Por Bruna Barlach, do Rio
Na onda dos “Rolezinhos” que começaram em São Paulo,
e muito por conta da repressão a eles, vimos pipocar em todo o país eventos no
facebook chamando rolezinhos em shoppings de diferentes cidades pelo país,
incluindo o Rio de Janeiro. Certamente o marcado para o Shopping Leblon foi,
desde o início, o mais polêmico.
Símbolo máximo da
burguesia carioca (e brasileira) e da segregação socioeconômica, o Leblon é o
um dos bairros onde há mais riqueza concentrada por cabeça no mundo. Seja por
olhares atravessados, seja pelos preços proibitivos, Leblon não é lugar pra
pobre. E não é e ponto final.
Tanto não é lugar pra
pobre que os donos do shopping solicitaram na Justiça para que o evento fosse
proibido, argumentando que tal evento era incompatível com o shopping. Uma
juíza acatou o pedido e proibiu o rolezinho. Felizmente advogados ligados às
causas populares conseguiram a liberação do ato. Diante disse, foi declarado
que o shopping simplesmente não abriria as suas portas.
A mídia grande logo
noticiou que o shopping não abriria as suas portas, o que colaborou em grande
parte para o esvaziamento do rolezinho, que acabou por ter ares de uma pequena
manifestação. Aos poucos foram chegando ativistas de diferentes movimentos,
moradores de diferentes locais, perto, longe, das favelas, cada qual trazia sua
vontade de se manifestar contra a repressão e os casos de racismo explícito que
o rolezinho tem desencadeado nos shoppings.
Muitos vieram só para
olhar. Era notável no olhar e na fala de muitos moradores da região que aquelas
pessoas lhe eram estranhas, estranhas demais, quase exóticas. Outros estavam
assustados, muito mais pela grande quantidade de policiais que cercava a região
e impedia a entrada não só no shopping (que também estava “protegido” por
dezenas de seguranças uniformizados e à paisana) do que pelo próprio rolezinho.
Ao som de funk e
diferentes músicas de protesto foram cantadas palavras de ordem contra a
repressão, contra o racismo e também contra a copa, que é pauta em todas as
manifestações deste ano. Com algumas horas de rolezinho na porta do shopping,
os manifestantes acabaram sendo surpreendidos pela tropa de choque, que veio
demonstrar mais uma vez que vivemos num estado onde a democracia não é para
todos e que mesmo uma manifestação pelo direito de todos estarem dentro de um
shopping, símbolo máximo do consumismo, é repreendida pela força policial de
forma violenta.
As
mentiras que a mídia conta
Dezenas de câmeras,
inúmeros repórteres das grandes emissoras de TV nacionais e até diversos
correspondentes internacionais. A mídia grande chegou com tudo no rolezinho no
Leblon para recolher material para contar suas grandes mentiras.
As entrevistas tinham por
objetivo muito mais desmascarar os manifestantes do que discutir de fato o
porque é tão importante que esse rolezinho esteja acontecendo. Em telefones
celulares, falavam baixo sobre como o shopping perdia dinheiro enquanto alguns
jovens atrapalhavam um dia normal na vida das pessoas. Aguardem essas e outras
mentiras nos grandes jornais e portais da internet.
O
rolezinho é resistência e luta
A origem controversa do
rolezinho pode ter criado dúvidas sobre a importância política destes eventos.
O capitalismo vende uma imagem de democracia e igualdade de oportunidades, mas
quando os jovens da periferia, pobres, pretos, tentaram usufruir do seu direito
democrático de consumir e vimos claramente o que aconteceu.
No capitalismo nem o
consumo é democrático. Ele tem recorte de cor e recorte de classe. A repressão,
os shoppings fechados, pessoas negras sendo revistadas e tendo seu direito de
ir e vir negado revelam a segregação social, que acontece em todas as partes e
está agora estampada nos muros dos shoppings.
Toda
lutadora e todo lutador deve não só denunciar essa injustiça, mas estar lado a
lado, juntos e misturados; construindo a resistência contra toda forma de
repressão e segregação racial e social. Ocupar a cidade deveria ser um direito
de todos e até que seja, permaneceremos dando nossos rolezinhos., nos shoppings
e nas ruas.