O fenômeno Freixo e a luta pelo socialismo



O fenômeno Freixo e a luta pelo socialismo
Esse artigo nasceu da necessidade de realizarmos um debate franco e aberto com vários ativistas, independentes ou do PSOL, que lutam pelo socialismo e hoje depositam suas expectativas no grande apelo de Marcelo Freixo. Respeitamos muito sua trajetória como militante pelos direitos humanos e sua atuação a frente da CPI das milícias, mas nem por isso hesitaremos em fazer uma polêmica dura e sincera com o candidato do Psol. Somos da tradição que consideramos muito frutíferos os debates sinceros e honestos, sem subterfúgios e calúnias, entre a esquerda. Esse debate tem por objetivo ser um ponto de apoio para debatermos qual programa precisamos defender no Rio janeiro para derrotar Paes e o projeto do capital.

O que expressa a totalidade dos votos de Marcelo Freixo?
Marcelo Freixo, do PSOL, candidato à esquerda da frente popular apresenta intenções de votos acima dos 15%, quadro que deve se confirmar até domingo. Este fenômeno eleitoral apresenta inúmeras contradições. Muitos afirmam que a dimensão da candidatura de Marcelo Freixo expressa um passo importante na luta dos trabalhadores e jovens em busca da ruptura com o capitalismo na perspectiva de luta revolucionária pelo socialismo. Não acreditamos nessa afirmação. Freixo é um fenômeno eleitoral e midiático forte e quanto fenômeno eleitoral não é fruto de uma mudança na correlação de forças entre as classes na nossa cidade. Apesar do numero de votos, esses votos não expressam um apoio da classe trabalhadora as transformações profundas na sociedade nos rumos do socialismo.
Esta campanha não reflete com força as principais lutas e enfrentamentos de classe do último período (bombeiros; greve da educação; campanhas salariais; luta contra as remoções), muito menos se construiu por um ascenso da lutas de classes, nem atrai o conjunto dos trabalhadores, em especial, a classe operária. O que é demonstrado, principalmente, pela afirmação pública de Freixo dizendo que depende da situação para que seu governo corte o ponto dos grevistas. Afirma ainda que não existirão greves em seu governo. Tal fato é impossível, pois significaria que a resolução de todos os problemas sentidos pelos trabalhadores se dá pelo seu governo e não pela luta direta da classe trabalhadora.
A força de Freixo não é produto da luta dos trabalhadores contra a burguesia. É um fenômeno restritamente eleitoral e midiático que tem como base sua superexposição na mídia (tropa de elite 2, a cobertura da grande imprensa, relação com artistas etc), sua atuação na ALERJ e o enfraquecimento da direita. Sendo assim, seus votos são a totalidade dos votos da oposição a Paes.

As origens e limites do crescimento eleitoral de Freixo
Há uma contradição no crescimento eleitoral de Freixo. Ao mesmo tempo em que é pautado no rebaixamento programático, é limitado pela força da frente popular. E daí decorre que não adianta o quanto se rebaixe o programa, seu crescimento eleitoral esbarra na força política da frente popular encabeçada por Eduardo Paes, mas sustentada pelo PT e PCDOB. Estes dois partidos, hoje, dirigem o movimento de massas e o conjunto dos trabalhadores. Aí reside a fortaleza política de Paes onde Freixo não consegue entrar.
Pela fragilidade de uma alternativa forte da direita, que está frágil desde as disputas escandalosas entre Cesar Maia e Garotinho, e que não encontrou apelo com Otavio Leite - de um PSDB em frangalhos - e muito menos com a Aspasia - figura de pouca expressão do PV - Freixo se consolida como única figura viável aos votos de oposição a Paes.  Os votos em Freixo são tanto os a esquerda de Paes, quanto os a direita, já que não há um programa claro sendo defendido em sua campanha. Não é ao acaso o apoio da Andrea Gouvea Vieira, renomada socialite e vereadora do PSDB, que: ou significam um giro a direita no programa do PSOL ou uma concordância desta representante da FIRJAN e da burguesia carioca com o “socialismo” cidadão e republicano pregado por Freixo.

