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11 de setembro de 1973: o golpe que matou a democracia

Completam-se 40 anos do golpe militar que derrubou Allende e instaurou uma das ditaduras mais ferozes da História
Por Rodrigo Barrenechea e Rodrigo Noel de Souza


Nestas manifestações de junho passado, talvez as pessoas não saibam, mas quando gritavam “O povo unido jamais será vencido”, repetiam um grito de mais de 40 anos...

   O Chile era, entre nossos vizinhos sul-americanos, uma exceção em termos políticos. Ao contrário dos outros países de nosso continente, que viviam constantes golpes de Estado e mudanças políticas, lá viveu-se, com pequenos intervalos, uma democracia contínua, com cada governo eleito sucedendo a seu antecessor. Isso até 1973.
   Em fins do ano de 1970, após várias tentativas anteriores, foi eleito presidente Salvador Allende Gossens, médico sanitarista, à frente da Unidade Popular (UP) uma coalizão de esquerda que incluía os partidos comunista e socialista chilenos, além dos radicais – de centro-esquerda – e outros grupos menores. A UP ganhou da Democracia Cristã (DC), e do Partido Nacional, que se alternavam no poder desde os anos 1940.
   Allende foi eleito com um programa ousado: tratava-se, nada mais nada menos, de realizar uma transição pacífica ao socialismo e construir um Estado dos Trabalhadores. Viviam-se os anos da Guerra Fria, da permanente oposição entre Estados Unidos e União Soviética. A lembrança da Revolução Cubana de 1959, de Fidel Castro e Che Guevara, era algo ainda muito presente. O que a UP propunha era, através da estatização da maior parte da economia, chegar a uma situação onde as elites econômicas já não mais controlassem as riquezas do país e, com isso, o poder passasse aos trabalhadores organizados.
   Uma das primeiras medidas foi a nacionalização do Cobre, a principal riqueza nacional e fonte de dólares, necessários para a importação de equipamentos e alimentos, já que o país não era autossuficiente em nenhuma das duas. Esta se deu sem indenização, pois as multinacionais que controlavam o minério – na maioria, norte-americanas – já haviam retirado muito mais em lucro do que as minas valiam.
   A classe trabalhadora chilena, por sua parte, sabia que não bastava chegar ao poder executivo. Nem toda a esquerda fazia parte do governo, especialmente o MIR (Movimento de Esquerda Revolucionário). Assim, a tarefa de criar “poder popular” tornou-se fundamental, especialmente para fazer frente aos ataques da burguesia chilena e dos Estados Unidos, que impuseram um bloqueio comercial. Formam-se as chamadas Juntas de Abastecimento e Preços (JAP), que passaram a controlar o abastecimento dos produtos de primeira necessidade e a combater o mercado negro que se formou. Surgem também os “Cordones Industriales”, que agrupavam as indústrias de uma dada região e garantiam o abastecimento do mercado interno. Aos poucos, os operários estabeleciam uma alternativa de poder ao Estado burguês.

A direita se organiza
   Como o governo não tinha uma maioria estável no Congresso Nacional, nem a oposição, surgiu um impasse. Nem o Poder Executivo conseguia aprofundar seu programa de nacionalizações da economia – a chamada “área de propriedade social” – nem a direita reunia os votos necessários para destituir Allende. Em 1972, a UP vence a eleição para renovar a Câmara dos Deputados e o Senado, mas ainda sem maioria absoluta. Aumentou a pressão para criar o caos econômico, especialmente com as greves dos caminhoneiros e dos mineiros de El Teniente, uma das principais minas e a mais próxima de Santiago, a capital do país. Começa a ser pensada uma outra solução para o impasse, uma muito mais sinistra...
   As Forças Armadas chilenas tradicionalmente apoiavam os governos eleitos, a chamada “doutrina constitucionalista”. Porém, desde os anos 1960 isso muda: aumenta o intercâmbio entre os exércitos chileno e norte-americano – por meio de cursos na Escola das Américas, no Panamá, onde os diversos golpes militares na América Latina foram planejados. Da mesma forma, diversos oficiais das Forças Armadas são chamados ao Brasil, após 1964, para assistir a cursos de formação, dados por instrutores da agência de espionagem norte-americana, a CIA.
   Constado que não seria possível destituir Allende pelo caminho legal, começa a organizar-se uma tomada violenta do poder. A classe trabalhadora chilena percebeu o perigo do golpe e mobilizava-se diariamente, mas a responsabilidade da UP deve ficar clara, por não preparar a sua militância e recusar-se a armar o povo. Allende faz uma reforma ministerial e incorpora os militares ao gabinete; nomeando para Comandante-em-chefe do exército um general reconhecido como constitucionalista, Augusto Pinochet. Mal sabia ele do que ocorreria a seguir...

O golpe em gestação
   Em setembro de 1973, acossado pela oposição e massacrado pela imprensa, em geral controlada pelos ricos, Allende concebeu um plesbicito no qual o povo decidiria se ele deixaria o poder, após 3 anos da eleição. Em 11 de setembro de 1973, seria anunciado referendo; no entanto, este nunca veio a público. De manhã, as rádios de Santiago e Valparaíso – o principal porto do país – noticiavam chuva quando não havia uma só nuvem no céu. Era a senha para o golpe. Os navios chilenos, que estavam em manobras com a marinha norte-americana, apontaram seus canhões para o porto. 

   Nos quartéis ao longo do país, os soldados que permaneciam fiéis ao governo eram presos e vários fuzilados. Antes do meio-dia, os comandantes das Forças Armadas faziam um ultimato ao “companheiro-presidente”, para que Allende deixasse o poder. Ele e sua família seriam mandados ao exílio. Allende recusou-se. O palácio de La Moneda foi então bombardeado. Allende resistiu o quanto pôde, até ser morto. Com ele, morria a democracia chilena, isso até 1989. Assumiu o poder uma junta militar. No entanto, o gal. Pinochet agarrou-se ao poder até 1989. Legou ao país uma Constituição, imposta em 1980, que deu ao país um aspecto muito mais autoritário, e que persiste até hoje, 23 anos depois. O Chile, de país mais democrático do continente, torna-se uma vergonha mundial, sendo repudiado por governos ao redor do planeta.

   Pouco antes de sua morte, Allende dirigiu-se por rede de rádios, antes que fossem silenciadas pelos militares golpistas. “Têm a força, poderão esmagar; mas é
impossível deter os processos sociais, seja com o crime ou com a força. A História é nossa, é feita pelos povos. (...) Trabalhadores de minha pátria: tenho fé no Chile e em seu destino. Outros chilenos superarão este momento negro e amargo em que a traição pretende se impor; continuem sabendo que muito mais cedo que mais tarde novamente se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem digno, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo!”.

O outro 11 de Setembro: a tragédia chilena (primeira parte)


O PSTU Rio Realizará no dia 24 de Setembro um debate sobre o Golpe Militar no Chile em 1973 e o governo de Salvador Allende, com historiadores e especialistas no tema. Aguarde mais informações.

