Por Raphael Botelho
Ao chegar, na manhã desta quinta, ao campus do Largo de São Francisco da UFRJ, algo mais que o burburinho cotidiano se esgueirava pelos corredores. O ronronar dos motores dos helicópteros das televisões acima do pátio anunciava que não seria uma manhã costumeira, anunciando a desgraça. Não tardou para inundar o prédio as notícias de um restaurante da Praça Tiradentes, vizinha de nosso local de estudo, simplesmente ter explodido.
Como se adiantava a hora do almoço esperei uma tragédia incomensurável. A praça é um dos principais pontos de circulação do centro do Rio. Localizado antes da famosa Lapa, e depois da Avenida Presidente Vargas, principal artéria do centro. Contam ao seu entorno ruas estreitas que são palco do desfile de multidões diariamente, muitas em busca dos produtos do SAARA (centro de comércio popular). Alguns metros depois, a Avenida Rio Branco, centro financeiro do rio, circulam outros milhares, a qualquer hora do dia. Rota de uma infinidade de linhas de ônibus que levam e trazem para a labuta hordas de trabalhadores. A explosão foi por volta das 7h, e se combinou com o fechamento de um sinal de trânsito. Se fosse uma hora mais tarde, com certeza estaria nas manchetes do mundo todo.
Antes de chegar à praça já pisávamos nos estilhaços de vidros, que horas depois ainda se espalhavam por todos os lados. 3 mortos e 17 feridos. A cena, que não devia nada a qualquer cena de bombardeio dos filmes hollywoodianos de guerra, contrastava fortemente com a recente reforma estética da praça em frente. Nas vezes que comemos lá, embora simples, o local não parecia perigoso. Novamente, as aparências enganam.
Logo começam a surgir algumas perguntas. Essa região do centro é antiga, falta infraestrutura e é conhecida pelos incêndios nos sobrados históricos de dois, três andares, – muito convenientes à especulação imobiliária da região, e aos estacionamentos privados –. Em vez de aproveitar os suntuosos investimentos no Rio para levar afiação elétrica, tubulações de água e gás de qualidade e condizentes com o crescimento da cidade ao centro histórico, a prefeitura preferiu reformar a praça para dar mais calçada aos bares e restaurantes da região.
E que condições de trabalho são essas que permitem a simples possibilidade de uma explosão equivalente a dez quilos de dinamite? Que bares e restaurantes são esses, que constroem a imagem do Brasil festeiro lá fora, e quase sempre sobrevivem à custa da mão de obra super explorada de imigrantes e seus filhos, dos moradores das favelas e da periferia, negros e mulheres que para pagar suas contas, são empurrados a trabalhar em cima de uma bomba relógio? Foi assim com o chef de cozinha Severino Antônio, e o sushiman Josimar dos Santos Barros.
Mas a cena mais chocante viria a ser exibida no final da tarde. Uma câmera da companhia de transportes filmou a terceira vítima fatal, Matheus Macedo de Andrade, indo para o trabalho. O bancário de apenas 19 anos, foi arremessado ao outro lado da rua.
Depois dos bueiros-bomba (dois explodiram a cem metros do restaurante há alguns meses), revelando as condições de manutenção do serviço privatizado de energia, depois da morte de seis pessoas no famoso bondinho de Santa Tereza, revelando a falta de investimento público em transporte, depois dos inúmeros casos de violência onde os algozes são policiais e bandidos, será que Matheus também morreu, fruto do acaso? A cidade do Rio está revelando décadas de descaso com a infraestrutura urbana em detrimento da vida do população. Nenhuma esfera, de nenhum poder é responsável por mais essa catástrofe nos governos da dobradinha Paes no município do Rio e Cabral no governo do estado? Qquando será a próxima?
“E a vida já não é mais vida
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há Estado, não há mais nação
Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais”
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há Estado, não há mais nação
Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais”
“O Calibri”, dos Paralamas do Sucesso.
