A respeito da ruptura das negociações da Frente de Esquerda no Rio

Como é sabido por todos, o PSTU se pronunciou de forma oficial a favor da constituição da Frente de Esquerda para estas eleições de 2014 através do artigo “Um esforço sincero por uma Frente de Esquerda no Rio”.
Afirmamos que “não basta dizer que as diversas opções burguesas não servem e nem podem atender às reivindicações apresentadas nas Jornadas de Junho e na luta cotidiana da classe trabalhadora. Precisamos apresentar uma alternativa da classe trabalhadora. Ou seja, uma candidatura que seja um ponto de apoio às incontáveis lutas dos trabalhadores, se transformando numa plataforma para as reivindicações das greves das diversas categorias, denunciando todas as situações revoltantes a que os trabalhadores são submetidos”. Isto é, colocamos as reivindicações das manifestações que se iniciaram em junho do ano passado como o ponto de partida para a construção de um programa que atendesse a essas expectativas.
Fizemos duas reuniões com a direção do PSOL-Rio para tratar do assunto, mas infelizmente fomos surpreendidos com a negativa dos companheiros em constituir a Frente. Como justificativa, o PSOL alegou que não existe uma Frente de Esquerda em nível nacional, e por isso não se poderia fazer uma Frente no Rio. Além disso, alguns dirigentes do PSOL acusam o PSTU nas redes sociais e nos fóruns do movimento de querer um tempo privilegiado de TV.
Vamos aos argumentos. A candidatura de Randolfe reconhecidamente não representa os anseios das Jornadas de Junho, tampouco defende bandeiras tradicionais da esquerda socialista, como por exemplo, a estatização dos transportes coletivos. A candidatura de Randolfe não unifica nem mesmo o próprio PSOL, onde setores expressivos alegam que a mesma foi votada em um congresso fraudado e tumultuado. É público que existem militantes do PSOL que já declararam apoio às candidaturas presidenciais de Zé Maria (PSTU) e de Mauro Iasi (PCB).
Então, por que exigir do PSTU que apoie a candidatura de Randolfe? Nos parece um argumento frágil para não concretizar a Frente no Rio. Em recentes declarações no Amapá o senador aponta para possibilidade de renunciar à pré-candidatura à presidência da República para concorrer ao governo do estado. Se nem o senador está convicto de sua candidatura, por que exigir que o PSTU deposite sua confiança nesse projeto? Esse desculpa, sinceramente, não dá. Até porque a Frente de Esquerda já está firmada em pelo menos São Paulo, Belo Horizonte, Rio Grande do Sul, Alagoas, Distrito Federal, só para citar alguns exemplos.
O segundo argumento: em momento algum colocamos como critério irrevogável o tempo de TV. Afirmamos que o tempo de TV do candidato do PSTU teria que ser respeitado, no marco que somos outro partido, e não somos uma corrente interna do PSOL. Para que não fique dúvida, em momento algum reivindicamos integralmente o tempo de TV que caberia ao PSTU. Ao contrário, uma parte do tempo que nos é de direito estaria a serviço da Frente de conjunto, ou seja, beneficiaria também os candidatos do PSOL.
O que está por trás da ruptura do PSOL?
Para o PSTU o programa da Frente não é algo secundário que pode ser encarado com formalidade. Ao contrário. Para nós o programa é parte fundamental da construção de uma Frente. Já o PSOL pensa diferente. O que determina a política desse partido são critérios eleitorais. A grande verdade é que a candidatura de Cyro Garcia ameaça a eleição de um candidato do PSOL.
Consideramos totalmente legítimo o nosso desejo de eleger um deputado. Cyro Garcia tem 38 anos de militância e está provado na luta de classes. Esteve em muitas lutas de nossa cidade e do país e vive como um proletário. É um bancário aposentado que complementa sua renda dando aulas em uma universidade privada a noite.
Por mais que tenhamos diferenças programáticas profundas, consideramos justa a eleição de Chico Alencar e Marcelo Freixo (para citar alguns exemplos) porque representam setores do movimento social. Cyro Garcia seria um ponto de apoio fundamental a luta dos trabalhadores.
Vamos ao programa. Nossas polêmicas não seria um impeditivo para a constituição de uma Frente. Seria possível chegar a um programa comum para viabilizar essa tática eleitoral. Mas não queremos deixar de expor nossas preocupações com as declarações do pré-candidato ao governo do estado, Tarcísio Motta, em entrevista ao jornal O Dia, no dia 2 de junho. Tarcísio, perguntado pelo repórter se era contra as UPPs, respondeu: “Não. Mas ela precisa ser mais do que isso. O governo a apresenta como polícia comunitária. Ela é na verdade o policiamento da vida comunitária, que fica subordinada à polícia. Isso é militarizar o cotidiano das pessoas. E a gente é contra. É preciso construir uma política de segurança que tenha a garantia de direitos básicos das pessoas”. Nós do PSTU pensamos o contrário. Somos radicalmente contra as UPPs e não acreditamos que ela possa ser reformada ou transformada em “UPP Social”.
Além disso, Tarcísio respeita a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal, que é uma forma do governo garantir o superávit para pagar os banqueiros nacionais e internacionais: “(...) no caso do Rio nem é tão difícil de valorizar o servidor porque a lei de responsabilidade fiscal coloca o limite de 49% da receita para gastos com pessoal. O Rio não chega a 30%. Então, há uma margem grande para fazer isso. É uma questão de prioridades. É fácil de resolver? Não. Mas essa negociação vai acontecer”. Consideramos que a LRF deve ser abolida. Só assim o estado terá dinheiro para investir pesado nos servidores públicos, escolas, hospitais, moradia e transporte.
O programa da Frente ao nosso ver deveria ter um caráter classista e socialista, que defendesse a suspensão das dívidas aos bancos; o fim das privatizações e reestatizações das empresas estratégicas (entre elas as de transporte coletivo); fim das terceirizações na saúde e educação; desmilitarização e o fim da Polícia Militar; e combate a toda forma de opressão e discriminação às mulheres, negros e homossexuais.

A direção do PSOL, principalmente seus candidatos mais fortes, está contra um programa classista. As declarações de Tarcísio tentam ganhar a confiança de setores mais amplos da sociedade, que são inimigos dos interesses da classe trabalhadora. Os 12 anos da eleição do PT a presidência da República já comprovaram que a conciliação de classes é um projeto falido, que leva os movimentos sociais a derrota. 

Rio, 14 de Junho de 2014.

Direção Estadual PSTU-RJ