Temos projetos muito diferentes - Uma polêmica com a candidatura de Tarcísio Motta do PSOL

PSTU-Rio

Tarcísio no encontro promovido pela Fecomércio;
Foto:  Maíra Coelho / Agência O Dia.
     Fomos surpreendidos com a entrevista (26/08/2014) do candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro pelo PSOL, Tarcísio Motta, promovida a Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio) em parceria com o Senac e apoiada pelo O Dia. Está certo que PSTU e PSOL sempre tiveram muitas polêmicas, mas também é verdade que tocamos muitas lutas juntos. No entanto, desta vez o candidato do PSOL ultrapassou de forma clara as fronteiras de nossa classe.
     Não se trata de picuinha entre a esquerda, mas sim de uma polêmica fraterna e ampla sobre as tarefas de um governo dos trabalhadores no Rio de Janeiro.
     Segundo o jornal O Dia, o candidato disse que a Fecomércio é também um movimento social e que pretende ouvi-la para governar: “A Fecomércio é, também, um movimento social. E queremos ouvir este e os outros movimentos”.  Um absurdo! A Fecomércio é uma federação de sindicatos patronais. Representam os interesses dos megaempresários do ramo hoteleiro e varejista. É o oposto dos movimentos sociais que buscam organizar os trabalhadores e o povo pobre para lutar contra a exploração e a opressão feita pelos empresários e governos. O presidente desta entidade é amigo íntimo de Cabral e durante o seu governo houve uma série de trocas de favores entre eles. É sério que a proposta é governar ouvindo este setor burguês?
     Tarcísio criticou as UPPs não pelo fato deste projeto significar a militarização de territórios e a violência policial sobre os moradores, mas pelo fato das UPPs não serem universais e os PMs serem mal preparados. “A UPP nunca vai ser uma política de segurança universal. Ela foca em um lugar e abandona o outro”. Exatamente a mesma política defendida insistentemente pelo deputado Marcelo Freixo. Logo, não só deve-se manter, mas também ampliar as UPPs. A mesma que sumiu com Amarildo na Rocinha. O PSTU defende categoricamente o fim das UPPs e a desmilitarização da polícia militar.
     No tema da economia disse que as isenções fiscais não podem ficar apenas para os amigos do governador, mas devem ser ampliadas para aquelas empresas que geram mais empregos. “O sistema atual atingiu o pequeno e médio empresário e temos que desonerar este empreendedor, que gera mais emprego e desenvolvimento sustentável. Não pode haver isenção apenas para amigos do governador”. Ou seja, defende continuar dando dinheiro público aos empresários por meio de isenções fiscais? Inaceitável para um militante socialista.
     Sobre os megaeventos afirmou que a proposta dele é criar condições para que a cidade sedie os eventos e usufrua destes. “O governo quer que a população saia da cidade durante os megaeventos, e nós queremos criar condições, de fato, para que a cidade sedie estes eventos e se beneficie deles. O grande resultado econômico esperado na Copa não aconteceu”. O candidato nem mesmo expressou a crítica acumulada pelos movimentos sociais, de que a Copa promoveu remoções forçadas de milhares de famílias e criou uma legislação própria para garantir o lucro dos patrocinadores. O PSTU considera que qualquer megaevento promovido pelas empresas privadas nacionais e multinacionais não pode dar o “resultado econômico esperado”, mas apenas lucro e repressão. 
     Tarcísio denuncia a dívida pública afirmando que beneficia os grandes empresários e não garante saúde e educação, mas como proposta defende um desenvolvimento integrado. “A gente começa o ano com o orçamento todo comprometido. Este modelo não se sustenta mais. Precisamos de um modelo integrado de desenvolvimento”. O que seria isso? Garantir os lucros dos empresários, mas também garantir saúde e educação? Isso é possível? O PSTU defende a ruptura da Lei de Responsabilidade Fiscal imposta pelo FMI aos estados e munícipios e o não pagamento da dívida aos credores nacionais e estrangeiros. Só assim haverá dinheiro para saúde, educação, moradia e transporte.
     A conclusão é um programa que repete os erros do PT com propostas de governar junto com os empresários. Um projeto de desenvolver um capitalismo "mais humano", como se isso fosse possível. Qualquer tipo de governo que se proponha governar para todos, está disfarçadamente governando para os ricos e dando migalhas populistas aos pobres. A resposta ao programa de Pezão, Garotinho, Lindberg e Crivela não pode ser uma conciliação entre os interesses dos trabalhadores e patrões, mas sim um governo dos trabalhadores sem patrões!
     A pior declaração de Tarcísio em toda a entrevista foi sua súplica para conquistar a confiança da burguesia da Fecomércio: “Não sou um bicho de sete cabeças e não mordo. Precisamos chamar as pessoas para trabalhar junto conosco”.
     A entrevista não é um raio em um céu azul. Pelo contrário, caminha no mesmo sentido do PSOL em nível nacional, que pegou dinheiro da empresa Zaffari (maior rede de supermercados do Rio Grande do Sul); e Heloísa Helena, que está com o apoio informal do PSDB em Alagoas com a justificativa de derrotar Collor de Melo.

Reforma e revolução são caminhos bem diferentes e na verdade contrapostos.
     Bem, das duas uma: Ou o jornal O Dia mentiu sobre o que falou o candidato ou o candidato defende de fato essas propostas. Até o momento não vimos nenhuma declaração oficial do PSOL ou do candidato a respeito da possível manipulação do O Dia. Se já a fizeram oficialmente retiramos este artigo e nos desculpamos, e estaremos juntos denunciando a manobra dos meios de comunicação e da Fecomércio.
     Com todo respeito ao PSOL aguardamos um posicionamento.
     Saudações socialistas, PSTU.

Segue o link da entrevista:
http://odia.ig.com.br/eleicoes2014/2014-08-26/candidato-do-psol-chama-de-fast-food-policiais-de-upps.html