por Natália Conti, Rio de Janeiro.
Como já é tradição, a
esquerda se reúne todos os anos para organizar o ato do 8 de março na cidade,
espaço e data que reafirmam a luta contra o machismo e pautam questões que
atingem as mulheres, no sentido de abrir um diálogo com a população a respeito dos
temas.
Várias reuniões foram
feitas até que fosse definido o eixo político e a data do ato. Costumeiramente,
a polêmica é grande, também devido às diferentes concepções de feminismo
expressas na frente organizadora. Houve, no entanto, depois de exaustiva discussão
política, consenso em torno do eixo “Nenhum direito a menos: pela legalização
do aborto e contra a violência do Estado” na terça-feira, 24.
A reunião da quinta-feira
do dia 26 seria organizativa, para definir trajeto, estrutura e detalhes do
ato. No entanto, com um discurso de que a unidade não existia de fato entre os
setores e que o consenso não era real, uma companheira da Marcha Mundial de
Mulheres rompe com o ato em unidade, tendo puxado uma fila na qual seguiram as
correntes Consulta Popular, Levante Popular da Juventude, CAMTRA, LBL e
Insurgência (PSOL). Protagonizaram aquilo que foi um golpe às vésperas do 8 de
março, fato que fragiliza a visibilidade da luta das mulheres na cidade neste
momento. Ainda que o nosso esforço tenha sido construir a unidade na diferença,
tendo em vista o recrudescimento da ofensiva machista, o movimento de ruptura
se deu também em outros estados por parte da Marcha Mundial de Mulheres.
O que está por
trás do discurso de unidade e consenso?
Adentramos o ano com uma
crise política que deixa o governo Dilma e o PT pisando em ovos, juntamente com
um pacote de ataques à classe trabalhadora, em especial políticas que atacam os
direitos das mulheres. Vivemos também a crise energética, crise da água e
carestia de vida, não é por acaso que presenciamos este fato na frente de
organização do 8 de março. As coisas não estão boas para o lado da Dilma, e
qualquer coisa que soe como críticas ao governo não será tolerada pelos
governistas nos espaços do movimento.
Sistematicamente temos nos
enfrentado com este discurso de que o governo Dilma não deve ser o principal
foco de combate no movimento feminista, e que questões que passam longe da
crise econômica e da crise política devem ser adotadas como eixo. Outro
discurso perigoso é o de que o 8 de março deve pautar apenas questões que digam
estritamente sobre a vida das mulheres, que em nenhuma medida sejam “gerais”,
como se isso fosse possível. A imposição desses temas se combina com a
necessidade de que o consenso seja o método político adotado pelos espaços de
discussão, e toda divergência apresentada é taxada de tentativa de inviabilizar
as atividades e de dissidência não-construtiva.
Queremos dizer às
companheiras que, para nós, não só não é suficiente uma mulher no governo para
que o combate ao machismo avance, como também não seremos intimidadas no
momento de questionar para onde vai o governo brasileiro. É muito sério que os
direitos estejam sendo cada vez mais arrochados, a inflação corroendo os salários
e diminuindo o poder de compra da população, as MP’s 664 e 665 assaltando
direitos de Seguridade, um escândalo de corrupção misturado à crise da água e
da energia em vários estados, uma bomba atômica na vida da classe trabalhadora
brasileira.
Imputar às feministas
antigovernistas a pecha de sectárias e inconsequentes é dar ao debate da
unidade um caráter mecânico, burocrático e autoritário, onde as diferenças não
podem ser expressas. Dizemos que a responsabilidade pela ruptura do ato é das
governistas, que não compreendem a necessidade de fortalecer a luta feminista
em um momento de ataques e de ofensivas conservadoras (como a CPI do aborto no
Rio de Janeiro), e em despeito disso preferem seguir fortalecendo as colunas do
governo. Lamentamos também a (im) postura da Insurgência (PSOL) frente a este
golpe, e convidamos as companheiras a refletir a respeito da importância em
construir esta unidade.
Por um 8 de
março feminista, classista e contra os ataques do governo
Apesar desses
acontecimentos, o PSTU, desde a CSP-Conlutas e o Movimento Mulheres em Luta
(MML) vai construir atividades que contestem a política de austeridade imposta
pelo governo, pautando a necessidade de que as mulheres trabalhadoras se
organizem para atuar e assumir a linha de frente nas lutas do cenário que
surge.
Diferente de um discurso
que prega um “exclusivismo” das pautas “estritamente” para mulheres, defendemos
que estas devem construir seus bastiões de luta feminista em conjunto com a
classe trabalhadora, ganhando os homens para o combate ao machismo, os educando
e também protagonizando as lutas desta classe. Não é possível superar as
contradições vividas pelas mulheres sem que as contradições de classe também
sejam enfrentadas. Por essa razão, construiremos no 8 de março uma intervenção
feminista, classista, contra o conservadorismo da oposição de direita e contra
os ataques do governo.
- Organizar as mulheres para lutar, pela legalização do aborto já!
- Chega de violência! 1% do PIB para o combate à violência contra a mulher!
- Nenhum direito a menos! Todas na luta contra a carestia de vida e os ataques aos direitos da classe trabalhadora, que muito afetam a vida das mulheres!







