Anarquismo e Marxismo, o debate segue

Por Susana Gutierrez, diretora do SEPE e dirigente do PSTU 
  
Lemos com atenção o artigo do professor doutor Wallace dos Santos de Moraes intitulado de “As reais diferenças entre os Black Blocs e o PSTU” e achamos importante aprofundar o debate de algumas questões levantadas pelo professor. Partiremos primeiro de nossos acordos: o Estado é fonte inesgotável de opressão e repressão contra seus inimigos e está a serviço de uma determinada classe social. Marxistas e anarquistas coincidem também na eliminação e destruição desse Estado e a construção de uma sociedade auto-organizada de produtores livres.

Um segundo acordo é a caracterização dos Black Blocs do Rio de Janeiro como uma frente heterogênea, onde convivem organizações anarquistas, ativistas independentes (talvez a maioria) e até partidos que se reverenciam pelo “presidente Mao Tse Tung”. Enfim, todos unidos contra a repressão policial, Sérgio Cabral, Eduardo Paes, entre outras bandeiras.

Infelizmente, nossos acordos terminam por aqui.
  
Sobre a greve da educação: profissionais da educação e população juntos na luta contra Paes e Cabral 
  
Para o PSTU a greve da educação no Rio de Janeiro foi histórica, não pela sua derrota como parece opinar o professor doutor Wallace dos Santos, mas sim pela sua vitória. Cabral e Paes saíram deste processo em frangalhos, e a categoria dos profissionais da educação municipal se reencontrou com a luta e com ela mesma. Redescobriram-se enquanto classe e identificaram seus inimigos.

Quem tomou as decisões sobre os rumos da greve da educação foram os próprios profissionais da educação. A isso chamamos de democracia operária.

Muito mais que o reajuste total de 15% conquistado ou o fim da portaria que permitia a remoção forçada de profissionais que não aceitassem as ordens das direções das escolas, o maior ganho dessa greve foi a recuperação da confiança da categoria. Passamos 19 anos sem greve e, agora, nos sentimos dispostos a encarar quem quer que seja.

Apesar do ataque à categoria através do PCCR de Paes e Costin, nenhum profissional da educação retornou a escola de cabeça baixa. Nossa luta levou a população às ruas em defesa da educação. E, hoje, o prefeito carrega um enorme desgaste. Nenhuma campanha eleitoral vale mais que a força de uma categoria disposta a mudar a sua realidade. Todas as propagandas, os milhões em financiamento de campanha, apoio de Lula, da Dilma e do PT, tudo isso foi posto em cheque com a greve da educação. Hoje, a população sabe qual o caminho para enfrentar os governos. E este caminho é a luta! 

Foto: Paollo Rodajna.
  
Refrescando a memória: a armadilha do STF 
  
A luta do Rio contagiou o país e desencadeou greves em Goiás, Pará, Paraíba, Paraná, Sergipe, Mato Grosso e Tocantins. Diante da nacionalização do movimento e da passeata com 70 mil pessoas nas ruas do Centro do Rio, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, convocou uma audiência de conciliação entre as partes, onde propôs o fim da greve no estado e no município do Rio e, em contrapartida, anularia qualquer punição ou desconto aos educadores em luta, desde que repusessem os dias parados. As reivindicações da categoria, bem como a revogação do miserável do PCCR de Eduardo Paes passaram longe da cabeça do ministro. Nota-se que o STF entrou na disputa, não para intermediar a favor dos educadores como muitos pensavam, mas sim para colocar fim ao movimento e convencer a população de que o governo estava disposto a negociar. 

Após a audiência com o STF veio à tona uma pergunta: o SEPE estava certo ou errado em assinar o acordo? Em primeiro lugar, sabemos que o acordo não contempla nossas reivindicações. A pauta pedagógica não foi atendida e não temos nenhuma ilusão nos GTs da prefeitura. Depois, é fundamental lembrar que o acordo estava condicionado a sua aprovação em assembleia. Por último, esta audiência era mais um capítulo desta luta, que foi acompanhada atentamente pela população. 

Sendo assim, havia apenas duas opções de escolha: ou o sindicato levava o acordo à avaliação em assembleia, ou se retirava da audiência pondo fim à mesa de negociação do STF. Caso a segunda opção fosse tomada, o SEPE não permitiria que a categoria decidisse os rumos desta negociação. E, principalmente, impediria que os grevistas opinassem sobre qual seria a melhor política naquele momento para a disputa da consciência da população carioca. Por isso, opinamos que ao assinar o acordo, o sindicato possibilitou a categoria decidir democraticamente todos os rumos desta greve. 
  
Por que foi correto encerrar a greve? 
  