Cyro Garcia lança livro no Rio e CCOB realiza homenagem companheira Teresa

   Os companheiros e companheiras do Centro Cultural Octávio Brandão (CCOB) prestam uma homenagem à companheira Teresa Bastos neste sábado, 19/11, a partir das 14h. Logo após a atividade, às 16h, o companheiro Cyro Garcia (presidente do PSTU-RJ) lançará seu mais recente livro "PT: de oposição à sustentação da ordem", da editora Achiamé (também disponível aqui).

   O CCOB está localizado próximo a estação do metrô de Maria da Graça, à Rua Miguel Ângelo, 120.

Veja também:

Homenagem a Luiz Carlos da Vila

Luiz Carlos da Vila, no ato do 1º de Maio promovido pela Conlutas (2008)




Por Juzerley Santos

Aproveitamos o carnaval para relembrar e fazer uma singela homenagem a um dos grandes bambas do samba carioca e dos maiores compositores da música popular brasileira. Um artista que fez do samba sua arte, sua vida e que nunca se rendeu aos caprichos da mídia, alguém que fazia das rodas do Rio sua morada e encantou milhares sem precisar de jabá; falecido aos 59 anos em 20 de novembro de 2008, no Rio de Janeiro (RJ), o compositor carioca Luiz Carlos da Vila, e recebeu este apelido por seus sambas refletirem as vilas cariocas, isto é, a zona norte e o subúrbio do Rio, como a Vila Isabel, a Vila de Penha e a Vila Kennedy.

Nascido em 1949, no bairro de Ramos, foi fundador do Cacique de Ramos, tradicional bloco que até hoje desfila na Avenida Rio Branco, contagiando dos novos aos antigos foliões. Foi na tradicional quadra do Cacique, berço bambas como Beth carvalho, Zeca pagodinho, Almir Guineto, Arlindo Cruz e tantos outros compôs a memorável Doce Refúgio (assista o vídeo).

Luiz Carlos da Vila, há 23 anos, levantou a Sapucaí levando a escola de samba Vila Isabel à vitória com o enredo Kizomba – A Festa da Raça, que em seus belos trechos diz:

Valeu Zumbi
O grito forte dos Palmares
Que correu terras céus e mares
Influenciando a Abolição...

Ô ô nega mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina
O pagode é o partido popular...

Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais...

Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua


Desfile da Vila Isabel (1988)

A Consciência Negra de Luiz Carlos da Vila  

 

 

 

Já é carnaval! Um olhar sobre o carnaval carioca

Alexandre Brabosa, o  ``Xandão`` do Rio de Janeiro (RJ)
(publicado em 14/2/2007)

Para muitos, o carnaval do Rio se resume aos desfiles no sambódromo onde se realiza um show para TV e turistas estrangeiros. Hoje, as grandes escolas servem basicamente ao grande mercado do turismo. Até os enredos são escolhidos a partir de patrocinadores. A integração latina cantada pela Vila Isabel campeã de 2006 não é só fruto da imaginação de um artista, mas uma demanda do governo Venezuelano que patrocinou a escola. Esse excesso de “profissionalismo” que aumentou o custo e afastou o povo da avenida parece não ter fim.

Como tudo é dialético, porém, a escola de samba não é só isso. Na escola de samba há a comunidade que se vê representada e se expressa, mesmo que com limitações, na sua escola do coração. Hoje, a maioria que desfila ganha sua fantasia e freqüenta a escola o ano inteiro. É na escola de samba que o menino pobre pode mostrar sua ginga como passista e sua habilidade na bateria.

A quadra da escola é um centro cultural permanente. É na escola de samba que a poesia popular tem vazão nas letras dos sambas de enredo ou de exaltação. É a comunidade que garante o chão da escola e o show do carnaval.

Hoje, a maioria das pessoas que desfilam em escolas de samba ganha sua fantasia. Escolas, como por exemplo, a Beija-Flor de Nilópolis que terá cerca de 4000 componentes destina mais de 2500 fantasias gratuitas para a comunidade. Em escolas menores, que desfilam nos grupos de acesso, chega a 100% o número de fantasias da comunidade. Apesar disso, entretanto, a maioria do povo segue longe do sambódromo.

Mas o carnaval não é só isso
Confete, serpentina, boa música, gente bonita e muita alegria compõem o carnaval de rua no Rio de Janeiro. Todo mês de fevereiro, milhares de pessoas invadem as ruas da cidade atrás dos blocos carnavalescos, mostrando ao mundo sua irreverência.

O carnaval de rua carioca reconquistou seu lugar e hoje são mais de 300 blocos espalhados por toda cidade. Blocos como Cacique de Ramos, que funciona o ano inteiro com sua roda de samba e já revelou grupos como Fundo de Quintal, são uma das principais atrações da avenida Rio Branco. Todas as noites do carnaval, junto com o Bafo da Onça, que tem 50 anos de desfile, demonstram que o carnaval está mais forte que nunca.

Tem bloco pra todo gosto: grandes ou pequenos, tradicionais ou novatos, que cantam marchinhas conhecidas ou com samba próprio, que fazem sátiras políticas ou de nomes com duplo sentido, que concentram, mas não saem, que percorrem as ruas arrastando o povo e, o melhor de tudo, de graça, para garantir a alegria do folião. Aqui não tem cordas separando o povo do bloco nem regras para se divertir. Pode brincar o fantasiado e o sem fantasia, e o melhor é que a estrela desse carnaval é o folião anônimo com sua empolgação.

Esse é o mais forte fenômeno de resistência popular no Rio de Janeiro.

O samba não é carioca só no carnaval
Nesse momento, há uma revitalização do samba como cultura de massas. Durante muito tempo, o samba só era lembrado no carnaval, e o rock, o axé e outros gêneros musicais dominavam as atenções da população o ano inteiro.

Há algum tempo, contudo, isso vem mudando. Durante todo o ano, o samba se faz presente na vida do carioca, de blocos e grupos de samba que tocam na rua, passando pelos eventos nas quadras até as rádios especializadas no gênero musical como a muito não se via. Exemplos desse fenômeno são os shows das Velhas-Guardas das escolas de samba que voltam a ser veneradas, as feijoadas nas quadras das escolas, os ensaios de blocos – como os Embaixadores da Folia e os Escravos da Mauá – que reúnem milhares de pessoas em qualquer época do ano e as dezenas de casas noturnas especializadas em samba.

Por isso, o carnaval do Rio pede passagem, convidando a todos para sacudir essa cidade. Viva Zé Pereira!




