Acordo na GM evita fechamento de fábrica, mas a luta contra os ataques continua



 Zé Maria - presidente nacional do PSTU e ex-candidato a presidência da república

Metalúrgicos da GM fecham a Dutra
No último dia 26 houve finalmente o desfecho de mais um capítulo da luta contra a ameaça de demissões em massa da GM. A última reunião de negociação entre o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e a General Motors, a 12ª reunião desde que a empresa anunciou a decisão de demitir, durou quase 10 horas. Além dos representantes do sindicato e da montadora, a reunião também contou com a presença de representante do Governo Federal e da prefeitura da cidade. 

Ao final, o acordo arrancado da GM estabelece a continuidade do MVA (Montagem de Veículos Automotores), uma das fábricas da planta de São José e que a montadora ameaçava desativar, demitindo todos os seus 1800 operários a partir do dia 28 de janeiro. O acordo estende o lay-off (suspensão do contrato de trabalho em que estão 750 trabalhadores) por mais dois meses, com o pagamento integral dos salários. Ao final desse período, se a empresa demitir esses funcionários, terá que pagar indenização de 3 salários, além dos direitos trabalhistas. Destes 750 trabalhadores, cerca de 150 são lesionados ou estão prestes a se aposentar, por isso voltarão necessariamente para dentro da fábrica, pois contam com estabilidade.

Com isso, a fábrica retoma a produção do modelo Classic, que havia sido suspenso, e o funcionamento do MVA até pelo menos dezembro de 2013. O acordo prevê ainda investimentos de R$ 500 milhões na planta de São José até 2017. Em contrapartida o acordo prevê, entre outras medidas, a extensão da grade salarial que já era vigente para o setor de manuseio (apoio), para alguns setores da produção (motores e transmissão). Esta grade tem um piso menor que o pago aos que trabalham diretamente na montagem de veículos e só poderá ser aplicada aos trabalhadores que forem contratados a partir de agora. Serão estabelecidas formas de evitar que os antigos funcionários sejam substituídos por novos.

Também há mudanças no controle da jornada de trabalho. O acordo autoriza, em momentos de alta na produção, a empresa a convocar os trabalhadores para trabalhar até duas horas a mais por dia, mediante pagamento de horas extras. Nos momentos de baixa da produção, a empresa poderá dar folga de, no máximo, um dia por semana para os empregados, totalizando um máximo de 12 dias no ano. Estas folgas serão compensadas posteriormente pelos empregados.

Foi o acordo possível, nas condições de relações de forças existentes. Não é o acordo que queríamos fazer. A extensão do lay off por mais dois meses garante que não haja demissões agora, mas não impede que a montadora demita estes companheiros dentro de 60 dias (com exceção dos lesionados e dos trabalhadores que estão perto de se aposentar), pagando uma multa de 3 salários para cada um. Foi o máximo a que conseguimos chegar, graças à mobilização dos trabalhadores, à resistência do sindicato e ao apoio que recebemos de várias entidades no Brasil e em outros países. Ou seja, conseguimos impedir o fechamento da fábrica, mas a luta contra as demissões dos trabalhadores que estão agora em lay-off ainda não terminou.

Ofensiva da GM
A atual ofensiva da General Motors começou em abril de 2012, quando a montadora divulgou seu plano de fechar o MVA, transferir a produção do Classic para outras plantas e demitir 1890 trabalhadores. O sindicato dos metalúrgicos e a CSP-Conlutas empreenderam então uma campanha em defesa dos empregos e exigindo a intervenção do Governo Federal, uma vez que a multinacional norte-americana recebe isenção fiscal do governo. Após uma dura batalha com a empresa, conseguiu-se suspender temporariamente as demissões, substituindo-as por lay-off com duração de 3 meses, que foi posteriormente prorrogado por mais dois meses até janeiro deste ano.


Nesse período, 300 trabalhadores aderiram ao PDV (Programa de Demissão Voluntária) aberto pela GM. No final do lay-off, no entanto, a montadora não só não recuava de seu plano de fechar a fábrica e demitir 1600 operários, como colocava no horizonte, a médio prazo, o fechamento da própria planta na cidade. 

