para eles, além da natureza, que castigou a cidade com o maior temporal de todos os tempos, são os moradores de morros e encostas os responsáveis por suas próprias mortes, já que insistem em permanecer nesses lugares.

Em primeiro lugar, a natureza nada tem a ver com a falta de investimentos em obras públicas e saneamento urbano. As enchentes ocorrem constantemente na cidade, e nenhuma medida é adotada para mudar essa realidade durante décadas. Depois, é uma hipocrisia pensar ou afirmar que os moradores que se encontram em locais de risco ou de alagamentos possuam alguma segunda opção de moradia, ainda mais acreditar que essa seria fornecida por esses governos.

Nenhuma mãe ou pai quer suas famílias correndo risco de morte. Os governos são os responsáveis por essas mortes ao permitir que a maioria da população urbana viva na miséria e em péssimas condições de moradia.

O presidente Lula também culpou a população carente e minimizou a responsabilidade dos governos, apontando que esses são responsáveis, na medida em que deixam as pessoas construírem casas nesses locais. Mais do que deixar ou não deixar as construções acontecerem, o problema de habitação mostra o grau de desenvolvimento socioeconômico em que se encontra a maioria da população e como, de fato, os governos deveriam intervir.

Se os trabalhadores ganhassem o suficiente para sua alimentação, saúde, lazer, educação, transporte e moradia, não arriscariam sua vida morando na beira de um deslize. Eles não possuem opção de moradia segura pelo grau de pobreza em que se encontram, como é conveniente a Lula, Sergio Cabral e Eduardo Paes, esses sim, os verdadeiros culpados pelas mortes. A única saída que esses governantes apontam é que os moradores têm de sair de suas casas. Porém não dizem para onde eles devem ir e não apresentam nenhuma medida concreta que resolva a situação.

Emprego, salário digno e construção de casas para a população carente
Para que haja um programa de habitação que garanta condições de vida digna para a população, é necessário que se invista em construção de moradias populares. Lula, durante a crise econômica, despejou dezenas de bilhões para salvar banqueiros e empresários e, agora, com a grave crise da miséria dos desabrigados, não anuncia nenhum pacote de ajuda financeira para construção de casas para essas pessoas e ainda manda cada um pedir a Deus.

Sérgio Cabral, que tanto estardalhaço fez por conta dos royalties do petróleo, dá mais uma demonstração de que esse dinheiro e o de todos os impostos não servem para resolver os problemas sociais. Tanto ele quanto o prefeito, que também governa um dos municípios que mais arrecada impostos, não anunciam nenhum programa de substituição de moradias inseguras por casas populares em locais seguros.

Além de doações de casas, é fundamental garantir que todas as pessoas tenham acesso ao emprego e salários decentes. Os governos que são eleitos pelo povo deveriam governar para ele, garantindo que os trabalhadores tivessem empregos e salários dignos para a manutenção de suas famílias e casas. Mas, ao invés disso, governam para os ricos empresários e banqueiros, garantindo seus lucros recordes e acentuando cada vez mais a miséria e as tragédias da população carente.

Governantes culpam natureza por mortes no Rio.


Como no terremoto do Haiti, governantes culpam natureza pelas mortes no Rio. 
Em poucas horas, chuvas provocam mais de 100 mortes na Região Metropolitana do Rio, principalmente nos morros e favelas. Número de mortos sobe a cada momento e cidade vive dia de caos, totalmente paralisada.

 Cyro Garcia, presidente do PSTU-RJ e pré-candidato a governador

"Não há sistema de drenagem que dê jeito na chuva que caiu no Rio desde ontem, mas precisamos de algumas reformas estruturais." Esta foi a afirmação do secretário municipal de Conservação do Rio de Janeiro, Carlos Roberto Osório. Já o prefeito Eduardo Paes apelou para que a população ficassse em casa, e nas TV’s alertou: “não adianta ligar para a defesa civil, não podemos fazer nada.

Do governador Sergio Cabral, até horas depois do início das chuvas, não se tinha notícia. Nenhum pronunciamento da máxima autoridade do estado.
Lula, no Rio para inaugurar uma obra, saiu-se com uma declaração evasiva, como se fosse apenas mais um brasileiro lamentando a tragédia.

Essas foram as primeiras reações das máximas autoridades: prefeito, governador e presidente da República, os verdadeiros responsáveis pela situação.
No final da manhã, finalmente Sergio Cabral apareceu. Para variar, mais um a pedir calma e tranqüilidade à população.

Seria cômico se não fosse trágico. Ano eleitoral, casas alagadas, casas caindo, gente ilhada nos ônibus, dezenas de mortes e o governador aproveitou para fazer propaganda de obras do PAC e bajular o presidente da República. Nenhuma medida concreta para diminuir o sofrimento das pessoas ou evitar novas tragédias.

Começou por Cabral jogar a culpa nas vítimas. Afirmando que as pessoas morrem vítimas de deslizamento por morarem em áreas de risco. “É uma irresponsabilidade morarem aí. Essas pessoas estão cometendo quase que um suicídio. É um comportamento irresponsável dessas pessoas.” Como se ele não tivesse responsabilidade sobre o que está ocorrendo.