Ato histórico homenageia Teresa no Rio - Um rito de passagem, um ato de construção e luta

José Eduardo Braunschweiger
do Rio de Janeiro (RJ)

   O auditório do Sindicato dos Bancários do Rio ficou pequeno para receber os mais de 300 companheiros, militantes, ex-militantes, membros de outros partidos e organizações, familiares e amigos, que com muita emoção compareceram à homenagem a Teresa, fundadora e ex-Dirigente Nacional do PSTU e da Regional RJ, falecida em 28 de setembro de 2010.
    O ato de homenagem foi aberto por Cyro Garcia, presidente do PSTU – RJ que, além de destacar o papel e importância de Teresa para a construção do partido, denunciou a política de segurança pública do Estado do RJ que ao contrário da falsa pacificação da cidade deixa a população refém da violência do tráfico, das milícias e da polícia.
    Velhos piqueteiros, novos ativistas se emocionaram com a exibição do vídeo “Pra falar de Teresa”. De autoria de Simone Silva, Luis Fernando Couto e Hélcio Duarte Filho, o vídeo resgatou a trajetória dessa revolucionária, que se confunde com a construção do partido desde o seu ingresso na Convergência Socialista em 1982 na greve do Serviço Social da UERJ, passando pela Diretoria do SEEB-RJ, a ruptura com o PT e a fundação do PSTU, até sua luta contra a esclerose múltipla doença que a vitimou.
    Dando continuidade ao ato, foi dada a palavra a Janira Rocha, Deputada Estadual eleita do PSOL-RJ, que destacou “a dignidade que Teresa teve durante toda a vida e que ela morreu uma pessoa digna” e que isso fortalece todos que gostavam de Teresa. Chico Alencar, Deputado Federal também pelo PSOL-RJ, enfatizou que: “ Teresa mesmo tendo um tempo de vida tão curtinho, continua nos dando vigor de vida”.
    Teresa conseguiu reunir também Lindberg Farias, Senador eleito pelo PT-RJ, que disse estar honrado em homenagear Teresa e destacou a importância do PSTU que “é o único partido que se propõe revolucionário no Brasil e sei que paga um preço por isso”. Stelinha pelo PCB falou que “Teresa marcou profundamente a minha vida”. Ainda homenagearam Teresa o SEEB-RJ, o SINDJUSTIÇA da categoria em que Teresa se aposentou e que se encontra em greve.
    José Welmovick, em nome da LIT, destacou que “Teresa era um exemplo de luta política, de luta nas greves, de luta pela construção do partido, e também de uma completa dedicação, de uma completa moral revolucionária, ... era um exemplo de solidariedade”. Eduardo de Almeida, em nome da Direção Nacional do PSTU, considerou o ato como um rito de passagem e enfatizou que “Teresa foi um exemplo de moral, de militância em todos os sentidos no programa e na moral e que serve como construção de um exemplo, de uma tradição que fortalece enormemente a todos”.
    O ato contou ainda com os companheiros da ABBR (Centro de Reabilitação) que, num momento de grande emoção, deram seus testemunhos da experiência que tiveram com ela durante o tratamento e na luta contra a exclusão a que estão submetidos os portadores de necessidades especiais na sociedade capitalista.
    Teresa, ao lutar durante seus 28 anos de vida consciente com uma moral e dignidade inquebrantáveis, é dessas pessoas que dignificam a vida humana e nossa existência. A dedicação dessa revolucionária e sua capacidade de ser sindicalista e agitadora política, assim como uma propagandista e organizadora partidária, fez dela uma lutadora imprescindível. A Homenagem a Teresa foi não só um resgate de sua história de luta, mas também a de tantos outros companheiros(as) que empunharam e empunham a bandeira da Revolução Socialista e comoveu todos os presentes.
   Um rito de passagem, como Edu denominou o ato, não se faz sem emoção, choros e lágrimas, poesia de Diego, Cordel de Nando, agradecimentos aos familiares e cuidadores. A homenagem dos que seguem a luta que foi a vida de Teresa foi comovente e à altura da trajetória dessa revolucionária pela dedicação, em especial, das companheiras de seu antigo núcleo e demais camaradas.
   Viver é compartilhar. Compartilhar as memórias da vida e da luta de Teresa reavivou seu compromisso que agora damos continuidade: a luta pela Revolução Socialista, que como disse Zeca, seu companheiro de vida e de luta durante vinte e oito anos, é a melhor forma de homenagear Teresa.

Veja os vídeos do Ato 




 



 










Ato em homenagem a Teresa reuniu centenas na noite de sexta (3/11), no Rio de Janeiro

(da redação)
   A esquerda carioca se reuniu na noite desta sexta, dia 3, para prestar a última homenagem à dirigente do PSTU, Teresa Bastos,que faleceu na madrugada de 28 de setembro, após uma luta de anos contra uma doença degenerativa.
    Teresa militava desde 1982 e foi uma das principais lideranças do partido no estado. A homenagem de sexta, no auditório do sindicato dos bancários, categoria da qual Teresa fez parte, reuniu muitos representantes da esquerda. O PCB e o PSOL estiveram presentes e falaram no ato. Deste partido, o deputado Chico Alencar e a deputada estadual Janira Rocha também falaram no ato. A memória de Teresa conseguiu reunir até mesmo o senador eleito pelo PT Lindberg Farias. O ex-líder estudantil fez parte do PSTU de 1997 a 2002, após romper com o PCdoB, militando no Rio de Janeiro. Ele falou no ato, lembrando a trajetória de Teresa e destacando a importância do PSTU.
    A direção nacional do PSTU participou em peso. Além de Zé Maria e Cyro Garcia, estiveram presentes Eduardo Almeida, José Welmovicki, André Freire, Mariucha Fontana, Genilda Souza e muitos outros dirigentes e lideranças que se emocionaram ao recordar da camarada. Muitos ex-militantes também estiveram no ato.

VÍDEOS

    Durante o ato, mais de 300 pessoas acompanharam a transmissão ao vivo. Por problemas técnicos, a transmissão começou com um atraso de 40 minutos, às 20h15, e durou até quase 23h.
    O ato começou com a exibição de um vídeo com depoimentos e imagens de Teresa, que estará disponível no site do PSTU. Além deste vídeo, a TV PSTU também preparou um resumo do ato, com as imagens mais marcantes, que pode ser conferido abaixo: 

7 de novembro: Recordar a revolução de outubro para preparar a próxima

Os 93 anos da revolução que mudou o rumo da Humanidade e mostrou que a derrubada do capitalismo é possível.

Francesco Ricci, do PdAC (Itália)


• 25 de outubro 1917 (7 de novembro do nosso calendário), depois da queda do Tzarismo (fevereiro), a esquerda governista da época, guiada pelos mencheviques e socialistas-revolucionários, procurou recolocar o poder nas mãos da burguesia: como em todas as épocas sempre fazem os reformistas, cuja única finalidade é pregar a colaboração com os patrões ditos progressistas, isto é, a renúncia ao objetivo de fundo do movimento operário (o governo dos trabalhadores) e a subordinação da classe operária aos governos que administram os negócios da burguesia, em troca de qualquer posto para os seus membros.

