Minha Casa, Minha Luta! Contra despejo: A Comunidade Metrô Mangueira no Rio de Janeiro resiste


Os jornais cariocas comemoram que o mercado imobiliário está “esquentando”, e não é para menos. O Rio de Janeiro sediará vários eventos esportivos que significam grandes empreendimentos do capital financeiro. O dinheiro para a realização vem dos bancos que reportam grandes lucros nestas últimas semanas. São os lucros, não os eventos em si, que são esperados e comemorados antecipadamente pelos setores sociais ligados ao governo da prefeitura, Eduardo Paes, e ao do estado, Sérgio Cabral, do PMDB.
Mas, os jornais não informam sobre as comunidades ameaçadas de despejo por conta de estarem localizadas em “áreas de risco”, segundo a prefeitura. Esta categoria técnica encobre o despejo motivado nos interesses do setor imobiliário. Em particular, a comunidade do Metrô Mangueira é classificada como “risco” por ficar perto dos trilhos do trem e do metro, nas imediações do estádio do Maracanã e da Estação Mangueira do trem. Sem apresentar oficialmente o que será construído no lugar pela prefeitura, os moradores foram informados que o local se transformará em um estacionamento para atender à demanda nos jogos olímpicos e na copa do mundo.
Desde o dia 26 de julho, a Prefeitura tem começado a ofensiva contra a comunidade, marcando a porta das moradias com a sigla SMH pichou , removendo algumas famílias Cosmos, a periferia da zona oeste do Rio de Janeiro.
Com o argumento falso de inscrição para o Bolsa-família, os moradores assinaram documentos que declaravam a precariedade de seus lares. Posteriormente, a Secretaria Municipal de Habitação, SMH, começou o despejo de algumas famílias com o pretexto de que a precariedade configura risco, por ficar perto das linhas de trem e metrô, interditando e derrubando algumas casas. A Prefeitura, derrubando as casas, tenta garantir o não retorno das famílias para o local.
Os moradores estão reorganizados hoje. Não confiam na Prefeitura e falam de que “Minha casa, é minha luta”. Tiraram da diretoria lideranças que se venderiam ao governo, ou que facilitariam a divisão entre os moradores. Desde finais de outubro até agora, contam com a solidariedade da Pastoral de Favelas e da Central Sindical e Popular CSP Conlutas. Já participaram de uma passeata até a prefeitura e também realizaram junto com o MTST um protesto, ocupando alguns ministérios em Brasília, entre outros atos.
As mulheres dessa comunidade estão bem engajadas nas tarefas. Elas são a maioria das lideranças. Das 700 famílias, aproximadamente, muitas crianças estudam na escola no Maracanazinho. A maioria trabalha no setor do comércio no centro do Rio ou por conta própria na mesma região. Existem famílias que moram há 40 anos, cuja maioria pagou pelas moradias nas quais residem, algumas custando até R$15.000,00. No lugar, inclusive, há lojas que prestam serviço no setor automobilístico, com alvarás e recibos de impostos. A comunidade conta com uma sede da associação de moradores, um campo arrumado para que crianças e jovens brinquem, com igreja também; isto é, uma área consolidada de moradias de trabalhadores pobres. Não são barracos!
A palavra de ordem na comunidade é “permanecer”, não aceitar o oferecimento da prefeitura de ir para Cosmos, periferia da Zona Oeste do município. Teriam de percorrer, no mínimo, 2 horas para chegar ao lugar de trabalho, no Centro do Rio de Janeiro, com trens e ônibus lotados. Não há escola próxima ao local de remoção das famílias, muito menos posto de saúde que as atenda, o que será uma ruptura das relações de solidariedade entre vizinhos que se conhecem há anos. E por falar em vizinho, é notória a influência das milícias em boa parte da Zona Oeste, que mudaria a rotina dos moradores, determinando coisas como a hora que devem chegar sair ou dormir.
A comunidade participará da semana de lutas, do dia 19 ao 26 de novembro, da CSP Conlutas, no Rio. Lutas contra despejo de moradores acontecerão por conta do lucro que significam os eventos para bancos e empreiteiras relacionadas à indústria da construção. Os governos do Estado e da Prefeitura serão, como até agora foram, correia de transmissão do governo PT, da Presidenta Dilma agora, no que se refere à criminalização das lutas que resistem à redução de gastos públicos em habitação, em saúde ou em educação.
Por Cleofe Diaz, CSP-CONLUTAS-RJ