Em São José dos Campos, assim como ocorreu em 2008 quando a empresa tentou impor o Banco de Horas, o sindicato foi bombardeado por todos os lados. Uma campanha que uniu amplos setores da grande imprensa e o empresariado tentava responsabilizar o próprio sindicato pela ameaça de demissões. Reverberando o discurso da empresa, repetia-se à exaustão a falácia de que os "altos salários" recebidos pelos trabalhadores da GM estariam elevando os custos da empresa e inviabilizando sua permanência na cidade.

Com isso, a GM não planejava apenas atacar os trabalhadores, seguindo sua estratégia de redução de custos e reestruturação que impõe em todo o mundo. A multinacional tinha também como alvo a entidade que é referência nacional de luta e de sindicalismo combativo. 



Mobilização impediu fechamento da fábrica
O sindicato e os metalúrgicos, por sua vez, não baixaram a cabeça para as ameaças da montadora e realizaram diversas mobilizações. Lutas que incluem atrasos na entrada, passeatas pela cidade e caravanas a Brasília, duas paralisações de 24 horas, e um longo etc. No último dia 22, os metalúrgicos fecharam a Via Dutra por duas horas, fazendo com que a ameaça de demissões fosse notícia em todo o país. No dia 23, houve um dia de ação global contra os ataques da GM, impulsionado pelo sindicato e com mobilizações na Alemanha, Espanha, Argentina e Colômbia.

Tudo isso foi muito importante, pois foi essa pressão dos trabalhadores que impediu que a GM fechasse a fábrica e demitisse 1800 trabalhadores. A campanha em defesa dos empregos também conseguiu tirar do horizonte a perspectiva de fechamento da planta. Mas isso não foi suficiente. O isolamento imposto à luta dos metalúrgicos da GM incidiu na própria consciência dos trabalhadores, levando a que não houvesse disposição de comprar um enfrentamento mais radicalizado com a empresa e que impusesse o retorno imediato de todos. Só uma greve por tempo indeterminado poderia criar condições para chegarmos a este patamar, o que geraria também condições para uma pressão mais efetiva sobre o governo. Mas não havia disposição dos trabalhadores para tanto.

O Governo Federal se limitou a mediar as negociações e se omitiu diante da ameaça de demissão em massa, mesmo a montadora se beneficiando da isenção do IPI. Nem mesmo uma declaração contra as demissões, como Dilma fez em 2012, ocorreu desta vez. Já a CUT, Força Sindical e a CTB agiram para isolar ainda mais os trabalhadores de São José e fizeram coro com a fábrica ao condenar o "radicalismo" do sindicato. Isso porque essas centrais praticam em suas bases todos os mecanismos de flexibilização exigidos pela GM e demais montadoras, como as grades salariais rebaixadas, banco de horas, etc.

Longe de ser um bom acordo, foi o possível diante dessa dura situação e não teria sido possível caso não houvesse mobilização. Além disso, garante mais tempo para seguir na luta contra as demissões e em defesa dos direitos dos metalúrgicos da GM. Os trabalhadores perceberam que foram até o limite de suas forças e o acordo teve a aprovação de mais de 95% das assembleias. Perceberam ainda que, para romper o isolamento imposto a anos de luta dos metalúrgicos de São José, é necessário reforçar a luta por um contrato coletivo nacional que impeça as empresas de fazer chantagens sobre os empregos e os direitos dos trabalhadores.

Leia abaixo os principais pontos do acordo: 
(Fonte: Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região) 


·  Investimento de R$ 500 milhões direcionados às áreas do Powertrain (motores e transmissão), Estamparia e S10, no período de 2013 e 2017. 

·  Produção do Classic até dezembro, com 750 trabalhadores. Após esse período, haverá nova negociação.

·  Férias coletivas entre os dias 29 de janeiro a 14 de fevereiro para os trabalhadores da produção do Classic. 

·  Quem está em layoff terá extensão do processo por dois meses. Ao final, se a empresa demitir, terá que pagar uma multa de três salários. O trabalhador poderá optar por sair imediatamente e receberá cinco salários, além dos direitos trabalhistas.

·  Renovação das cláusulas sociais na data-base da categoria para 2013 a 2015. As cláusulas econômicas serão negociadas em setembro. Nesse período não haverá abono.