Mas os comunistas revolucionários, dirigidos pelo partido bolchevique de Lenin e Trotsky, que em poucos meses frenéticos cresceram nas lutas e transformaram a sua organização (antes relativamente pequena) no partido mais influente entre as massas proletárias, refutam todo apoio ao governo "de esquerda" e, antes de tudo, conduzem contra este uma oposição sem tréguas. Ganham em poucas semanas a maioria nos organismos de luta (os sovietes), dirigindo o último ato da revolução: a insurreição que derrubou definitivamente o governo Kerensky, governo composto e dirigido pelos partidos da esquerda reformista, mas baseado sobre um programa burguês, portanto anti-operário.

A famosa tomada do Palácio de Inverno, longe de ser um "golpe", foi apenas o "último ato" insurrecional em Petrogrado que, varrendo também simbolicamente o governo da burguesia (o presidente do Conselho, contudo, já tinha fugido), livra o espaço ao poder dos operários guiados pelos comunistas revolucionários. Nas horas sucessivas se constituirá o Conselho dos Comissários do Povo, um governo baseado nos organismos de luta do proletariado e sobre um programa operário: o único governo no qual podem participar os comunistas, sustentaram Lenin e Trotsky, retomando as posições fundamentais do comunismo de Marx e Engels. Recordamos hoje aquelas belíssimas jornadas revolucionárias. E o fazemos não apenas por nostalgia, mas para ainda uma vez estudar o modo como os trabalhadores e as classes subalternas, guiadas pelo partido comunista, souberam não somente liberar-se de um regime reacionário (aquele do Tzar), mas souberam também destruir toda ilusão nos governos chamados "progressistas".

Os patrões e os burocratas reformistas dirão que se trata de uma história velha. Correto, a história é velha (aconteceu há mais de cem anos), mas nos oferece ensinamentos sobre o único remédio até agora encontrado para colocar fim à barbárie do capitalismo (um sistema bem mais velho, ou melhor, decrépito). É verdade que muitas coisas mudaram depois daqueles dias, mas o essencial permanece o mesmo: igual o domínio brutal do capitalismo, iguais as suas guerras sociais e militares contra os trabalhadores e os povos oprimidos, igual o papel de abafar as lutas desenvolvidas pelas burocracias sindicais e pela esquerda governista. Assim como igual, idêntica, continua a necessidade de construir uma outra direção para o movimento operário, baseada sobre a independência de classe, isto é, um partido de tipo bolchevique. Para preparar, nas lutas de hoje, a próxima revolução.

As leituras que apresentamos
Para recordar o 7 de novembro de 1917, selecionamos os textos de dois protagonistas e de um historiador: iniciamos com alguns trechos da belíssima crônica daqueles dias feita pelo jornalista e dirigente comunista norte-americano John Reed, que participou da revolução (insispirando também o filme de Warren Beaty, Reds); em seguida, uma passagem de um artigo de Leon Trotsky (junto com Lenin, o principal dirigente de outubro); e fechamos esta pequena antologia com alguns trechos da biografia que o historiador militante Pierre Broué dedicou a Trotsky, presidente do Comitê Militar Revolucionário que se ocupou da insurreição.




O 7 de novembro de 1917 por uma testemunha

John Reed

Quarta-feira, 7 de novembro, me levanto muito tarde. O canhão do meio-dia soava pelo forte de Pedro e Paulo, enquanto eu andava ao longo da perspectiva Nevsky [principal avenida da cidade]. Era um dia chuvoso e frio. Diante do Banco do Estado, alguns soldados com as baionetas cruzadas montavam guarda diante das portas fechadas.

“De que parte vocês são? Do governo?" perguntei.
"Não existe mais o governo" me respondeu um com um sorriso. (...) Diante da porta do palácio Marinsky se encontrava uma multidão de soldados e de marinheiros. Um marinheiro contava do fim do Conselho da República. "Entramos", dizia "e fizemos vigiar as portas por companheiros. Andei até o contra-revolucionário que sentava na cadeira do presidente e disse: 'Não existe mais Conselho, vão para casa, agora." Alguns riram.

(...) Quando chegamos num carro diante do Smolny [quartel dos bolcheviques], a sua maciça fachada flamejava de luzes e de todas as ruas vinham rápidas correntes de formas indistintas na escuridão. Automóveis e motocicletas iam e vinham; um enorme carro armado, uma espécie de elefante multicolorido, adornado por duas bandeiras vermelhas tremulando sobre a torre, avançava tocando a sua barulhenta sirena. Fazia frio e diante da porta externa a Guarda Vermelha acendera uma fogueira. (...) Os quatro canhões de tiro rápido foram postos nos lados da porta de ingresso sem as coberturas de tela e as fitas da munição pendiam como serpentes pela culatra.

(...) Havia um sentimento de audácia no ar. Já pelas escadas se revelou uma multidão, operários com camisas negras e gorros de pelica escuro (....). A reunião do Soviet de Petrogrado tinha começado.

(...) A sessão era importante: em nome do Comitê Militar Revolucionário, Trotsky declarou que o governo provisório tinha cessado de existir.
"A característica dos governos burgueses", ele disse, "é aquela de enganar as massas populares. Nós, deputados do soviete dos operários, dos camponeses e dos soldados, estamos tentando um experimento único na história, estamos colocando as bases de um poder que não terá outro objetivo se não aquele de satisfazer as necessidades dos soldados, dos operários e dos camponeses."

Lenin apareceu, acolhido por uma potente ovação, e preconizou a revolução socialista de todo o mundo.

(...) [Abre-se o Segundo Congresso dos Sovietes, é eleita a presidência, proporcionalmente aos diversos partidos soviéticos: 14 bolcheviques, 7 socialistas-revolucionários, 3 mencheviques, 1 internacionalista, Ndt]. Improvisadamente se escuta um novo rumor, mais alto que o barulho da multidão, insistente, inquietante, o som dos canhões. (...) Martov [dirigente reformista, ndt] pede a palavra e grita: "A guerra civil é começada, companheiros! A primeira questão deve ser a pacífica resolução da crise. Por princípio e por um ponto de vista político, devemos urgentemente discutir os meios para afastar a guerra civil. Os nossos irmãos estão se matando nas ruas. Neste momento, antes mesmo que o Congresso dos Soviet estivesse aberto, a questão do poder é resolvida com métodos de uma conjura militar organizada por um dos partidos revolucionários [os bolcheviques de Lenin e Trotsky]." (...) "Nós devemos [continua Martov, ndt] formar um governo que seja reconhecido por toda a democracia." (...) O final se perdeu em uma tempestade de gritos, de ameaças, de maldições que se levantou em um diapasão infernal enquanto cinqüenta deputados [da esquerda governista, ndt] se levantaram entre a multidão para sair.

Kamenev, que presidia, agitava o sino gritando: "Fiquem nos vossos lugares e sigamos o nosso trabalho!" Trotsky, em pé, com o rosto pálido e cruel, decretava com a sua voz potente e com um frio desprezo: "São os chamados socialistas, mencheviques, socialistas-revolucionários, covardes vários, os deixem andar. Representam aqueles resíduos que serão varridos para o lixo da história!"