A base de sustentação e os rumos estratégicos da campanha do PSOL
Freixo atrai muitos jovens, alguns setores dos trabalhadores e a classe média, a partir de um programa mínimo de enfrentamento com Paes e uma revisão -e não ruptura- do atual projeto do capital para a cidade do RJ. Atrai cada dia mais setores pelo rebaixamento programático e pela adequação ao discurso da viabilidade. Não faz uma campanha balizada no classismo, muito menos, na perspectiva de ruptura para o socialismo. Admite a governabilidade com o capital e a possibilidade de humanização das relações capital-trabalho repetindo velhos erros do PT.
Como ele mesmo diz, está disputando uma eleição não liderando uma revolução. Há algo nocivo nisso. Tudo que ele diz educa a atual geração de jovens, que fecham com ele, ao reformismo e o respeito a ordem acima de tudo. Freixo educa os que o apoiam ao projeto da viabilidade; de que é possível melhorar o sistema por dentro e sem um luta tenaz da classe trabalhadora – conceito que parece ter abolido. Não basta encantar os jovens e trazê-los ao mundo político se não for sob a perspectiva socialista e revolucionária. A campanha do PSOL é clara: afirma que para resolvermos os problemas da cidade precisamos apenas de vereadores éticos, republicanos e preocupados com o Rio de Janeiro.
Não adianta aglutinarmos milhões se a razão para isso não for construir uma perspectiva revolucionária real a partir dos problemas mais elementares sentidos pelos trabalhadores e jovens. Quanto fenômeno eleitoral reformista, Freixo reforça a confiança no próprio regime democrático-burguês, como fica claro no trecho abaixo:“A relação com a Câmara de Vereadores, no nosso governo, vai deixar de ser uma feira de cargos e benefícios pontuais, para recuperar a sua condição de “Parlamento”. De “Gaiola de Ouro” queremos ajudar a Câmara Municipal a retomar a denominação de “Casa do Povo”, lugar dos grandes debates e da cultura política da Cidade;” - Governabilidade sem subserviências e clientelismos. Fone:http://www.marcelofreixo50.com.br/programa/198-governabilidade-sem-subserviencias-e-clientelismos.html Acessado em 01/10/2012.
Muitos nos chamam de utópicos. Mas utópica é essa perspectiva de que é possível reformar e aperfeiçoar as instituições dos ricos. Essa ideia não é nova e remonta ao século XVIII. Temos uma escolher a fazer: ou mudamos a estrutura da sociedade e seu regime político, portanto, as suas instituições a partir de uma revolução social ou novamente a esquerda será tragada pelos palácios, gabinetes e negociatas cumprindo o papel de administrador dos interesses do grande capital com a aparência mais humana como o PT, por exemplo. Nós fizemos a nossa escolha: com a palavra o Psol.