·  PLR igual a de 2012 mais R$ 3.200, totalizando cerca de R$ 16 mil. Em maio, haverá negociação das metas. A primeira parcela será de R$ 6,6 mil.

·  Discussão entre GM e Sindicato sobre formas de antecipação da aposentadoria para quem estiver prestes a se aposentar.

·  A GM se compromete a negociar, em primeiro lugar, com o Sindicato, caso haja projeto de investimento em um novo veículo no Brasil.

·  Nova grade salarial para funcionários admitidos a partir da assinatura do acordo, apenas na fábrica de componentes (Powertrain, Estamparia e Plástico), com piso de R$ 1.800.

·  Jornada de trabalho que possibilita duas horas extras por dia e trabalho extraordinário aos sábados, alternadamente. Poderá haver folga em até 12 dias por ano, que serão compensados posteriormente. 

·  Reaproveitamento de lesionados em atividades compatíveis, devendo ser definidas em conjunto com o sindicato.

·  Garantia do nivel de emprego até dezembro de 2013 no MVA e dezembro de 2014 para o restante da planta de São José dos Campos.

·  Ajuste na cláusula de nível de emprego da área de manuseio de materiais, de 1203 para 900 empregados.

·  Garantia de renovação/extensão dos acordos de jornadas diferenciadas de trabalho (6 x 1; turno de revezamento e jornada de domingo mediante pagamento de hora extra e com folga na semana) pelo período de dois anos. 

·  Inclusão em cláusula de acordo coletivo, reconhecendo que o período de minutos que antecedem e sucedem a jornada contratual, limitados a 40 minutos diários, não serão considerados como tempo a disposição da empresa. Na hipótese de ocorrer desligamento da fábrica, o Sindicato ajuizará ação referente ao período anterior a esta negociação.

·  O acordo terá duração de dois anos


leia mais:

A crise econômica mundial e a GM

O preço do peleguismo - Zé Maria responde a editorial do Jornal O Estado de São Paulo


 

Nota de solidariedade do PSTU aos familiares e amigos das vítimas do incêndio da boate de Santa Maria (RS)



Exigimos do governo a apuração e punição dos responsáveis pela tragédia
É com pesar que, nesta manhã de domingo, 27 de janeiro de 2013, a população gaúcha e brasileira recebe a notícia da morte de, pelo menos, 245 pessoas, a maioria estudantes universitários, e mais de 48 feridos em um incêndio numa boate de Santa Maria (RS).

Primeiramente, gostaríamos de prestar nossa total solidariedade aos familiares e amigos das vítimas. O fato, que já é a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul, deixa marcas na vida de uma cidade que tem como seu centro a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e reconhecida “cidade universitária”.

Frente à tamanha comoção nacional e até mesmo internacional, não restam dúvidas de que esta tragédia de tamanha magnitude poderia ter sido evitada. A responsabilidade por esta tragédia recai de imediato sobre os ombros do dono da boate “KISS” e daqueles que seriam os responsáveis por fiscalizar os estabelecimentos da cidade: o prefeito Cezar Schirmer (PMDB) e o Estado do Rio Grande do Sul. No local do evento não havia respeito às normas mínimas necessárias de segurança para que pudessem receber tamanha quantidade de pessoas.

As cenas, que repetidamente são transmitidas pelas emissoras de televisão nesta manhã de domingo, configuram um verdadeiro caos, e um desespero daqueles que esperaram por mais de horas por socorro e não o tiveram.

Aqueles que poderiam evitar um desastre de tais proporções não tem agora o direito de somente pronunciar-se e lamentar pelo ocorrido. Neste momento, além de total solidariedade à família e aos amigos das vítimas, exigimos que o Governo Federal e estadual apurem os fatos e punam os responsáveis pela tragédia.

O direito à diversão e a cultura deve ser garantido de forma segura e também pública, não podemos admitir que a morte de jovens e trabalhadores nesta madrugada do dia 27 de janeiro seja apenas mais um fato. Que a ganância daqueles que tem como único objetivo garantir maior lucro não seja feita sobre a vida de inocentes que só desejam divertir-se em uma final de semana, e nem mesmo sobre a dor de pais e mães.