John Reed, de Os dez dias que abalaram o mundo (publicado em várias edições).




O que representou a Revolução Russa

Leon Trotsky

Com Lênin, entramos na Revolução de Outubro profundamente convencidos de que a revolução na Rússia não podia ser levada a cabo independentemente dos outros países. Acreditávamos que esta revolução não podia ser mais que o primeiro anel da cadeia da revolução mundial e que a sorte deste anel seria decidida pelo destino de toda a cadeia.

Mantemos esta posição. (...) Chegamos neste aniversário como deportados, prisioneiros, exilados, mas chegamos sem o mínimo pessimismo. O princípio da ditadura do proletariado entrou solidamente na história. Mostrou a formidável potência de uma jovem classe revolucionária dirigida por um partido que sabe aquilo que quer e que é capaz de acordar a própria vontade ao passo da evolução objetiva.

Os anos transcorridos mostraram que a classe operária de um país, ainda que atrasado, não só pode fazer mais do que os banqueiros, os proprietários e capitalistas, mas é ainda capaz de assegurar para a indústria um desenvolvimento assaz mais rápido do que aquele realizado sob o domínio dos exploradores. Estes anos mostraram que uma economia centralizada segundo um plano tem uma nítida vantagem sobre a anarquia capitalista.

(...) Não temos nada do que nos penitenciar e não renunciamos a nada. Viva as idéias e a paixão que nos animavam durante as jornadas de outubro de 1917. Através dos temporais dificilmente podemos ver diante de nós. Por mais complicados que sejam os meandros do rio, o rio corre até o oceano.

Leon Trotsky, de "Para o décimo segundo aniversário de outubro", 1929.




O choque entre comunistas e reformistas

Pierre Broué

O governo provisório é informado de tudo. Mas não faz nada, certamente porque não pode fazer nada. As suas ordens não surtem efeitos ou, se o fazem, esses são prontamente anulados. Sob a presidência de Trotsky, o Comitê Militar Revolucionário, ao contrário, é ativíssimo. No dia 24 de outubro (6 de novembro) designa os delegados ao Correio, à Ferrovia, aos mantimentos. Trotsky arenga a multidão ... e conquista um batalhão de motociclistas para a revolução; fala ao soviete de Petrogrado; reúne no Smolny os primeiros delegados ao Congresso panrusso dos sovietes. Ordena a reabertura dos jornais fechados pelo governo provisório, enquanto operários e soldados ocupam redações e tipografias da imprensa de direita.

(...) Até as duas da manhã do mesmo dia, iniciam-se os movimentos das tropas que precedem as primeiras operações militares. À reunião do Comitê executivo com os delegados que já tinham chegado para o Congresso dos sovietes, os socialistas conciliadores atacam mais uma vez, pela boca de Dan, que faz o quadro de uma situação apocalíptica na qual prevalece a contra-revolução: segundo ele, a insurreição seria pura loucura e portaria a ruína da revolução.

Desta vez, Trotsky responde abertamente, em nome do Comitê Militar Revolucionário, do partido bolchevique e dos sovietes: abandonando os argumentos defensivos, reivindicando a responsabilidade pela insurreição já começada, ele procura galvanizar os delegados. (...) No curso daquela noite, Trotsky dormirá somente pouquíssimas horas, estendendo-se completamente vestido, sobre um divã no Smolny.

(...) Durante a noite, os destacamentos dos insurgentes avançam. Pela manhã, ocupam já as pontes, as estações, os edifícios do correio, o Banco do Estado, a maior parte das tipografias. Às 10 da manhã do dia 25 de outubro (7 de novembro), o Smolny difunde um boletim de vitória. "O governo provisório foi deposto. O poder estatal passou ao Comitê Militar Revolucionário."

Na realidade, pelo momento, as coisas não estão de fato assim, e todas as autoridades estão ainda reunidas em torno do governo provisório no Palácio de Inverno. Os choques armados são, todavia muito limitados. Marinheiros, soldados e guardas vermelhos desarmaram vários destacamentos de aspirantes a oficiais, uma das poucas forças com as quais o governo provisório acreditava poder contar. (...) A sessão [do Congresso dos sovietes, ndr] é aberta, em nome do Executivo, pelo menchevique Dan, vestido com a sua divisa de médico militar. Dos 650 delegados presentes – no final serão 900 – com voto deliberativo, 390 se colocam a favor das posições dos bolcheviques. Trotsky avalia em cerca de um quarto aquela que chama "a oposição conciliadora em todas as suas formações". A presidência, constituída numa base proporcional, compreende 14 bolcheviques, uma discreta maioria em respeito aos 11 representantes da minoria. Lenin figura no primeiro lugar da lista bolchevique, seguido por Trotsky.

(...) Martov avança uma desesperada proposta de "compromisso", que condena a insurreição bolchevique e estabelece a suspensão dos trabalhos do Congresso até a conclusão de um acordo geral entre todos os partidos socialistas. A resposta é evidentemente de Trotsky, que fala da tribuna na qual se encontra ao lado de Martov: "A insurreição das massas populares não tem necessidade de justificação. O que aconteceu é uma insurreição, não uma conjura. Nós temperamos a energia revolucionária dos operários e dos soldados de Petrogrado. Forjamos abertamente a vontade das massas para a insurreição, não para uma conjura. As massas populares seguem a nossa bandeira e a nossa insurreição venceu. Agora nos diz: renunciem à vossa vitória, façam concessões, cheguem a um acordo. Com quem? Eu me pergunto com quem devemos chegar a um acordo? Com aqueles miseráveis grupelhos que deixaram o Congresso ou que fazem esta proposta? Mas os conhecemos bem. Ninguém na Rússia mais os segue." E concluí mandando os conciliadores para o "lixo da história". A sessão é suspensa por meia hora às duas da noite. Quando retomam os trabalhos, Kamenev pode anunciar a queda do Palácio de Inverno (...) e a prisão de todos os ministros, menos Kerensky [que tinha escapado, ndr].

Pierre Broué, de A revolução perdida. Vida de Trotsky.

Tradução: Rodrigo Ricupero

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  • Companheiro Martinho, Presente!

    Direção Estadual do PSTU-MG

    Companheiro Martinho durante atividade de campanha eleitoral
     No dia 4 de novembro de 2010 faleceu o metroviário e militante do PSTU Martinho Domingos Valente Alberte. Por negligência da empresa de trens urbanos, os trabalhadores brasileiros perderam um dos seus. Martinho foi atropelado no pátio da empresa. A falta de iluminação na área, a falta de uniformes fosforescentes e a inexistência de plataformas para o trânsito seguro dos maquinistas na região de manobras do metrô tiveram como conseqüência a retirada de Martinho de nosso convívio. A total falta de preocupação com a vida dos trabalhadores e a insaciável busca por lucros fez tombar de maneira trágica o amigo que muito estimávamos.

    A ganância da CBTU assassinou Martinho. O descaso com a vida dos trabalhadores é tão flagrante que sequer ambulância a empresa mantém na área de manobra dos trens.