Foto: Paollo Rodajna
Muitos critérios são considerados para continuar ou interromper uma greve: a conjuntura do país; o atendimento à pauta de reivindicações; a força do movimento; a popularidade do governo; o apoio da sociedade etc. Mas o fator mais importante de todos é a adesão da categoria. Não se pode fazer uma greve sem os trabalhadores mobilizados e com suas atividades profissionais paralisadas. Esse é o critério fundamental. O acordo no STF foi ruim? Sim, foi péssimo. A pauta de reivindicação foi atendida? Não. O governo sabia da retração do movimento. Uma greve que obteve índices de adesão de mais de 80% em seu auge, encontrava-se em um momento limite de sua sustentação. O pior dos cenários seria seguir na greve com pouca força e penalizar a vanguarda com corte de ponto ou inquérito administrativo. 

Quase todas as assembleias regionais do SEPE, com exceção de apenas uma, votou pelo fim da greve. A assembleia geral dividida e polarizada também era um demonstrativo que a greve entrava em uma nova fase. Por tudo isso, sem medo de errar, afirmamos que a decisão de suspensão da greve foi correta. 
  
Sobre o levante de Kronstadt 

Muito nos alegra em fazer o debate nos debruçando sobre a história e a teoria. Já que o professor doutor tomou para si a defesa dos marinheiros de Kronstadt e disparou com suas palavras contra o estatismo de Lenin e Trotsky, optamos em polemizar com a teoria anarquista, para onde parece se inclinar o professor. Não seria de bom grado debater com os maoístas a respeito do caráter feudal do campo brasileiro que só existe em suas férteis imaginações, por exemplo. 

Poderíamos também rebater as acusações contra os bolcheviques nos utilizando de tropeços indeléveis dos anarquistas espanhóis, que ocuparam postos chaves do Estado burguês dirigido pela Frente Popular na Espanha na década de 30. Certamente gritariam: “Não nos representam!”. Tudo bem. Para evitar uma guerra de citações e não cometer injustiças, deixaremos de lado os crimes políticos dos anarquistas durante o século XX, mas não podemos nos calar diante da total incompreensão e superficialidade do professor Wallace sobre o levante de Kronstadt. Trata-se de uma agitação liberal radical que uniu anarquistas, social-revolucionários, mencheviques, a grande imprensa capitalistas, e posteriormente endossada pelos stalinistas. 

Para analisar o levante de Kronstadt, devemos nos debruçar pacientemente em algo que custa muito caro aos anarquistas do século XXI: o seu caráter de classe. As revoluções geram polarizações sociais extremas. De um lado está a burguesia e seus aliados, agarrados em seu aparato estatal em decomposição, que utiliza todas as suas armas militares e ideológicas para manter o status quo. De outro, está o proletariado revolucionário e seus aliados, em uma luta heroica para fazer a roda da história girar. O problema é que os “aliados” de ambos os lados estão permanentemente em disputa e podem se sentir atraídos tanto pela burguesia quanto pelo proletariado. As classes médias, o campesinato e as camadas populares não podem ter um projeto de sociedade próprio. Ficam a mercê das classes sociais principais e suscetíveis a mudar de posição em cada curva da luta de classes. A dificuldade reside justamete na compreensão de que as classes intermediárias podem ser determinantes para ambos os lados imporem seus projetos históricos. 

A luta entre a cidade e o campo não terminou com a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro de 1917. Pelo contrário. Houve momentos em que a revolução foi ameaçada pelos kulaks, que chantageavam o governo revolucionário boicotando o abastecimento de comida das cidades famintas pela guerra civil. 

Os anarquistas agitam uma falsificação onde os bolcheviques supostamente teriam ordenado o fuzilamento daqueles mesmos marinheiros que garantiram a insurreição de outubro. Nada mais falso. O professor da academia afirma que “os bolcheviques, com sua ditadura do proletariado, seu aparato estatal centralista, perseguiram, prenderam e exterminaram os que queriam o aprofundamento da Revolução”. Será? 

A guerra civil na Rússia deixou a composição social e os personagens políticos de Kronstadt totalmente irreconhecíveis. Os valorosos marinheiros de 1917 estavam em outras frentes de batalha contra os brancos em Moscou e na Ucrânia, deixando para trás um espaço ocupado em sua maioria por mercenários especuladores, que usavam da chantagem e da barganha para arrancar benefícios próprios do abastecimento da faminta Petrogrado.  

Se em 1917 e 1918, os marinheiros foram um dos destacamentos mais avançado da revolução, em 1921 Kronstadt era apenas uma caricatura contrarrevolucionária composta por elementos desmoralizados e hostis a ditadura do proletariado. Isso tornou-se evidente quando marinheiros da Latvia e Estônia, desejosos em retonar para suas pátrias burguesas, se uniram a “Frota do Báltico” como “voluntários”. 