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado – Rio Grande do Sul

VÍDEO: Ato de 1 ano do massacre ao Pinheirinho

Editora Sundermann faz 10 anos - Em uma década editora lança 65 títulos, entre clássicos do marxismo e obras inéditas



Jorge Breogan e  Martha Piloto, do Conselho Editorial da Editora Sundermann





Em 2013, a Editora Sundermann comemora dez anos. Mas as comemorações vão para além dos anos constituídos enquanto editora. Comemoramos, sobretudo, o projeto político-editorial solidificado até este momento. O PSTU impulsionou a criação de sua editora para, dessa forma, continuar e aprofundar uma política de formação e comunicação, com iniciativas como a revista Marxismo Vivo, o Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), o Arquivo Leon Trotsky e o próprio jornal Opinião Socialista.

A demanda foi maior que a esperada e, assim, o trabalho seguiu fortalecido nesses dez anos. Já publicamos mais de 65 títulos, somos a única editora a publicar as obras de Nahuel Moreno e a que mais publicou Trotsky no Brasil. 

Publicamos obras importantes, entre as quais destacamos: “História da Revolução Russa”, “Revolução Traída”, “Programa de Transição” e “A teoria da Revolução Permanente”, de Trotsky. Uma verdadeira proeza no mercado editorial da esquerda no país. Em relação a Moreno: “O partido e a revolução”, “Os governos de frente popular na história” e “A ditadura revolucionária do proletariado”, além dos clássicos como o “Manifesto Comunista”, de Marx, e de Lenin, “O Estado e a Revolução - A revolução proletária e o renegado Kautsky” e “Últimos escritos e diário das secretárias”.

Desde o início de nosso trabalho, também tivemos a preocupação de pautar o tema de opressões. O livro “O gênero nos une, a classe nos divide”, de Cecilia Toledo, já teve quatro edições. O livro de Hiro Okita, “Homossexualidade, da opressão à libertação” é um documento de 1981 que já combatia a homofobia e sua intrínseca relação com o sistema capitalista ainda no período ditatorial.

Não nos calamos frente aos ataques das privatizações. Temos em nossa linha editorial textos sobre a Vale do Rio Doce, a Embraer e a Petrobrás. Refletimos sobre a situação precária da educação pública nos ensinos básico e superior. 

Publicamos sobre o papel dos sindicatos e sobre o combate à burocratização. Aprofundamos o debate econômico no período de crise financeira. Lançamos obras que debatem a causa Palestina, como o clássico “História oculta do sionismo”, de Ralph Schoenman, entre outros títulos que pautam o socialismo e a revolução proletária. Mas, acreditamos que esse histórico é só o começo.

O papel estratégico da Editora no Partido Revolucionário
A prática política é indissolúvel da teoria revolucionária. O partido revolucionário não é um grupo de intelectuais que se debruça abstratamente sobre a teoria marxista, mas também não é um mero agrupamento de pessoas que lutam bravamente pelas conquistas econômicas e imediatas da classe trabalhadora e da população explorada. É sobretudo um instrumento de luta pelo poder.


Não se pode vencer o inimigo sem conhecê-lo, ou seja, não se pode lutar contra a burguesia sem conhecer a fundo como ela exerce seu poder econômico e político, tarefa para a qual o marxismo se mostrou, até hoje, o instrumento mais capaz.

A burguesia se organiza mundialmente em torno de governos imperialistas, blocos econômicos e agências internacionais, além de sobreviver graças às forças armadas de cada um dos países que controla e de governos subservientes dos países periféricos do capitalismo. A toda essa força, devemos opor uma organização internacional, forte e que reúna em suas fileiras o melhor da vanguarda proletária mundial.

Um exército de revolucionários munidos das ferramentas necessárias e que vá para ação disposto a disputar os corações e mentes das massas trabalhadoras. Uma dessas ferramentas é, sem dúvida, a teoria, que nos permite entender a realidade em que atuamos, suas contradições e a correlação de força entre as classes, para as quais devemos dar respostas científicas, caso queiramos acertar nossas políticas.