    Martinho foi morto por aqueles que querem ver os trabalhadores sempre submissos e controlados, mas seu exemplo de luta continuará vivo conosco por muito tempo.

    Militante histórico
    Martinho, incansável lutador, iniciou a militância ainda muito jovem. Com apenas 16 anos foi parte da luta contra o regime militar no Brasil. No final dos anos 70, na cidade de São Carlos, conhece e passa a integrar a corrente “Convergência Socialista”, que mais tarde viria a se unificar com outros grupos revolucionários dando origem ao PSTU.

    Nos anos 80 e 90 Martinho lutou ao lado dos metalúrgicos de Minas Gerais. Teve papel importante no apoio à chapa de oposição ao Sindicato dos Metalúrgicos de BH e Contagem em 1984. A vitória da chapa tirou os pelegos do sindicato e o trouxe novamente para as mãos dos trabalhadores. Atuou também como assessor sindical dos metalúrgicos de Itaúna e como colaborador da Federação Sindical e Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais. Seja nestas organizações ou como metalúrgico de base, Martinho não deixou de lutar um dia sequer contra a exploração e opressão dos industriais mineiros sobre a classe trabalhadora.

    Perseguido pela patronal, Martinho é demitido em 2000. Deixa de ser metalúrgico para tornar-se metroviário em 2002, ano em que entra como maquinista na CBTU. Começava ali um novo ciclo na vida militante de Martinho, que a partir de então colocaria sua alegria, dedicação e irreverência a serviço da luta dos metroviários brasileiros. É nesta categoria que Martinho ajuda a construir a Conlutas, uma ferramenta que busca unificar a luta dos trabalhadores contra a opressão dos patrões e seus governos. Em 2010 é eleito para a direção da Fenametro e compõe a chapa para o sindicato dos metroviários de BH, vindo a falecer dias antes da posse.

    Companheiro Martinho, Presente!

    Torturada no regime militar relata verdadeiro papel de Tuma durante a repressão

         Em 1977 Márcia Basseto foi, junto com Zé Maria (ex-candidato à presidência pelo PSTU) e Celso Bambrilla, presa e torturada. Diante da repercussão da morte de Romeu Tuma (ex-diretor do DOPS), em especial uma matéria publicada pela Carta Capital, Márcia escreveu uma carta relatando sua prisão e a responsabilidade de Tuma na tortura
    Queridos amigos,  A revista Carta Capital publicou, na edição dessa semana, matéria referente à morte do senhor Romeu Tuma que me chocou por algumas afirmações que não condizem com a verdade. Muitos veículos já deram o mesmo tratamento ao propagar o currículo do cidadão em questão, no entanto, como se trata do único veículo impresso que ainda assinamos em minha casa, me senti na obrigação de responder .
          A carta é longa, portanto, não será publicada, por isso reproduzo-a abaixo e compartilho, pelo menos com vcs, minha indignação.  
    Grande beijo a todos, Márcia Bassetto Paes


    SR. MINO CARTA
    DIRETOR DE REDAÇÃO
    REVISTA CARTA CAPITAL

    Caro Sr. Mino Carta,


    Antes de entrar no assunto que me motivou a escrever, quero parabenizar a toda a equipe da Carta Capital e ao senhor pelo excelente trabalho jornalístico ao longo desses anos e agradecer, particularmente, a postura séria e transparente adotada na cobertura das eleições. Acompanhei, estarrecida, os atos persecutórios da vice-procuradora-geral eleitoral Sandra Coureau e, com admiração, a forma como o senhor enfrentou e provou o quão absurdas eram as acusações.

    Faço questão de frisar, ainda, que Carta Capital é a única publicação impressa que assinamos em minha casa e recomendamos, eu e meu marido, aos amigos e todos aqueles que prezam o jornalismo de qualidade.

    No entanto, me chama atenção a matéria “Servidor do Estado – Romeu Tuma, exemplar responsável e muito competente” publicada na edição de 03 de novembro em referência ao falecimento desse senhor. Sinto na obrigação de expressar o meu espanto com o equívoco de algumas informações e omissão de outras.

    A matéria se refere a esse senhor como tendo “atuado no DOPS ainda sob as ordens de Sérgio Paranhos Fleury, na qualidade de “analista de informações” (com aspas na publicação), em plenos anos de chumbo, Romeu Tuma participou do combate às organizações de esquerda”.

    O artigo, mais à frente, afirma ainda que “sempre se declarou contra a violência, e expressamente a proibiu desde sua nomeação à chefia do DOPS em 1977”.

    Ao longo destes anos, tenho lido em vários veículos de comunicação referências equivocadas ao período que Romeu Tuma esteve no comando do DOPS. Porém, o fato da Carta Capital incorrer nos mesmos equívocos, me obriga a testemunhar a respeito.

    Fui presa, junto com Celso Giovanetti Brambilla e José Maria de Almeida, na madrugada de 28 de abril de 1977. Na época éramos militantes de uma organização clandestina, trabalhávamos em indústrias metalúrgicas e morávamos em São Bernardo do Campo. Estávamos em plena ditadura e a falta de liberdades democráticas e a supressão do Estado de Direito eram o combustível que nos impelia a fazer parte de uma organização que lutava pelo restabelecimento da democracia. Tínhamos eu, 20, Zé Maria, 19, e Celso, 22 anos.

    No momento da prisão distribuíamos panfletos que aludiam ao 1 de maio, data histórica de conquistas sociais pelos trabalhadores, e chamávamos a atenção ao fato do Brasil estar vivendo sob total falta de liberdades democráticas.

    A prisão aconteceu por volta da 01 da manhã (distribuíamos panfletos para o turno da noite) quando fomos abordados e presos por policiais militares que nos encaminharam para uma delegacia em Ribeirão Pires. Depois de sumariamente interrogados, fomos algemados e colocados na “gaiola” de um camburão. Os mesmos policiais militares rodaram conosco por muitas horas, dando a entender que não sabiam onde nos levar. Percebemos que havia um conflito nas orientações recebidas pelo rádio, ora nos encaminhavam ao DOPS ora ao DOI CODI. Finalmente fomos, por volda das 06h00 da manhã, deixados no DOPS. Após rápida identificação fomos levados às salas de torturas e barbaramente torturados por vários dias.

    Tivemos a incomunicabilidade decretada por dez dias e depois prorrogada por mais dez e o enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Nos últimos dias de incomunicabilidade foram administrados tratamentos médicos para que lesões, hematomas, feridas e outras marcas de tortura fossem amenizadas e assim pudéssemos ser apresentados aos advogados e familiares. Procedimentos que pouco valeram a Celso Brambilla que sofreu perda da audição total em um ouvido e parcial em outro, em conseqüência das torturas e maus tratos.