Culpa da natureza?
As imagens são terríveis. Mortos, casas destruídas, ruas que viraram rios. Pessoas nas ruas presas em ônibus, isoladas embaixo de marquises. Muitos ilhados desde a noite anterior. Milhares caminhando sobre linhas férreas.

Os meios de comunicação tentam, a todo custo, vender a imagem que a natureza é a única responsável. Insistem na velha conversa de que seria a maior chuva da história, e lembram as chuvas em 1966. Ora, foi o mesmo argumento usado no temporal anterior. O mesmo velho argumento das chuvas anteriores, dos governos anteriores.
Não é difícil imaginar Garotinho – ex-governador – ou Cesar Maia – ex-prefeito – utilizando estes mesmos argumentos ou variações sobre o mesmo tema. O concreto é que também nada fizeram para começar a solucionar estes problemas.

Ainda que tenha chovido mais do que choveria em todo o mês, a natureza não pode ser a única explicação para o tamanho do caos. Por que ocorreram dezenas de mortes, que rapidamente podem atingir uma centena? Por que estes mortos estão em sua absoluta maioria nos lugares mais pobres da cidade? Por que a maioria é negra?

Culpar a natureza é fazer o mesmo dos que apresentam o terremoto do Haiti e seus 100 mil mortos como um grande desastre natural, sem considerar que a causa de tantas mortes está na miséria em que o país está submetido há mais de um século.

No Rio, todos são responsáveis. Até mesmo porque Eduardo Paes estava ontem com Cesar Maia, Sergio Cabral com Garotinho e, hoje, todos estão com Lula.

Falta ainda uma parte da velha cantilena: dizerem que a culpa é das vítimas. Faltam começarem as “reportagens”, as declarações governamentais afirmando que o lixo da população é responsável pelos alagamentos. Falta dizerem que as pessoas não deveriam ocupar áreas de risco, deveriam morar em outro lugar, como uma senha para aprofundar a limpeza étnica que já estamos assistindo na cidade.

Onde estão os milhões de reais do petróleo e dos impostos?
Seguindo os passos de FHC, o governo Lula decidiu entregar o petróleo brasileiro nas mãos das multinacionais. Tenta enganar a população – com o apoio do governador e prefeitos do Rio – que o principal é a forma como os royalties serão distribuídos. Ora, para quê royalties quando 100% das receitas obtidas com o petróleo deveriam ser do povo brasileiro, dos trabalhadores? Por que ficarmos com uma ínfima parte de bilhões quando os trilhões deveriam ficar no país?

O dinheiro da despoluição da Baia de Guanabara não garantiu a limpeza do entorno, ou a retomada das parcelas aterradas. Aliás, não se tem sequer prestação de contas desse dinheiro ou das obras. O concreto é o assoreamento de parcelas da baía, o represamento dos rios, o esgoto de indústrias e dos gigantescos prédios e condomínios para dentro das águas da baía, ajudando no alagamento e na tragédia nas cidades. Sobre isso nenhuma palavra das autoridades ou dos meios de comunicação.

Um plano de obras públicas de combate ao desemprego começando por obras estruturais de saneamento
Os governos de Lula e Cabral insistem em prometer o paraíso, um mundo de contos de fadas a partir da conquista da copa do mundo, das olimpíadas e do petróleo. No entanto, como um canto da sereia, a realidade é a que estamos vendo: milhares de trabalhadores, com suas casas e seus sonhos, submersos nas águas das chuvas. Encharcados de promessas.

É possível termos chuvas pesadas sem pagarmos o preço em vidas humanas? É possível chover torrencialmente sem que milhares de pessoas fiquem ilhadas nas ruas?
Sim, isso é possível. Um plano de obras públicas que, ao mesmo tempo que enfrente o desemprego, comece a combater os problemas estruturais de esgoto e saneamento é possível e viável. Para isso é necessário perguntar: de onde sai o dinheiro?

Com a crise econômica, o governo Lula liberou 370 bilhões para as grandes empresas, uma montanha de dinheiro, ainda mais se compararmos com os 11 bilhões destinados ao bolsa família. As dívidas externa e interna sangram o país enchendo os bolsos dos banqueiros e especuladores daqui e de fora.

A inversão dessa lógica cruel – governar para os banqueiros, governar para os ricos e poderosos – geraria em poucas semanas um volume de dinheiro suficiente para atacar em várias frentes: esgoto e saneamento; contenção de encostas; construção de escolas e hospitais; construção de casas populares em locais seguros e próximos aos locais de trabalho; estradas; mais trens e metrôs de qualidade.

É uma questão de opção política, de escolha: governar para os ricos e poderosos, ou governar para os debaixo, governar para e com os trabalhadores e o povo pobre. Lula, Cabral e Eduardo Paes fizeram sua opção. As conseqüências das chuvas para os trabalhadores e o povo pobre apenas confirmam isso.

Um governo com um programa socialista, dos trabalhadores e do povo pobre, é capaz de tomar essas decisões. Reunirá condições para impulsionar essas e outras medidas. Porém a luta e a mobilização é que criam condições para impulsionar e viabilizar um governo desse tipo.

Enquanto tivermos governos dirigidos para os ricos e poderosos seguiremos ouvindo que a culpa é da natureza, ou pior: a culpa é das vítimas.