Entendemos que o papel da Editora não se resume a publicar e vender livros. Nossa linha editorial é uma arma ideológica para disputarmos a consciência das massas, elevarmos nossos níveis teórico e político e, assim, fortalecer o partido.

No dia a dia, é preciso, cada vez mais, nos dedicarmos às leituras teóricas, pois escutar com atenção debates, falas políticas e discussões acaloradas sem entender as polêmicas a fundo faz com que as dúvidas passem despercebidas e os questionamentos teóricos fiquem para outra hora.

Diariamente, somos bombardeados com a ideologia burguesa e reformista, ataques políticos são feitos e, às vezes, os entendemos de maneira superficial. Ao não nos dedicarmos à leitura teórica e ao estudo diário, colocamos em risco o próprio marxismo, que sofre com o revisionismo e distorções teóricas para justificar grandes traições à classe trabalhadora. 

Ao nos fortalecermos teoricamente, nos fortalecemos enquanto militantes, melhoramos nossa agitação, propaganda e avançamos na solidificação do nosso programa revolucionário. Nossos objetivos vão além de melhorias nas universidades e na relação trabalhador/patrão. Almejamos uma transformação econômica e social. Para construir o partido, não podemos ter uma relação artesanal com a teoria ou nos perdemos frente as nossas táticas e estratégias.

Outros livros virão...
Queremos avançar na publicação dos clássicos e explorar mais, editorialmente, a literatura como uma ferramenta contra-hegemônica. 

Em dezembro de 2012, lançamos um novo selo editorial, Outra Margem, juntamente com o primeiro título: Ventania do Infinito. O selo nos possibilitará uma aproximação com diferentes públicos que veem o sistema capitalista da mesma forma nefasta, mas que traduzem essa realidade poeticamente, de forma romanceada e literária.

Em comemoração ao aniversário da Editora Sundermann, estão previstos os seguintes lançamentos: “A biografia de Marx”, de Franz Mehring; “Coletânea de textos de 1917”, de Lenin; “A história do trotskismo norte-americano”, James Cannon e “O partido bolchevique”, de Broué.

O nome da editora
Sundermann é o sobrenome de José Luís e Rosa, militantes do PSTU, assassinados uma semana depois da fundação do partido, em 1994. Ao dar seus nomes à nossa Editora, queremos preservar não só a memória destes companheiros, mas também de todos os que tombaram na luta pelo socialismo. 






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    Internação Compulsória: Política de Saúde Pública ou Higienização Social?



    Temos acompanhado cotidianamente notícias sobre o aumento do consumo de crack no Brasil. São cenas marcantes de adultos e crianças consumindo crack e sendo consumidos por ele. Estima-se que hoje mais de um milhão de pessoas sejam dependentes desta droga, com as consequências sociais, físicas, psicológicas e familiares já conhecidas.

    Sob o pretexto de conter o aumento do consumo no município do Rio de Janeiro, a prefeitura Eduardo Paes optou pela adoção da internação compulsória de dependentes de crack pobres e moradores de rua. Para tal anunciou a criação de 600 leitos destinados à internação compulsória de adultos dependentes da droga, com possibilidade de uma bolsa-auxílio de R$ 350,00 a R$ 900,00 para que os familiares tenham condições de dar continuidade ao tratamento, após a internação.

    Para a prefeitura, os dependentes de crack são compreendidos como adictos (dependentes) de crimes para sustentar seu vício, sendo assim a solução para este grave problema de saúde pública será a exclusão destes do espaço público, ignorando sua vontade, as causas sociais e, ainda, criminalizando os dependentes.

    Da perspectiva da saúde pública, ao considerarmos as proposta progressivas da reforma psiquiátrica brasileira, a internação involuntária e compulsória é um retrocesso. A opção pela internação em instituição terapêutica deve ser considerada e respeitada, mas desde que seja avaliada caso a caso – e jamais adotada como uma política pública de saúde com aplicação em massa. Terapeuticamente, o modelo de assistência pautado em exclusão social, tutela, isolamento com longas internações e falta de trabalho intersetorial já se mostrou ineficiente, ou seja, esta é uma política pública de saúde falida.