    A indecisão da polícia militar em saber qual seria nosso destino, se devia à uma disputa de poder que se dava naquele momento entre os dois órgãos de repressão. Tal fato levou à que o então Diretor da Divisão de Ordem Social Sérgio Paranhos Fleury enviasse memorando de esclarecimento, com data de 30 de abril, ao “ILMO. Sr. Dr. Diretor do Departamento Estadual de Ordem Política e Social Romeu Tuma” (sic no documento em questão), relatando as atrapalhadas das polícias Militar, Civil e Exército. Anexado ao memorando constava um relatório do então Delegado Adjunto da Divisão da Ordem Social Luiz Walter Longo (os memorandos hoje constam do Arquivo do Estado e referem-se às cópias em anexo 01, 02 e 03). O mesmo memorando culpa a confusão entre esses poderes pelo vazamento da notícia à imprensa. Fato que não é verdade, pois a denúncia à imprensa foi empreendida pelos meus companheiros de organização que denunciaram as prisões ao DCE da USP e convocaram uma mobilização contra as prisões.

    A hierarquia do DOPS naquele ano de 1977 e no caso da equipe que investigou meu caso, como atestam os documentos em anexo, era a seguinte:

    1. Na base: Sr. Luiz Walter Longo - chefiava a equipe de investigadores que torturaram a mim, ao Celso Brambilla e ao Zé Maria, tendo, inclusive participado de várias seções; que se reportava ao

    2. Intermediário: Sr. Sérgio Paranhos Fleury: desceu várias vezes aos porões para ver in loco como iam os “interrogatórios” e, inclusive, ia chegar no período de tratamento, as condições para sermos apresentados em público, que se reportava ao
    3. Sr. Romeu Tuma.

    Portanto, é falsa a afirmação que Romeu Tuma “atuou no DOPS sob as ordens de Sérgio Paranhos Fleury, na qualidade de ‘analista de informações’ “. Ele era o Diretor Geral, superior a Sergio Paranhos Fleury.

    É possível, ainda, resgatar nos Arquivo do Estado, a relação de presos emitida no dia 29 de abril de 1977 (documento também em anexo). São exatamente 20 presos, sendo 13 estrangeiros acusados de estarem ilegais no País, os outros 7, presos para “averiguações”, dentre os quais figurávamos eu, Celso Brambilla e Zé Maria. Este documento fora assinado pelo sr. Amadeu Marastoni, então Guarda das Prisões (carceireiro) que presenciou, inúmeras vezes, o traslado dos presos das celas para as salas de tortura (saíamos mais ou menos andando e voltávamos, a maioria das vezes desacordados, ensangüentados e arrastados).

    Pergunto:

    1. Que tipo de Diretor “muito competente” é esse que recebe de um subordinado um memorando relatando uma enorme confusão envolvendo o departamento da Secretaria de Segurança Pública ao qual dirige, o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) órgão subordinado ao Exército e a Polícia Militar do Estado e não procura saber de quem e do que se trata (quando foi formalizado esse memorando, em 30 de abril, estávamos há 2 dias sendo torturados quase que ininterruptamente)? Obs: Romeu Tuma sempre afirmou que não sabia das torturas.

    2. Como pudemos ficar 3 meses presos no DOPS até sair a ordem de transferência para o presídio especial, sob regime de prisão preventiva, torturados por mais de dez dias, sendo que um dos presos ficou surdo e precisava de atendimento médico especializado, sem que este “Servidor do Estado, exemplar responsável” tomasse conhecimento?

    3. Que competência é esta que desconhece o que se passava em um estabelecimento não muito grande, como eram as dependências do DOPS, sem revestimento acústico nas salas de tortura, com apenas 20 presos sob sua guarda, sendo 3 acusados de “ligações subversivas internacionais com o intuito de tomar o poder” - acusação bastante séria e passou batido pelo Diretor Geral?

    4. E, ainda, se fosse verdade que Romeu Tuma era contra a violência e “expressamente a proibiu desde a sua nomeação à chefia do DOPS em 1977” então ele não passava de um incompetente na Direção daquele Departamento, pois suas ordens de nada valiam, pois a tortura era praticada sob seu bigode.

    Acrescento, inclusive, que meu advogado Idibal Piveta (esse sim competentíssimo), moveu processo quando estávamos sob regime de prisão preventiva contra 4 investigadores e o delegado Luiz Walter Longo, identificados por mim e Celso Brambilla, por prática de torturas, e como esse “exemplar cidadão” desconhecia esse processo contra subordinados?

    Estas prisões tiveram enorme repercussão na sociedade como um todo. Aconteceram inúmeras passeatas e manifestações de estudantes em todo Brasil, com repercussão internacional. Artistas promoveram uma jornada pela anistia e fim da tortura, em São Paulo, em maio daquele ano, quando todos os teatros abriram gratuitamente suas portas. Um curta produzido por estudantes da Faculdade Medicina e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – O Apito da Panela de Pressão - documentou as manifestações da chamada ‘geração 77’.

    Graças a essas mobilizações estou aqui hoje para contar essa história. Se eu e meus companheiros dependêssemos desse “Servidor do Estado”, estaríamos fazendo parte das estatísticas dos mortos pelas torturas.

    Estas ponderações deduzem que, no mínimo, o sr. Romeu Tuma deveria ser acusado de omissão.

    Por isso se faz tão necessário o levantamento dos responsáveis pelas torturas e mortes que aconteceram nos anos da ditadura militar, bem como a revisão da Lei da Anistia. Igualmente necessário avaliar seriamente a proposta do juiz Baltasar Garzón de criação da Comissão da Verdade, para investigar crimes da ditadura militar e a abertura dos arquivos de torturas e desaparecimentos.

    Concordo também com a idéia de que é à sociedade e ao Judiciário que competem dar impulso maior para que o Legislativo crie a Comissão da Verdade e assim assente a primeira pedra numa reconciliação nacional verdadeira.

    Muitos relutam e relutarão em abrir essa discussão, afirmando que é questão fechada. No entanto ela está viva e respira . Foi colocada, despudoradamente, pela campanha de José Serra, na mesa do jogo eleitoral, nas acusações contra Dilma Rousseff. Milhares de e-mails e mensagens acusando a candidata de terrorista foram replicados nas redes sociais. Acusações que há um ano atrás jamais poderíamos supor que tivesse o aval do candidato Serra. Muitos jovens de 17, 18, 20 anos passaram a argumentar que não votariam em terrorista sem ter idéia do que estavam falando e a que período da história do País se referiam. Estes jovens já demonstram o quão é absolutamente necessário ler essa página da nossa história para entendê-la e passá-la a limpo.

    Peço desculpas por ter me alongado tanto nas digressões a respeito desse caso. Se o artigo em questão tivesse sido publicado em qualquer outro veículo da grande mídia não teria me estendido em tantos pormenores. Como se trata da Carta Capital, me senti na obrigação moral de fazê-lo.

    Atenciosamente,

    Márcia Bassetto Paes

    São Paulo, 03 de novembro de 2010.