O levante de Kronstadt não foi o único episódio dessa natureza antes da consolidação do poder soviético. A hostilidade do campo em alimentar à cidade, por exemplo, promoveu o movimento do anarquista Makhno, que saqueou trens destinados às fábricas e ao Exército Vermelho, e fuzilou comunistas. Tudo isso em nome de “aprofundar a revolução”, quando na verdade se apoiava na burguesia e pequena-burguesia rural contra o “estatismo e o autoritarismo dos bolcheviques”. 

Terminamos essa parte do debate com as palavras do revolucionário russo, León Trotsky: “Somente uma pessoa completamente superficial pode ver nos bandos de Makhno ou na revolta de Kronstadt uma luta entre os princípios abstratos do anarquismo e o “socialismo de Estado”. Na realidade, estes movimentos foram convulsões da pequena-burguesia camponesa que desejava, evidentemente, libertar-se do capital, mas que, ao mesmo tempo, não aceitava subordinar-se à ditadura do proletariado. A pequena-burguesia não sabe concretamente o que quer, e em virtude de sua posição não pode sabê-lo. Essa é a razão pela qual encobriu tão facilmente suas petições e esperanças, ora com a bandeira anarquista, ora com a populista, ora simplesmente com a “Verde”. Opondo-se ao proletariado, tentou, sob todas estas bandeiras, retroceder a roda da revolução”.  Para a infelicidade de muitos, o levante ao invés de atrair a atenção dos trabalhadores da cidade, os repeliu. Logo perceberam que o que estava em jogo era o novo Estado que estavam construindo com tanto sacrifício.  
  
Todos os partidos são iguais?      
               
O autor do artigo citado ainda faz um esforço imensurável para juntar os “líderes dos partidos governistas”, “partidos de oposição” e os “monopólios de comunicação”, todos juntos contra aquilo de ele chama de “ação direta”. Não satisfeito completa: “Todos, embora em aparente e até feroz oposição, almejam os mesmos objetivos: ocupar os palácios de governos, comandar as forças de repressão, ocupar as câmaras e assembleias e ser venerado todos os dias pelos monopólios da comunicação”. Usa inclusive das mesmas acusações de Paes e Cabral contra a direção do SEPE, “aparelhada pelo PSTU, PSOL (determinadas correntes), PT e outros partidos”. O professor universitário tenta resistir em vão, mas cai na tentação de fazer coro com a ideologia reacionária contra os partidos políticos, quando sabemos que essa ideologia perpetua o poder nas mãos do PT, PCdoB, PMDB, PSDB e tantos outros. Provavelmente estava nas ruas em junho gritando “ Sem partido!”. 

De fato, seria mais fácil para o autor colocar um sinal de igual entre todos os partidos, mas para sua infelicidade o PSTU é diferente, e ele sabe disso. 

Tivemos 13 camaradas presos em Bangu em 2011 na visita de Obama ao Rio de Janeiro; fizemos uma campanha de solidariedade classista aos atingidos e desabrigados de Nova Friburgo e região; estivemos juntos com os bombeiros pintando a cidade de vermelho e iniciando ali uma campanha política muito vitoriosa pelo Fora Cabral; no dia 20 de junho de 2013 na avenida Presidente Vargas enfrentamos os neonazistas e defendemos a coluna dos movimentos sociais onde havia muitos anarquistas; na desocupação da Câmara dos Vereadores o professor Gustavo Kelly (militante do PSTU) foi eletrocutado seguidas vezes para defender a categoria e em seguida foi detido; tivemos ainda mais dois militantes presos em Bangu na mesma cela dos companheiros do “Ocupa Câmara”; estávamos juntos com os anarquistas enfrentando o Exército na Barra da Tijuca contra a privatização do leilão do Campo de Libra; e por último, para não molestar a paciência do leitor com inúmeros exemplos, a Convergência Socialista (principal corrente na formação do PSTU) foi reconhecida pelo Estado brasileiro como organização perseguida e reprimida pela ditadura militar. 

Enumeramos essa longa lista de fatos para perguntar ao professor Wallace dos Santos: o PSTU é realmente igual aos demais partidos? O PSTU condena a ação direta e deseja ocupar os palácios de governo como fazem o PT e PCdoB? Poxa, professor, a realidade não se encaixa em seu esquema simplista. A luta de classe é mais complexa do que parece. De fato, temos muitas diferenças, mas talvez a principal seja a forma como fazemos as polêmicas. Com a palavra o professor doutor.