    Políticas como a internação compulsória desconsidera que a doença mental também é uma produção social, ou seja, consequência do modo de produção capitalista com suas desigualdades e mazelas econômico-sociais as quais gera grande sofrimento e adoecimento humano.

    A reforma psiquiátrica brasileira propôs os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) como recurso terapêutico prioritário no tratamento dos usuários da saúde mental. Segundo o Relatório de Gestão do Ministério da Saúde de 2011, até este ano foram implantados no Brasil inteiro 1.742 CAPS, sendo que desses, apenas 41 funcionam 24h, 105 são voltados para saúde mental infantil (CAPSi) e apenas 200 para usuários de álcool e drogas. Serviços de saúde mental especializados são muito caros, pois envolvem muitos gastos com mão de obra qualificada, chocando-se com a política restritiva imposta ao SUS. Ou seja, da perspectiva sanitária, é impossível tratar a dependência de crack com um sistema de saúde pública defasado, subfinanciado e cada vez mais nas mãos dos empresários da saúde.

    O Estado brasileiro desde muitos anos ignora o direito à saúde, e com isso, o direito de dependentes de álcool e drogas ao tratamento, conferindo esta responsabilidade a grupos religiosos e organizações ditas sem fins lucrativos como ONG e Organizações Sociais (OS), que atuam de maneira voluntária movida por caridade ou ainda, como sócios do Estado por meio das parcerias públicas privadas, denominadas “Comunidades Terapêuticas”.

    O programa “Crack é Possível Vencer” lançado pelo governo federal mantém a lógica da privatização ao prever um investimento de R$ 4 bilhões de financiamento público para as comunidades terapêuticas. Essas mesmas Instituições são alvos de denúncias graves por maus tratos, cárceres privado, trabalho forçado, humilhações e ausência de cuidados de saúde. Além da parceria do governo federal estas contam com uma forte bancada de representação no legislativo.

    No caso do Rio de Janeiro a política antidrogas é também pautada como caso de segurança pública, com fortes ações repressivas e violação aos direitos humanos. Ao contrário de uma preocupação sanitária, tem ganhado status de política de remoção do espaço público não apenas de usuários de crack, mas também de moradores de rua. Assim, algumas centenas de crianças, jovens e adultos são confinados em depósitos humanos, ou melhor, cracolândias institucionalizadas, sem recursos de saúde, perspectiva de cura ou ressocialização, e assim podem continuar a consumir o crack longe dos olhos críticos da sociedade.

    A dependência de crack é uma doença que não se trata com religião e tampouco com polícia, mas com serviços e profissionais de saúde qualificados. O modelo ideal para abordagem em saúde mental necessita de um sistema de saúde público estatal e integrado, no qual os usuários de drogas possam ser tratados próximos a sua casa e comunidade, como serviços especializados, um amplo arsenal terapêutico ao seu dispor e acompanhamento contínuo dos serviços de saúde. Além de exigir a aplicação de políticas intersetoriais para que seja possível a ressocialização destes indivíduos.

    Somos contrários à política de internações compulsórias, pois além de ser ineficiente como ação de saúde pública tem se configurado como uma política pública de higienização do espaço público dos grandes centros urbanos, e receamos que se configure numa política de eliminação física dos setores mais empobrecidos da classe trabalhadora que não tem sequer quem chore ou reclame por suas vidas. No sistema capitalista os governos de plantão têm lado, e este não é ao lado dos trabalhadores. Ou será que a prefeitura internará os dependentes de crack da classe média e da elite carioca?

    A dependência em crack é um mercado, assim como todo o consumo de droga sob o capitalismo. As drogas são mercadorias, e o tráfico se organiza como uma empresa que objetiva o lucro, que inclusive explora trabalhadores precarizados sob o regime do medo. Um cartel que comanda a distribuição e a venda. Por outro lado, o Estado hipócrita finge combater essa realidade com intensificação da repressão.

    Deste modo, uma política pública que realmente objetivasse combater o consumo do crack seria a legalização das drogas. Assim, o governo deixaria de gastar bilhões em policiamento e repressão e arrecadaria outros bilhões com os impostos de quem comprasse drogas em locais legalizados, o que tornaria o tráfico residual e geraria recursos para aplicar no tratamento de qualidade dos dependentes químicos e políticas de educação em saúde para evitar que as pessoas se tornem dependentes. Com esta medida, o Estado teria que criar mecanismos de regulação e controle do consumo, deste modo, uma droga como o crack que é um lixo, impura e devastadora poderia ser banida da face da terra.