    Tuma: mais um que morre sem ser condenado pelos crimes durante a ditadura

    Romeu Tuma, integrante do Dops durante a Ditadura Militar
    Senador engrossa a lista dos que não poderão mais ser julgados por seus crimes
     Diego Cruz, da redação
    • Morreu nesse dia 26 de outubro o senador Romeu Tuma (PTB-SP), aos 79 anos de idade. O senador estava internado há 59 dias no hospital Sírio-Libanês, com insuficiência cardíaca. Mesmo doente, porém, seu partido o manteve na disputa para a reeleição. No entanto, mesmo sobrevivendo, Tuma estaria fora do Senado, já que ficou apenas em quinto lugar na votação.

    Tão logo o senador morreu, políticos de todas as matizes saíram a público para lamentar a “perda”. De Lula ao senador Demóstenes Torres (DEM), todos elogiaram o político que se notabilizou como delegado antes de ingressar na vida política, nos anos 1990.

    A verdade, porém, é que morreu um dos maiores símbolos da ditadura militar no Brasil (1964-1985). E a notícia ruim: morreu sem ser condenado por seus crimes, engrossando uma lista de torturadores impunes que não poderão mais ser julgados.

    Comandando a tortura
    Apesar de ter entrado na polícia ainda em 1951, aos vinte anos, a carreira de Romeu Tuma deslanchou quando, em 1969, foi atuar no Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social). Durante o período mais violento da repressão, atuou ao lado do delegado Sérgio Fleury, um dos mais brutais torturadores e conhecido por ter atuado diretamente no assassinato de diversos militantes políticos, incluindo Marighella.

    A partir de 1975, Tuma assume o comando do Dops. Ele dirige o órgão até a sua extinção, em 1983, quando é transferido para a direção da Polícia Federal. Durante todos esses oito anos, é Tuma quem dirige o departamento de combate aos militantes e organizações de esquerda. Apesar de negar ter tomado conhecimento dos crimes cometidos nos porões do órgão que comandava, ativistas presos atestam que o delegado articulava as investigações e funcionamento da repressão.

    Na política
    No decorrer dos anos 80, Tuma se beneficia com uma série de realizações da Polícia Federal, entre elas a identificação da ossada do nazista Josef Mengele, que tem repercussão internacional. No início dos ano 90, em pleno governo Collor, acumula as direções da Polícia Federal e da Receita. No entanto, o delegado cai junto com o governo, indo encontrar abrigo como secretário do governo Fleury em São Paulo.

    Aproveitando do prestígio acumulado durante sua estadia na Polícia Federal, Tuma se elege senador pela primeira vez em 1994, pelo PL. Logo depois vai para o PFL, onde disputa a prefeitura de São Paulo em 2000. Em 2006, vai de mala e cuia para a base do governo Lula, encontrando guarida na legenda do PTB, comandada pelo Roberto Jefferson, da época do mensalão.

    Mesmo longe da polícia, Tuma, ou delegado Tuma como era conhecido, sempre recorreu aos símbolos da repressão para angariar votos. Mesmo nessas últimas eleições, seu sua marca era uma estrela de xerife.

    Impunidade
    A morte de Tuma expõe a dramática impunidade que impera no país após a ditadura. Com a lei da Anistia, aprovada em 1979 durante o governo do ditador Figueiredo, os torturadores se viram livres de qualquer ameaça de julgamento por seus crimes. Muitos deles, como o próprio Tuma, dedicaram-se à vida política.

    E agora, com o passar dos anos, esses criminosos estão morrendo e sendo enterrados com honras de Estado, quando muitas de suas vítimas nem ao menos tiveram direito a um enterro. Em abril passado a OAB pediu ao STF a revisão da Lei da Anistia, mas o Supremo negou o pedido, perpetuando a impunidade aos torturadores. Ao mesmo tempo, o governo se nega a abrir os arquivos da ditadura, mantendo boa parte da história encoberta.

    E enquanto isso, esses criminosos vão morrendo sem qualquer tipo de julgamento e punição, mantendo uma mancha na história do país.

    LEIA MAIS
  • O STF e a impunidade dos torturadores






  • Adeus, Teresa

    Eduardo Almeida Neto, da Direção Nacional do PSTU e editor do Opinião Socialista 

    • Morreu um dos símbolos do PSTU. Na madrugada de 28 de setembro, uma embolia pulmonar levou Teresa Bastos no Rio de Janeiro. Militava desde 1982, sempre emotiva, sempre apaixonada. Teresa passional. Teresa irreverente. Teresa.

    Com ela se foi uma parte da vanguarda que dirigiu as grandes greves bancárias da década de 80. Grandes assembléias, o centro do Rio fervilhando com piquetes.

    Lá se foi um dos dirigentes que souberam manter o partido na cinzenta década de 90, quando tantos pararam de militar. Muitos quadros importantes do partido de hoje foram formados por ela.

    Há seis anos descobriu que tinha esclerose múltipla. Estava condenada por uma doença neurológica degenerativa, que pouco a pouco lhe tirava os movimentos. Logo ela, uma agitação permanente.

    Veio a parte mais triste. Cada mês com menos força e coordenação motora. Já não conseguia andar, passou a usar uma cadeira de rodas. Mas existe uma beleza escondida no fundo da tristeza. Ela seguiu fazendo o que podia pelo partido até seus últimos dias. Seguia e seguia... Teresa brigona. Teresa.

    Lembro do ato de aniversário dos 15 anos do partido no Rio. Ela foi ovacionada sentada em sua cadeira de rodas. Os olhinhos brilhavam.

    Nesse mundo capitalista, valores como a dignidade e a moral viraram raridade. A força demonstrada por Teresa para enfrentar a doença veio mostrar a todos que a dignidade é possível. A solidariedade incansável de Zeca, seu companheiro, lembrou como a moral proletária é necessária.

    O Rio teve uma manhã cinzenta, em plena primavera. Parecia um sinal de respeito com o funeral. Ao redor do caixão, velhos militantes sem vergonha por ter lágrimas nos olhos. Outros que já não militam ou que militam em outros partidos. Gente nova que a conheceu já na doença. Teresa os juntou pela última vez.

    Fala Elisia, antiga companheira. Lembra de sua última reunião há menos de uma semana. Teresa estava preocupada com a greve geral na França. Cyro mostra o presente que comprou em uma viagem para ela. Faz questão de entregar, mesmo com atraso. É uma caixinha de música, dessas que se gira uma manivela e toca a Internacional. Zeca fala em nome de todos nós. Mais que um companheiro. Um gigante, frágil pela perda.

    Os funerais têm seus símbolos. Os religiosos têm suas orações. Os militantes têm punhos para o alto, a bandeira do PSTU estendida sobre o caixão. A homenagem dos que seguem na luta que foi a vida da que se foi.

    Um partido não é somente seu programa, sua política, seus estatutos. O partido é feito também de suas tradições. Teresa morreu. Agora, sua dignidade e seu exemplo moral são partes das tradições do partido que ajudou a construir.

    Companheira e amiga Teresa, presente!


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