O Programa do PSOL: de generalidades à concessões ao capital!
Os rumos estratégicos do PSOL apresentados acima estão condensados no atual programa apresentado para as eleições cariocas. Trata-se de um programa reformista que intercala generalizações com concessões ao grande capital para garantir a governabilidade. Não é um programa igual ao do PT atualmente, mas que se levarmos as últimas consequências guarda similaridades. As pequenas mudanças, no sentido do que é possível fazer num governo sem nenhuma mudança estrutural, lembram as transformações pelo qual passaram o programam do PT ao longo da década de 90 até ficar completamente desfigurado.
No terreno candente da educação se limita ao aumento gradativo de verbas, “auditar todos os contratos com empresas privadas que apresentarem suspeitas de malversação”, mas não diz uma linha sobre o ensino privado que aprofunda as desigualdades sociais colocando uma disjuntiva entre a educação para os ricos e a educação para os pobres. Para os transportes não propõe acabar com as concessões dos transportes dando fim a máfia da fetranspor, defende “Criar imediatamente o Fundo Municipal de Transportes e realizar estudos e planejamentos para a criação de novas categorias de tarifa. Mais do que aumentar o tempo do bilhete único, é possível implementar descontos para usuários mais frequentes que não recebam vale-transporte, tarifas especiais para grandes eventos, entre outras idéias que podem ser desenvolvidas a partir de um domínio público sobre os fluxos financeiros do sistema”. Ou seja, pretende conciliar a concessão privada com tarifas subsidiadas com o dinheiro público a partir da criação de um fundo municipal.
O que mais preocupa, entretanto, é sua proposta de “Definir diretrizes claras e criar um ambiente de segurança jurídica para empreendedores de todos os tamanhos, sem privilégios”. Aqui parece que a questão da desigualdade do sistema capitalista está no fato dos privilégios que os governos dão aos grandes empreendimentos em detrimento dos pequenos. Para reverter a atual dinâmica do capital se trata de igualar as oportunidades para a pequena e a grande burguesia? Acreditamos que não. Na verdade, se trata de fazer um governo dos trabalhadores atacando o lucro da grande burguesia que goza da riqueza social produzida pelos trabalhadores. A dúvida maior é o que significa: “Criar condições para fazer do Rio um verdadeiro pólo tecnológico global: integração com o Pólo do Fundão, laboratórios da UFRJ, empresas empreendedoras e segmentos industriais de alta tecnologia que quiserem se instalar na cidade”? Criar condições para o desenvolvimento de indústrias de alta tecnologia? Como criará essas condições? Isenção fiscal? Financiamento público? Redução de direitos trabalhistas? Nenhuma afirmação a respeito dessas generalidades. As escorregadas à direita seguem com a Auditoria da dívida pública, a defesa da UPP social, a privatização do saneamento na zona oeste, etc.

A frente de esquerda no RJ e a viabilidade dos revolucionários nas eleições
É duro dizer isso, mas, na situação atual que vivemos, os revolucionários aparecem de fato como inviáveis. E não há atalho para a revolução. Aqui não se trata de sermos derrotistas ou fatalistas. Participamos das eleições e temos muito orgulho da campanha que fazemos, buscando incessantemente o voto de cada trabalhador e estudante para o programa socialista que apresentamos. Nestas eleições, em Belém e Natal, o PSTU fará uma votação bastante expressiva. Temos o fenômeno Amanda Gurgel que está entre as candidatas mais citadas nas pesquisas eleitorais para a vereança de Natal. E em Belém a partir de um grande trabalho de base e presença nas lutas da construção civil teremos uma boa votação com o Cléber Rabelo. Além disso, em Aracaju, a partir da frente de esquerda com o PSOL, Vera Lucia do PSTU, atinge 7% para prefeita. Estes fatos demonstram, principalmente, que é possível termos um bom resultado eleitoral sem rebaixar o programa e apontando a perspectiva de uma mudança radical na sociedade.
O papel dos revolucionários nas eleições burguesas, na atual conjuntura, é apresentar para as massas que a resolução de seus problemas mais elementares para necessariamente pela ruptura com o capitalismo e a construção do socialismo. Os reformistas enxergam que há um grande problema nisso que é o fato de hoje o “socialismo” não dar voto e disso não temos medo.  
É sabido por todos que queríamos apresentar nossas posições de dentro de uma frente eleitoral com o PSOL no rio de janeiro. O PSOL não só recusou qualquer tipo de debate programático como vetou a frente na proporcional. Sem debate programático a frente seria estéril. Seria uma adesão ao programa do PSOL. Com a negativa da frente na proporcional se expressou ainda com mais força as intenções do PSOL: queriam adesões a campanha do Freixo e não frente política. Talvez poucas coisas sejam tão nocivas a esquerda quanto a arrogância. E esta característica psicológica do reformismo pequeno burguês, na atual campanha eleitoral, cada dia que passa, só cresce.