    Em última instância, tratar o aumento do consumo de crack é devolver a condição humana e perspectiva de futuro a milhares de brasileiros que hoje se drogam não por curtição, mas para suportar a miséria de vida que lhes é imposta pelo modo de produção capitalista, situação que tende a se agravar em tempos de crise econômica.

    Por tudo isso, o PSTU defende:

    1.      Um sistema de saúde público, estatal, laico e de qualidade;

    2.   Ampliação da rede de CAPSAD (álcool e drogas) com atendimento 24 horas, e internações de curto prazo, quando necessário, incluindo o atendimento à população de rua;

    3.      Reintegração social dos usuários de crack, com a implementação de um amplo plano de empregos e moradias populares;

    4.      Descriminalização e legalização das drogas.


    Governo Cabral quer destruir todo o complexo esportivo e cultural do Maracanã!




     
    Os cerca de 3 bilhões de lucro que esperam os empresários com a privatização do Maracanã estão pressionando nosso ditador Cabral a ousar na repressão à população carioca e fluminense. O governo quer destruir um prédio histórico de relevante importância para preservação da cultura indígena, uma escola pública considerada modelo, um complexo esportivo fundamental para os atletas e para a comunidade do bairro que o utiliza para atividades esportivas para supostamente atender as exigências da Fifa. Tudo isso acontece com apoio de Eduardo Paes e Dilma, que se calam diante do sofrimento dos trabalhadores, que perderam seus empregos, dos alunos, que perderam sua escola, e dos atletas, que não têm mais lugar onde treinar.

    Esse fim de semana foi de muita luta nos entornos do Maracanã. Professores, atletas, ex-atletas, movimentos populares e indígenas estiveram presentes nos locais, protestando contra mais um absurdo do governo do estado. Estivemos lado a lado de centenas de ativistas na defesa da Aldeia Maracanã, do Estádio de Atletismo Célio de Barros e de todos os atingidos pela venda do patrimônio histórico, imaterial e não dimensionável do futebol do Rio e do mundo.

    Não podemos deixar que o Rio de Janeiro se transforme numa marionete que os seus dirigentes movimentam como quiser. A luta continua e tem que ampliar essa semana. Completa-se um ano da brutal desocupação do Pinheirinho, e os trabalhadores seguem sendo massacrados, seja na periferia de SP por Alckmin, seja nas favelas e ocupações por Cabral.

    A realização de grandes eventos em nosso país tem que servir para o desenvolvimento social do país, e não para enriquecer os já bilionários megaespeculadores.

    • Não à demolição da Aldeia Maracanã, do Célio de Barros, do Julio Delamare e da Escola Friedenreich;
    • Pela reforma do prédio pelo governo e construção de um verdadeiro Museu do Índio na Aldeia Maracanã gerido pelos indígenas;
    • Pela imediata suspensão da privatização do Maracanã e ruptura dos contratos com as empreiteiras envolvidas
    • Pela democratização do acesso à cultura;
    • Em defesa do Parque Aquático Julio de Lamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros;
    • Esporte não é mercadoria. Pela regulamentação do esporte para fins sociais.




    Batalhão de Choque cerca a Aldeia Maracanã



    Apesar das inúmeras manifestações de repúdio por diversas entidades, o governo do estado não recuou em seu propósito de demolir o prédio da Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio. Hoje de manhã o local foi cercado pelos Batalhão de Choque que está aguardando uma liminar que autorize a desocupação do local. Esta seria mais uma destruição de um patrimônio da cidade por causa da Copa do Mundo.

    Há nesse momento cerca de 300 ativistas e indígenas resistindo à desocupação. A polícia bloqueou a entrada do prédio, e as pessoas estão pulando o muro. Há uma perspectiva de que a liminar seja concedida amanhã pela manhã. Portanto, é muito importante que todos estejam presentes.

    Ás 18:00 haverá ato no local em defesa da conservação do prédio.